Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

Programa nº 139

Mauro Malin

>>Fatos é que assanham a mídia
>>Cenas de 30 anos atrás

Por Mauro Malin em 15/11/2005 | comentários

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Fatos é que assanham a mídia


A rapidez com que se formaram na imprensa nuvens sobre a cabeça do ministro Antonio Palocci pode dar a impressão de que os jornalistas se deixam levar por uma espiral de linchamento midiático, sobretudo no momento em que valentões retóricos já se apressam a pedir o afastamento do presidente da República. Hoje, a Folha dá destaque a um libelo do professor Mangabeira Unger na linha de Diogo Mainardi, colunista da Veja. Ambos querem pôr fim ao governo Lula.


A mídia pode estar assanhada, mas não inventou os fatos que colocam Palocci contra a parede. Assim como não inventou os que levaram à queda de José Dirceu, José Genoíno, Luiz Gushiken, os aliados Roberto Jefferson e Severino Cavalcanti, entre outros, menos notórios.


Trevas de Santo André


O assassinato do prefeito Celso Daniel é um episódio que só fica mais obscuro com o passar do tempo. Os depoimentos no Congresso tornam mais evidentes conflitos entre a polícia paulista e o Ministério Público. A mídia segue a reboque. Um dos presos ouvidos ontem diz que foi torturado.


O mistério da fita da tortura


Não pode haver quem tenha visto a fita de vídeo com cenas de tortura num trote de sargentos do 20° Batalhão de Infantaria Blindado sem se perguntar como ela foi obtida pelo Fantástico.


A falta de qualquer menção à forma como o vídeo chegou à Globo retira transparência do episódio jornalístico. Omissão que contribui para aumentar a sensação de opacidade que no Brasil envolve quartéis e redações, entre muitas outras instituições ou instâncias da vida pública.


Esse trote foi chocante, mas não foi pior do que um dado por estudantes de Medicina da USP em1999, quando morreu o calouro Edson Tsung Chi. E a reação do Exército, segundo o coronel da reserva Geraldo Cavagnari, pesquisador da Unicamp, foi nítida e inquestionável: afastar os envolvidos e o comandante e passar o caso para a Justiça Militar.


Cenas de 30 anos atrás


O Alberto Dines faz o elo entre o episódio atual e outro, do tempo da ditadura militar.


Dines:


– Mauro, você tocou numa questão crucial. Quem forneceu à TV Globo o vídeo do trote dos sargentos? Foram as vítimas? Foram os agressores, que se divertiam com o seu sadismo? Foram os oficiais superiores? Não é a primeira vez que a mídia recebe uma denúncia clandestina feita por terceiros e deixa de informar como a obteve. Aqui não se trata de proteger a fonte de uma investigação jornalística mas de obstruir a justiça, já que a revelação do nome do intermediário será inevitável. No caso do vídeo da propina nos Correios entregue à Veja a verdade apareceu logo em seguida com a confissão do araponga em plena CPI.


O Exército terá que punir os responsáveis pela violência num quartel e nesta ocasião será obrigado a revelar como é que o vídeo saiu das mãos dos agressores e foi parar nas mãos de uma rede de TV. O mais importante, porém, é que por casualidade fomos remetidos ao passado e obrigados a encarar cenas de brutalidade que imaginávamos definitivamente removidas da nossa vida. E por coincidência também, hoje à noite vamos reapresentar o programa para lembrar os 30 anos do assassinato de Vladimir Herzog em dependências dos órgãos de segurança em São Paulo. Às dez e meia na TVE e às onze horas na TV Cultura.


República brasileira


Ainda uma coincidência, Dines, é que nesta terça-feira, 15 de novembro, se comemora o centésimo décimo sexto aniversário da República brasileira.


O fim da monarquia foi um momento de glória da imprensa, que deu uma contribuição substantiva para o avanço da idéia republicana. Fazer apologia da República era crime desde 1824, ensina a historiadora Silvia Fonseca na edição deste mês da Revista de História da Biblioteca Nacional.



República francesa


República mais importante e mais antiga é a da França, onde o edifício social está em xeque. Na Folha de S. Paulo de hoje o ensaísta americano Douglas Ireland mostra como os guetos suburbanos franceses são fruto de uma política industrial que precisava atrair mão-de-obra para compensar o déficit demográfico causado principalmente pela Primeira Guerra Mundial. Fruto também da maneira como foi realizada a descolonização da Argélia. E do fracasso das políticas sociais da esquerda e da direita nas últimas décadas.


Seria preciso acrescentar que a mídia francesa, que não é das mais brilhantes, também fracassou.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/11/2005 taciana oliveira

    Será que realmente os fatos não foram inventados? Acredito que talvez não. Mas, no mínimo foram criados ou recriados, na medida em que um acontecimento é pinçado bombasticamente de um contexto e /ou tansferido para outro,sem o menor pudor e altamente adjetivado ou cheio de reticências e ‘caras e bocas’.
    Quer uma prova, no mínimo da inexatidão intencional ? O articulista cita Severino como aliado. Certo. Toda a imprensa ( raras exceções) passou todo o tempo da ‘crise severina’ fazendo o mesmo, sem lembrar nem uma vez que o Deputado chegou a Presidente da Câmara, altamente festejado com ‘El Vingador’, por ter sido o governo retumbantemente derrotado. Na hora da crise, ele passou de vingador a nordestino corrupto- pernambucano igual ao ‘outro’, para ser mais específico – e aliado desde criancinha do PT. E o que é
    mais grave, todas as notícias sobre corrupção eram editadas na TV em um só bloco, dando continuidade às próprias e cativas do governo, dando sempre a impressão de se tratar de uma grande reportagem onde o protagonista era um só e os outros, meros coadjuvantes.
    Outra coisa interessante é a amnésia seletiva, principalmente da Veja, que hoje esquece da luta do PT para apurar a morte de Celso Daniel e cria uma intencionalidade
    criminosa de esconder os fatos, exatamente dos vitimados politicamente.
    Era bom voltar a perguntar: ‘A quem interessa(ssou) o crime?’. Não desacredito que houvesse corrupção em Santo André, não desacredito que houvesse caixinha para o PT, agora, estabelecer uma rígida relação umbilical entre elas e a morte de Celso Daniel é ir muito longe, pois não? Por que o PT precisaria matar o Prefeito para esconder a caixinha? É óbvio que se ela existia ,ele devia saber ou pelo menos, pelo seu status moral no Partido e na Campanha, ter condições de se impor a respeito. Não é mais lógico, a se seguir a teoria da conspiração tão cara ao próprio PT, que o esquema de corrupção quizesse eliminá-lo, principalmente se se tratasse de grupo composto por pessoas que ‘morderam a mão’ que ele lhes deu?
    São essas coisas que me preocupam, notadamente quando vejo as notícias de 30, 40 e 50 anos atrás. Será acreditar em duendes, achar que algum grupo de fora está interessado em atingir, por exemplo a nossa economia? Por que, afinal, não provado ainda mensalão nem nada, dirigiu-se o foco da crise para Palocci? Por que acredita-se que o governo não afunda ou por que ,na realidade só se quer atingir é a própria economia? Talvez eu esteja vendo ratinhos na sopa, mas,- me socorra Dines ! – eu acho que já vi filmes parecidos com esse!

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