Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

Programa nº 76

Mauro Malin

>>O fio da meada
>>Aspas não são gazua

Por Mauro Malin em 18/08/2005 | comentários

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O fio da meada


O Globo repõe hoje o noticiário no ponto de partida da crise. Maurício Marinho, o ex-funcionário dos Correios, confirmou à Polícia Federal, em troca de refresco, a simbiose de interesses escusos do PTB do ainda deputado Roberto Jefferson e do PT do ainda deputado José Dirceu na estatal.


Entendimento precário


Assim como o equipamento intelectual do PT não deu conta de ser governo, desde a primeira prefeitura, a realidade brasileira escapa ao entendimento não apenas dos especialistas universitários, mas principalmente das cabeças de redações.


Vê-se de tudo: desde uma certa reverência ao discurso do senador José Sarney, que era nunca foi um luminar da formulação política, até a incapacidade de ligar os fatos. A reação nesta quinta-feira, 18 de agosto, à esperada manutenção dos juros pelo Banco Central é um repeteco acrítico do jornalismo declaratório, menos de indivíduos e mais de atores coletivos, como “analistas”, “empresários” e “sindicatos”.


Não houve uma só boa alma que fizesse a seguinte pergunta: já pensaram o que teria representado o Banco Central baixar os juros básicos, e isso sinalizar fraqueza, no mesmo dia em que foi preso um amigão do ministro Palocci?


Aspas não são gazua


O Alberto Dines questiona o abuso das aspas no jornalismo.


Dines:


− Mauro, eu queria retomar o comentário que você fez ontem a respeito das declarações do doleiro Toninho da Barcelona à delegação da CPI. Os parlamentares foram indiscretos mas a imprensa foi leviana. A imprensa está abusando das aspas como ferramenta de trabalho e não percebe que pode estar consagrando um tipo de jornalismo perigoso.


Difícil acreditar que uma imprensa que vem sendo treinada há três meses neste curso intensivo escândalos ainda não tenha aprendido a resistir à tentação de publicar qualquer coisa desde que venha entre aspas. Ora, o depoente é um infrator condenado a 25 anos de prisão, não tem o benefício da dúvida. Liminarmente suspeito, sua credibilidade é igual a zero. Mas tem todo o direito de acusar. A imprensa é que não tem o direito de veicular suas acusações sem provas.


As manchetes de ontem reproduzindo as denúncias do doleiro envolvendo um ex-ministro e dois ministros, supostamente inocentes, estão muito próximas da irresponsabilidade. As denúncias esquentaram o noticiário, mas quem disse que é legítimo esquentar o noticiário desta maneira? Aspas servem para a pontuação na linguagem escrita, não são atestado de verdade.


Anônimos e notórios


De fato, Dines, é um escândalo jornalístico o que tem sido feito com aspas. E não só no Brasil. Pelo mundo afora. A revista The Economist, por exemplo, apela ao recurso maroto de dar entre aspas declarações de fontes não identificadas.


Aspas indevidas podem ser usadas também para declarações públicas, como se viu no noticiário do sábado passado sobre o discurso do presidente Lula. Reproduzir suas palavras entre aspas em manchetes foi uma das barbeiragens jornalísticas da temporada.


Grandes lambanças da cobertura do “mensalão”


Por falar em barbeiragens: quem se lembra de uma denúncia feita no Jornal Nacional em 11 de julho a respeito de pagamento de mensalidades para políticos pela Firjan, a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro? O telejornal mostrou gravações de 2004 em que uma auditora do INSS dizia a uma colega que, em troca de não haver fiscalização em determinadas empresas, José Dirceu e Delúbio Soares recebiam mesada.


A história estapafúrdia era requentada. Tinha sido noticiada pela primeira vez no início de maio, quando a auditora Maria Auxiliadora de Vasconcelos foi presa, e negada imediatamente tanto pela Firjan como pelo Ministério Público. Nunca mais a Rede Globo, ou qualquer outro veículo de comunicação, tocou no assunto.


A fraude houve, provocou um rombo calculado em R$ 3 bilhões, o quadro associativo da Firjan não é uma tropa de escoteiros nem um convento, mas ninguém entendeu como é que Dirceu e Delúbio entraram na história. Eles já estão metidos em trapalhadas suficientes. Não é preciso inventar.


O vôo da Varig


Onde foi parar o plano de redenção da Varig, insistentemente noticiado ao longo de maio, junho e julho? Agora anuncia-se a possível venda da VarigLog, de transportes de cargas. A pergunta básica continua sem resposta: quem vai pagar as dívidas da empresa? O contribuinte?



Iguais perante a lei


Um leitor do blog do Observatório no rádio (ver comentário ao programa 75, abaixo) pede para o PT o mesmo tratamento dado às direções da Schincariol e da Daslu. Faz sentido.

