Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

Programa nº 1383

>>Macunaíma não foi
>>Rasgando a fantasia

Por Luciano Martins Costa em 23/09/2010 | comentários

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Macunaíma não foi


O número de manifestantes não foi suficiente para preencher o espaço montado diante das arcadas da faculdade de Direito do Largo de São Francisco, no centro de São Paulo, mas o evento foi considerado importante o suficiente para compor a manchete do Estadão desta quinta-feira.


Olhando-se as fotos da manifestação, nota-se que o cidadão comum, aquele que certos intelectuais costumam chamar de “macunaíma”, não compareceu.


“Juristas, acadêmicos e artistas, além de políticos tucanos”, segundo o jornal, fizeram o Manifesto em Defesa da Democracia, no qual acusam o presidente Lula da Silva, que deve deixar o cargo no final do ano, de tramar contra as liberdades civis.


Um dos manifestantes, o jurista Miguel Reale Júnior, chegou a afirmar que “Lula age como um fascista”.


O jornal agasalha o exagero, próprio de campanha, sob a reputação do jurista em função de cabo eleitoral.


Observe-se que os demais jornais de circulação nacional – Folha de S.Paulo e O Globo, deram destaque menor ao acontecimento.


A Folha nem chega a citar a manifestação em sua primeira página e o Globo, com uma foto do jurista Hélio Bicudo, faz apenas uma breve referência.


Os destaques são divididos entre o resultado da pesquisa Datafolha, que mostra pequena queda na preferência pela candidata Dilma Rousseff, e novas denúncias de nepotismo no governo.


Os dirigentes da campanha do candidato oposicionista devem ter concluído que escândalos envolvendo parentes de políticos fazem mais estrago do que os que se referem a temas mais complicados, como a quebra de sigilo na Receita Federal.


Como a campanha pauta a imprensa, esse deverá ser o tema predominante nas primeiras páginas dos jornais nos dias que faltam para as eleições.


Na página inteira dedicada à manifestação do Largo de São Francisco, que juntou pouco mais de 300 pessoas, o evento é chamado de “mobilização da sociedade civil” e comparado ao lançamento, feito em 1977 no mesmo local, da “Carta aos Brasileiros”, quando personalidades do mundo jurídico e intelectual, diante de uma multidão de estudantes, marcaram o início da resistência organizada contra a ditadura militar.


O exagero do Estadão, mais do que atingir o decoro jornalístico, representa uma afronta à História.


Afora as diatribes corriqueiras de campanha política, não há em medidas ou atitudes do atual governo qualquer ameaça que se compare ao que representou a ditadura militar. 


Rasgando a fantasia


O movimento inaugurado no Largo de São Francisco terá desdobramentos, segundo informa o Estadão.


Manifestação semelhante estava programada para esta quinta-feira, no Rio.


Muito simbolicamente, o ato foi marcado para a sede do Clube Militar, cenário de tantas conspirações golpistas, e tem como um de seus animadores um general da reserva.


Enquanto isso, o noticiário em geral começa a ser vertido para o caldeirão da campanha.


Em todos os jornais, o candidato da aliança oposicionista, José Serra, ganha destaque ao afirmar que a pane na linha Vermelha do metrô de São Paulo, que prejudicou milhares de pessoas na terça-feira, foi provocada por seus adversários.


“Não tenho dúvidas de que há interesses eleitorais nisso”, declarou, segundo reproduz a imprensa.


Em outra seção dos jornais, técnicos explicam que a pane foi provavelmente provocada por excesso de lotação e que a linha Vermelha do metrô paulistano é a mais carregada, com 9,8 passageiros comprimidos por metro quadrado.


Os editores não consideraram importante confrontar a declaração do candidato com o parecer dos técnicos.


As desonestidades da campanha parecem ter afetado irremediavelmente a mídia.


A dez dias das eleições, a imprensa rasga a fantasia e sai do armário.


Se preciso, vai apoiar e dar repercussão a um inusitado debate sobre liberdades civis no Clube Militar, o que representa uma metáfora de péssimo gosto.


Chamar os militares para protagonistas da disputa eleitoral, ainda que no papel de mestres-de-cerimônia, é uma jogada de alto risco que pode manchar a biografia de algumas figuras da República.


E atingir a reputação da chamada grande imprensa.


A pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira tem como grande novidade o crescimento da candidata Marina Silva, que pela primeira vez supera o índice de 10 pontos na preferência do eleitorado.


Mas os analistas de pesquisas eleitorais avaliam que será preciso muito mais escândalos para reverter a tendência que aponta a vitória da candidata governista Dilma Rousseff no primeiro turno.


No dia 3 de outubro vamos ver o que pensam de tudo isso os milhões de “macunaímas”.

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