Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

Programa nº 403

Mauro Malin

>>Palco e bastidores
>>Ameaça e deturpação

Por Mauro Malin em 27/11/2006 | comentários

Ouça aqui

Download

Palco e bastidores


Existe um combate estridente entre governo e imprensa. O governo usa erros e excessos da mídia como pretexto para combater manifestações críticas. Os principais veículos de imprensa fazem marcação cerrada contra o governismo e não conseguem colocar em primeiro plano um debate menos estereotipado sobre os rumos do país. Enquanto isso, o tecido da comunicação se altera profundamente, e de forma discreta, com a entrada das telefônicas no segmento da televisão.


Ameaça e deturpação


A sugestão de que a mídia faça uma auto-reflexão, contida em entrevista à Folha do presidente interino do PT, Marco Aurélio Garcia, traz uma ameaça: “Confesso que fico espantado quando vejo revistas, que se transformaram em órgãos de difamação política, entupidas de propaganda oficial”.


Difamação é crime e deve ser combatida mediante recurso à lei. Verbas de publicidade supostamente são ditadas pela necessidade de fazer chegar ao público as mensagens do governo.


Na chamada da primeira página de sábado (25/11), entretanto, a Folha fez o dirigente petista pregar a permanência do PT no poder por uma geração. Garcia disse explicitamente na entrevista que não se trata disso. Declarou: “Não estou dizendo que o PT deve ficar no poder. Estou dizendo que precisamos do movimento de uma geração para transformar o país, e gostaria que o PT tivesse um papel protagonista. Quem decide é a sociedade”.


O governo e o PT usam enfrentamentos com a imprensa como cortina de fumaça para seus próprios erros e desmazelos. Mas desfigurar declarações em nada melhora a posição da mídia.



Contra a baixaria


O governo tenta novamente controlar a baixaria na televisão. Segundo Daniel Castro na Folha de hoje, o ministro Márcio Thomaz Bastos assina no dia 11 portaria que muda as regras de classificação indicativa de TV. Valerão também para TV paga. E as emissoras deverão exibir um símbolo para informar ao telespectador as inadequações de cada programa.


Exploração da anorexia


É grotesca a capa da revista Caras que anuncia: “Oito dias antes da internação. As últimas fotos de Ana Carolina”. Se foram tiradas dias antes de uma internação da qual ela saiu morta, a jovem já estava doente. “Veja como estava mal a modelo que morreu de anorexia”, parece ser o convite mórbido feito pela revista.


Os aprendizes ensinam


Uma das participantes do Colóquio Latino-Americano sobre Observação da Mídia promovido pelo Observatório da Imprensa em setembro, a representante da Veeduría Ciudadana de Medios do Peru, Rosa Maria Alfaro, diz que um dos erros de quem tem acesso à produção nos meios de comunicação social é ignorar a efetiva capacidade do público. Supõe-se que ele seja incapaz.


Rosa Alfaro:


– [Que] É um público que não sabe nada, que não tem visões críticas, que está em uma situação quase de recipiente vazio, como dizia Paulo Freire. E, portanto, é necessário “alfabetizá-lo”, é necessário dar-lhe coisas, “injetar-lhe” o conhecimento, a consciência política, etc., etc. Acho que esse conceito definiu relações extremamente verticais. E que hoje em dia trata-se justamente de partir das pessoas, do que aportam, do que sabem, e de trabalhar com elas seu próprio processo educativo, dirigido por elas. Porque elas são os atores de sua própria mudança, e nós somos insumos, somos quem, metodologicamente as mobiliza para avançar, e a gerar um diálogo de tal maneira que seja possível, sim, uma aprendizagem comum.


Mauro:


– Rosa Alfaro diz que aprendeu a fazer radionovelas com mulheres simples de uma pequena povoação.