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/08/2005 geraldo moura da silveira

    Uai, e o Roberto Jefferson não era liminarmente suspeito quando detonou a República. Acho que a imprensa está no caminho certo. O destinatário da informação – sua excelência o povo – tem o direito de saber tudo o que se passa nessa imensa pocilga em que chafurdamos. Se houver excessos, habemus lei.

  2. Comentou em 18/08/2005 Mauro Malin

    Pede-se a Rodrigo Siqueira que informe seu e-mail, condição para que seu comentário possa ser publicado.

  3. Comentou em 18/08/2005 rodrigo siqueira

    Caros observadores,
    agora que a palavra impeachment já não está cabendo nas bocarras de setores da mídia, será que os senhores já admitem que os leitores possam estar certos quando dizem a palavra GOLPISMO, também de setores da mídia? Hoje é um dia emblemático. No mesmo dia em que esse mesmo observatório, no blog Contrapauta, republicou a reveladora denúncia do cineasta Fernando Meireles contra alteração deliberada do conteúdo de sua fala à folha, li no folha on line um artigo do editorialista Hélio pedir o impeachment com todas as letras. Comecei a dar risadas. É extremamente engraçado ver o editorialista da folha pedir impeachment quando já estamos lendo nas entrelinhas das manchetes e da cobertura editorializada a opinião que só hoje ele tem a coragem de defender abertamente. É uma piada de redundância. Ontem, escrevi um comentário sobre o texto do Dines (Da arte de comer moscas…), que aliás não foi publicado pelo observatório, em que eu falava de uma outra arte da imprensa brasileira. Trata-se da arte de ESPANTAR AS MOSCAS E PRESERVAR O ESTRUME. Não posso acreditar em seriedade se não se toca na estrutura da corrupção: OS CORRUPTORES. Os interesses da mídia monopolista (empresto o termo de Emir Sader) são vários e outros, não o de fazer um jornalismo decente. Há muitas dívidas a balizar as bocas malditas, como li inclusive num texto do próprio observatório. Pois agora que eles, os tais setores da mídia, deixam crescer o impeachment em suas bocas eu digo também de boca cheia GOLPISTAS !!!!!!! SÃO GOLPISTAS SIM!!!! E a pior atitude do golpismo é a HIPOCRISIA!!!

  4. Comentou em 18/08/2005 Julio Cesar

    A classe política talvez seja a única em relação a qual podemos generalizar sem medo de cometer injustiça. SÃO TODOS IGUAIS!!! A diferença é mínima. Quem é vidraça ou pedra, hoje ou amanhã. Quem está no PAREDÃO de fuzilamento ou quem faz parte do PELOTÃO de fuzilamento. Acompanhando a CPI-Correios, é risível ouvir ACM Neto, neto de quem é, preocupado com a variação patrimonial de Silvio Pereira. Ou o Deputado Ônix não-sei-o-quê, inquisidor, irônico mas que parece não conhece a história do PFL. E o Eduardo Paes, do PSDB? Onde estava ele quando pipocaram os 40 casos de corrupção do governo FHC? Onde ele estava quando a Vale do Rio Doce foi entregue aos estrangeiros? Não vamos nos iludir pelos arroubos moralizantes de alguns membros da CPI dos Correios, ou de qualquer outra CPI. Acompanhando a atual dos Correios, é interessante notar como eles gostam das câmeras, holofotes e microfones! Afinal, haverá eleições no ano que vem. Discursam como se estivessem em palanques. ACM-Neto, Frossard, Faria de Sá, Ônix Não-sei-o-quê, Eduardo Paes, são duros, inquisidores, bravos, impacientes como se estivessem de fato preocupados com os dinheiros públicos. Mas não estão. E o Álvaro Dias, mais preocupado com a plasticidade do seu rostinho que mais parece a b… de uma velha de 80 anos. Eles só estão do outro lado. Não foram chamados para o grande butim. Só isso, nada mais. Repito: são todos iguais!!!!

  5. Comentou em 18/08/2005 Renato Colombo de Almeida

    Tá certo que o Lula é despreparado, o PT não sabe nem roubar, a esquerda se perdeu, o país está à deriva, o Maluf e o PC vão virar personagens de contos infantis, o Governo morreu e só falta enterrar, etc. etc. etc. Agora, o que é duro de aguentar é ver PSDBÊS, PEFELÊS, e outors ‘Ês’ gritarem indignados contra a roubalheira, o desgoverno, a incompetência e a podridão política. Logo eles, que lançaram a cartilha e movimentaram (ou movimentam?) a máquina de triturar um País e seus cidadãos trabalhadores por todos esses longos anos! Eles só estão esperando para atacar a carniça e comer o que sobrou! E ainda tem gente morrendo de medo da ‘Ameaça vermelha’. É nas urnas que a gente pode começar a ‘desratizar’ o País. Não elegendo ninguém, por exemplo! O PT late, mas não morde! A ‘Quadrilha’ está nos dois lados, viu? Tá tudo dominado! Alguém ainda se assusta? Beira-Mar prá presidente! Já que é pra eleger um, vamos com um profissional!

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