Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

Programa nº 598

>>Fazendo história
>>O abismo social

Por Luciano Martins Costa em 30/08/2007 | comentários

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Luciano:

O comportamento da imprensa diante dos primeiros resultados do julgamento no Supremo Tribunal Federal é o de torcida organizada.

Mas, a rigor, tudo que o leitor recebe é opinião, transcrição e declaração.

Hoje é dia de rescaldo nos escândalos.

Mas também há boas notícias, que infelizmente ficaram escondidas.

Fazendo história

Dines:

– A mídia, toda a mídia, está dando pulinhos de alegria com o resultado da primeira fase do julgamento do chamado mensalão no Supremo Tribunal Federal. É preciso lembrar que a mídia não criou o mensalão, ele ofereceu-se à mídia – primeiro na forma do vídeo da propina nos Correios entregue à Veja, depois na forma da entrevista de Roberto Jefferson à Folha e, finalmente, através da cobertura ao vivo das sessões da CPMI pelas TV-Câmara e TV-Senado através das quais a sociedade avaliou a extensão do escândalo. Está na hora de ajudar a investigar, gastar sola de sapato. Textos analíticos e opinativos servem aos leitores, mas não servem aos juízes. Por outro lado, é preciso levar em conta que jornalistas não são policiais, nem fazem parte do Ministério Público. Da imprensa o que se quer nesta segunda fase dos processos é que não esqueça de cumprir estritamente a tarefa de divulgar os fatos. Sem pressa, sem apelação, sem leviandade, com cuidado e, sobretudo, sem esquecer que estamos fazendo história.

Luciano:

Ouvindo conversas


Uma nova inconfidência do ministro Ricardo Lewandowski, pirateada pela Folha de S.Paulo, dá uma idéia de como os magistrados se sentiram acuados pela imprensa durante o julgamento.

Diz a Folha que, em conversa telefônica. Lewandowski comentou com um interlocutor que ‘a imprensa acuou o Supremo’.

‘Todo mundo votou com a faca no pescoço’, teria dito o magistrado.

O relato da Folha sobre a suposta conversa telefônica do ministro indica que o julgamento, do qual resultou a abertura de processos contra todos os acusados, foi influenciado pela pressão da mídia.

Troca de mensagens

Ricardo Lewandowski também teria comentado, na conversa telefônica reproduzida pela Folha, que a tendência dos magistrados era ‘amaciar’ para o ex-ministro José Dirceu.

Os votos, segundo ele, foram mudados após a divulgação de sua troca de mensagens com a ministra Carmen Lúcia.

Lewandowski foi o único que votou contra a abertura de processo contra Dirceu por formação de quadrilha.

O relato da suposta conversa telefônica é a manchete de hoje da Folha de S.Paulo. Bisbilhotice exagerada de jornalistas ou liberdade de imprensa?

Com medo de bate-boca

O Estado de S.Paulo afirma que a conversa online da semana passada, na qual Lewandowski insinuava que o ministro Eros Grau poderia trocar seu voto pela indicação de um amigo ao STF ainda vai dar pano para manga.

Segundo o jornal, Eros Grau vai interpelar oficialmente Lewandowski.

Alguns ministros temem que no caso acabe em bate-boca no plenário.

Novas provas

O Globo traz hoje a autêntica anti-manchete, ao anunciar que o procurador-geral da República afirma ter provas para condenar os réus.

Ora, sendo responsável pela acusação, não se esperava dele que dissesse o contrário.

O Estado de S.Paulo foi mais afirmativo: o jornal paulista assume que o procurador-geral Antonio Fernando Souza já tem novidades para incluir no processo.

Segundo o Estadão, novos laudos demonstram a transferência de dinheiro do Banco do Brasil para a DNA, uma das agências de publicidade envolvidas no escândalo.

O procurador declara, em entrevista, que também vai denunciar, em breve, o chamado ‘mensalão’ mineiro, que envolve o senador do PSDB Eduardo Azeredo.

Ao anunciar que irá desvendar as origens mineiras do esquema que teria sido montado pelo publicitário Marcos Valério, o procurador abre o leque de partidos no escândalo e afasta comentários de que estaria visando apenas o PT e seus aliados.

O abismo social

Longe da política, outro destaque dos jornais de hoje traz a face mais perversa do problema social no Brasil: pesquisa feita pelo IBGE nos anos 2002 e 2003 revela que, nesse período, os 10% mais ricos gastaram dez vezes mais que os 40% mais pobres.

A pesquisa foi feita ao longo de doze meses, durante os quais os técnicos visitaram 60.511 residências, observando o comportamento de cada família por nove dias.

Como sempre, quando trata de estatísticas, porém, a imprensa se prende demais aos dados e não oferece ao leitor uma compreensão sobre a profundidade do abismo social que esses números representam.