Rosa Alfaro:


– Eu me lembro que, quando comecei a trabalhar em comunicação, fomos a uma povoação trabalhar com mulheres, e nosso interesse era ensinar-lhes a fazer rádio, para que o usassem em sua cidade. Quando começamos a trabalhar, quisemos fazer um noticiário, não quiseram, não se comprometeram. Um debate, tampouco. Lhes propusemos fazer uma espécie de pequeno documentário, também não. Mas quando lhes foi proposto fazer histórias, começaram a armar umas histórias que elas mesmas dramatizavam, traziam os homens para fazer o papel de homens. Umas histórias… algumas, inclusive, analfabetas, mas sabiam relatar melhor do que nós. Eu aprendi a fazer radionovelas com essas mulheres. Qual foi a ajuda que lhes demos? Valorizar o que sabem. Nesse sentido, creio que essa visão de tirar as pessoas da ignorância é uma visão que é preciso retirar da relação que estabelemos com as pessoas.

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/11/2006 nelson perez de oliveira junior

    A caneta da fofoca e da maledicência ainda é mais poderosa, pois, a imprensa caiu de pau no presidente ao liberar dinheiro para agricultura a pedido de BLAIRO MAGGI, o presidente do PT não tem culpa de ser beneficiado pela reeleição, já que o ESTADO COMPROU ESTE DIREITO POR R$200.000,00 PARA CADA PARLAMENTAR DA BASE ALIADA NO GOVERNO FHC, FATO ‘ESQUECIDO’ CONVENIENTEMENTE PELA IMPRENSA ‘VIGILANTE E FISCALIZADORA’ NO BRASIL. O que me diz da irresponsabilidade da FOLHA na divulgação leviana de que BERZOINI foi o responsável pela compra do DOSSIÊ? eSTE OBESERVATÓRIO ESTÁ NOS OBSERVANDO E AO GOVERNO AO CONTRÁRIO DE VER O PRÓPRIO UMBIGO, SE VCS FAZEM ISTO IMAGINE A FOLHA, A VEJA, A GLOBO E O ESTADÃO!!!

  2. Comentou em 28/11/2006 nelson perez de oliveira junior

    Malin, o presidente não tem caneta para acusar sem provas, para atacar candidatos e enaltecer adversários em pleno processo eletivo fazendo verdadeira propaganda política fantasiada de noticia ou crítica independente. Presidente não pode difamar, não pode reclamar, não pode errar, não pode ter opinião, nem exercê-la pela caneta ou pela voz. Tem caneta para liberar verbas, mas a imprensa persegue os motivos e os alvos prejudicando diretamente a administração para que o POVO o elegeu. QUAL É A CANETA MAIS FORTE, MALIN?

  3. Comentou em 28/11/2006 Ivan Moraes

    ‘Fui chamado de radical, extremista, linchador, antidemocrático, difamador e outros adjetivos do mesmo calibre’ Entao ta bom, Rui, mas voce ainda nao respondeu minha unica pergunta:
    >http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=408MON001<

  4. Comentou em 28/11/2006 Marco Costa Costa

    Os excessos cometidos pela mídia de procurar pretexto para deixar de fazer um debate estereotipado sobre o que é melhor para dar um mínimo de dignidade para a classe trabalhadora. Ao invés disso, a competente imprensa procura trabalhar somente sobre supostos erros governamentais. Ademais, qual é o verdadeiro interesse da imprensa em estar denegrindo a imagem do presidente da República e seus aliados. Este comportamento cheira golpe dos aliados da extrema direita e de seus asseclas, em conjunto com este site.

  5. Comentou em 28/11/2006 Teo Ponciano

    ‘…creio que essa visão de tirar as pessoas da ignorância é uma visão que é preciso retirar da relação que estabelemos com as pessoas.’
    Rosa Alfaro disse tudo. Espero que mais pessoas (inclusive aqui do OI) leiam e aprendam isto.
    Parabéns pela matéria.

  6. Comentou em 27/11/2006 João Motta

    Ô Malin, que resposta é essa? O fato do governo ser mais poderoso não isenta a mídia de auto-reflexão. Coragem. A equação não envolve apenas governo e mídia, a opinião pública também anda insatisfeita com os dois.

