Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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Programa nº 759

>>Fogo no paiol
>>O crime e o espetáculo II

Por Luciano Martins Costa em 15/04/2008 | comentários

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Fogo no paiol

Os jornais brasileiros deram grande destaque ao que parece compor uma nova onda de restrições ao projeto de desenvolvimento da indústria de biocombustíveis.

Uma declaração do sociólogo suíço Jean Ziegler, que é relator especial da ONU para o tema direito à alimentação, ganhou manchetes pelo mundo e repercutiu no Brasil, mas o noticiário deixa de fora aspectos importantes do tema.

Ziegler afirmou que a produção maciça de biocombustíveis é ‘crime contra a humanidade’.

Ele estava se referindo especificamente ao etanol de milho, produzido nos Estados Unidos graças a subsídios que chegam a 6 bilhões de dólares, mas citou também os ‘grandes emergentes’, entre os quais o Brasil se destaca.

Foi como fogo no paiol: na onda da frase retumbante de Ziegler vem uma série de declarações oportunistas, que os jornais reproduzem sem colocar nos contextos adequados.

Como se soubesse de antemão o barulho que faria o relator da ONU, o governo da França divulgou ontem uma proposta para conter os preços dos alimentos cuja base é a mesma velha política protecionista da agricultura européia contra as importações dos países emergentes.

Com exceção do Estado de S.Paulo, que conta com a experiência do correspondente Giles Lapouge, os jornais passam por cima das grandes diferenças entre a produção agrícola na Europa e em países de  lavouras extensivas como o Brasil.

No frigir dos ovos, o que rescende por trás dos alertas sobre o risco de aumentar a fome no mundo é a manutenção de privilégios históricos e insustentáveis no comércio mundial.

Outra vez o paté de foie-gras versus a tapioca.

Mas também pode-se perceber certas jogadas oportunistas em pleno território nacional.

Na cauda das declarações contra o suposto risco que os biocombustíveis causariam à oferta de alimentos, os produtores nacionais aproveitam para tentar reduzir as exigências de controle dos danos ambientais nas fronteiras agrícolas.

O governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, que coincidentemente é um dos maiores produtores de soja do mundo e, entre os grandes, o que está mais perigosamente próximo da floresta amazônica, foi ao presidente Lula pedir que seja aliviada a pressão sobre os desmatadores.

Demonstrando todo seu espírito público, Maggi avisou que, se for mantida a suspensão de financiamento para os destruidores da floresta, o Mato Grosso vai deixar de produzir milho, soja e algodão e o preço dos alimentos vai subir mais.

Enquanto isso, o preço do petróleo bate outro recorde e o diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo faz vazar a informação de que o Brasil tem um novo campo gigante a ser explorado na Bacia de Santos.

Os donos de ações da Petrobrás ganharam em média mais de 6% instantaneamente com a divulgação da notícia.

Para o leitor distraído, a descoberta de poços gigantescos de petróleo não bate com aumento do preço dos combustíveis, o aumento da produção agrícola não combina com inflação nos preços dos alimentos, e a fome no Haiti ou na África não deveria combinar com mais medidas protecionistas para os produtores de queijo de cabra na Europa.

Mas é assim que as notícias chegam: como se uma coisa não tivesse mesmo nada a ver com a outra.

O crime e o espetáculo II

As emissoras de televisão têm dedicado proporcionalmente um tempo muito maior ao caso da morte da menina Isabella Nardoni do que a qualquer outro fato de relevância mundial, como o risco de uma crise global de alimentos.

Por mais que se observe o comportamento da mídia, menos se entende sua incapacidade ou seu desinteresse em estabelecer alguma ponderação entre o que é notícia e aquilo que já virou espetátulo.

Um espetáculo mórbido, mas ainda assim espetáculo.

O promotor encarregado do caso virou celebridade, os anônimos buscam um lugar privilegiado no ângulo de visão dos cinegrafistas, para também aparecerem na TV gritando suas sentenças apressadas.
    
Alberto Dines:

– A intensa cobertura do assassinato da menina Isabella Nardoni deixa algum resíduo no espírito dos telespectadores, ouvintes e leitores? Sem respeitar o segredo de justiça, comandada pelas leis do espetáculo, a tragédia deixa de ser tragédia e resume-se a uma telenovela policial. Se a mídia não consegue fazer o público pensar, venha pensar um pouco no Observatório da Imprensa. Hoje às 22:40, ao vivo pela TV-Cultura e TV-Brasil.

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/04/2008 Wilma Pessôa

    O circo da mídia venceu mais uma vez, a tragédia do assassinato da Isabella Nardoni transformou-se num espetáculo grotesco. A histeria coletiva, a disputa entre representantes da polícia e dos acusados e os anônimos, palpiteiros e ‘especialistas’ em tudo desqualificam todo o trabalho de cobertura que deveria ser, no mínim, responsável.
    Agora a questão principal não é esclarecer o caso e fazer justiça, é quem dá o furo de reportagem e arrecada mais pontos na mídia, mesmo que à custa do desrespeito com os envolvidos e do incentivo ao linchamento.

  2. Comentou em 16/04/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    Mais uma vez a idéia de substituir o todo pela parte. Nos dias de hoje, quando o cidadão comum (não o crítico, não aquele que fundamenta suas idéias em análises consistentes) é capaz de saber o que vai pelo mundo ao click do mouse, torna-se patética a intenção das corporações de mídia em difundir as notícias. Ora, o povão, agora, consegue beber de diversas fontes e acaba percebendo má-fé quando alguém o tenta ludibriar.

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