Dizer que um grupo social gastou dez vezes mais que outro não dá ao leitor uma dimensão do que essa diferença significa em termos de qualidade de vida.

A Folha de S.Paulo foi o jornal que deu mais destaque ao tema, relatando como os gastos das famílias denunciam as diferenças sociais que ainda predominam no Brasil..

Notícia escondida

Os jornais continuam viciados em esconder as boas notícias: o Brasil alcançou neste ano duas das oito metas do milênio, mas o fato não aparece nas manchetes.

O terceiro relatório de acompanhamento dos objetivos do milênio, divulgado ontem pelo presidente Lula, revela que a pobreza extrema no Brasil caiu de 8,8% da população para 4,1%.

O Brasil também superou a meta de reduzir a fome, medida pelo número de habitantes com desnutrição protéico-calórica.

Essas são dois dos oito compromissos fiarmados pelos pasíses signatários da Declaração do Milênio.

Os números indicam que cerca de 4 milhões e 700 mil brasileiros saíram da miséria.

Destaque para o pior

Há motivos reais para celebrar, mas apenas o Globo deu destaque para a boa notícia, dedicando a ela duas páginas inteiras, lembrando que, dez anos antes do compromisso, o Brasil reduz pobreza pela metade.

O Estado de S.Paulo preferiu observar que ainda há 7  milhões e meio de pessoas vivendo com uma renda per capita inferior a 40 reais.

Das oito metas do milênio, o Brasil também já cumpriu uma terceira, ao elevar de 81,4% para 94,5% o total de crianças entre 7 e 14 que frequentam a escola.

Os números são animadores, mas ainda persistem as diferenças étnicas e de gênero.

E ainda há muito para ser feito, principalmente em educação e saneamento.

Marcando posição

Os dados se referem ao período entre 1990 e 2005.

A Declaração do Milênio foi assinada no ano 2000 e prevê um grande esforço global para a melhoria das condições de vida das populações mais pobres.

No Brasil, os ganhos se concentram nas regiões mais atendidas por programas de complementação de renda.

Ao anunciar as boas notícias, o presidente Lula capitaliza o crédito para suas políticas sociais.

E de certa forma, seu anúncio poderia reduzir o impacto negativo dos processos contra o ex-ministro José Dirceu e outros ex-dirigentes do PT no Supremo Tribunal Federal.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/09/2007 Carlos N Mendes

    Fazendo história. Há 14 anos, eu disse a alguns colegas de trabalho que Lula seria melhor presidente que FHC, porque a ‘marcação’ emcima de seu mandato seria tão grande que nenhum erro seria perdoado – Lula teria que andar na linha. Profeticamente, observa-se tremendo esforço de investigar, cobrar, enquadrar e esmiuçar cada palavra, gesto, atitude e intenção de cada membro do Governo Lula. Não há perdão ou boa vontade, pelo contrário. Estamos vendo o ex-poder atuando em auto-campanha eleitoral. O grande problema aqui é que, ao demonizar tudo que é PT ou Lula em seu favor, a imprensa desqualifica a verdade que por acaso possa existir em suas páginas. Falo olhando aqui do meu canto de leitor, é a impressão que se tem. A verdade é a essência da notícia. Este é um jogo perigoso. Não vale a pena destruir credibilidade para se retomar o poder. A Veja pode ser a primeira vítima – está declaradamente ‘jogando para a torcida’. Agora, em relação a ‘fazer história’, seria muito bom saber porque nos esquivamos de fazer história nas privatizações, na reeleição, nos anões do Orçamento, no Valerioduto 1, na pasta rosa e em tudo mais que envolvesse direita no Brasil. Fazer ‘justiça’ para capitalizar lucro político não é fazer história, é fazer o de sempre.

  2. Comentou em 30/08/2007 Ivan Moraes

    ‘Bisbilhotice exagerada de jornalistas ou liberdade de imprensa?’: 10 razoes pra despedir sumariamente um ministro que, num celular, conversa em restaurantes a respeito de casos correntes: 1-conversa em restaurantes a respeito de casos correntes; 2-conversa em restaurantes a respeito de casos correntes; 3-conversa em restaurantes a respeito de casos correntes; 4-conversa em restaurantes a respeito de casos correntes; 5-conversa em restaurantes a respeito de casos correntes; 6-conversa em restaurantes a respeito de casos correntes; 7-conversa em restaurantes a respeito de casos correntes; 8-conversa em restaurantes a respeito de casos correntes; 9-conversa em restaurantes a respeito de casos correntes; e finalmente 10-conversa em restaurantes a respeito de casos correntes. Se for o caso eu ‘me enxergo’ pra ele rapidinho, me da uma chance, meia chance. Um decimo de chance.

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