  7. Comentou em 27/11/2006 Thogo Lemos

    Será que é verdade? O governo é, realmente, mais forte ou deveria ser? Quem é capaz de derrubar quem? Quantos políticos já caíram por suas burradas e quantos jornalistas pagaram por suas irresponsabilidades ou por seus erros? Qual a probabilidade de o governo retirar o direito de concessão de algum meio de comunicação ainda que este apresente todo o lixo que tem jogado em nossas casas, desrespeitando fragorosamente a Constituição no que se refere às funções que deveriam exercer? Desculpe-me, mas não estou tão certo dessa suposta e suspeita fragilidade. É forte demais a proteção conferida pelo engodo da ‘liberdade de imprensa’.

  8. Comentou em 27/11/2006 nelson perez de oliveira junior

    Quem disse que o GOVERNO É MAIS PODEROSO QUE A MÍDIA? FOI A PRÓPRIA MÍDIA. Malin acho que você devia ler o OBSERVATORIO DE MIDIA, QUE OBSERVOU QUE AS EMPRESAS DE MÍDIA SÃO CONCENTRADAS NAS MÃOS DE POUCOS E SÃO TRANSNACIONAIS. Todo mundo esclarecido sabe que há empresas mais poderosas que países, cujos, faturameontos são maiores que muitos PIBS. Não há mais imprensa NANICA, VAMOS CONTAR? OS MARINHO, OS MESQUITA, OS CIVITA E OS FRIAS SÃO DONOS DA MAIOR PARTE DO QUE SE PUBLICA NO BRASIL. Não há mais a imprensa romântica de GUTTEMBERG, DEPOIS DE CIDADÃO KANE O QUE RESTOU FOI UMA ELITE EMPRESARIAL COMANDANDO ED PAUTANDO A OPINIÃO PÚBLICA, ATÉ A INTERNET… ACABAR COM OS MONOPÓLIOS. O mesmo acontece com a industria do cinema e a fonográfica. Os Governos, meu caro, têm de provar o que dizem e são reféns da imprensa, a IMPRENSA SÓ TEM DE JOGAR NO VENTILADOR…

  9. Comentou em 27/11/2006 Aarao Guimaraes

    Não vi nenhuma nota no O.I. sobre a prisão do jornalista colombiano Freddy Muñoz Altamiranda. Alguém pode me explicar o porquê da omissão?

  10. Comentou em 27/11/2006 Lica Cintra

    Não concordo que o exercício reflexivo deva ser medido proporcionalmente ao poder, refletir é saudável sempre. As pisadas ne bola do governo em nada aliviam as pisadas na bola da mídia. Auto-reflexão já!

  11. Comentou em 27/11/2006 Clarice Furtado

    Com relação à entrevista do Prof. Marco Garcia, na dita, consegue mostrar uma das faces do PT que, quando se sente acuado, faz ameaças. Entendo que os governos em geral não deveriam fazer publicidade de seus feitos, até porque não fazem mais que a obrigação. O presidente é pago para fazer e fazer bem feito. Agora fazer propaganda de campanhas de vacinação, prevenção de doenças, planejamento familiar, etc., etc. é correto. Agora, quando o PT vai deixar o senador Suplicy dar longas entrevistas. Este sim sabe como ‘a banda toca’. Outra coisa, o nosso presidente pelo jeito não conhece um velho ditado que diz: ‘Que Deus me proteja dos amigos, porque dos inimigos cuido eu’, é só observar a série de escândalos.

  12. Comentou em 27/11/2006 Paulo Mora

    Discordo que o governo seja mais poderoso que a mídia: nada é. Qual o único meio de se caluniar sem provas, acusar, condenar, perseguir e convencer sem argumentos sólidos ou provas materiais ? Através da propaganda, da repetição e da mídia. Quem pode acusar na capa e retratar-se na página 21 em letras pequenas ? Qual a profissão que não possui nenhum órgão de fiscalização ou punição ? Em nome da ‘liberdade de imprensa’ atrocidades estão sendo cometidas e qualquer crítica logo vira ‘atentado’ à essa liberdade. O PT e o Governo ERRAM, porém a mídia apenas ‘se equivoca’ ao não ‘noticiar corretamente’. O corporativismo vaza desapercebidamente.

  13. Comentou em 27/11/2006 Ruy Acquaviva

    ___Sr. Malin, sua afirmação:
    ‘O governo e o PT usam enfrentamentos com a imprensa como cortina de fumaça para seus próprios erros e desmazelos. Mas desfigurar declarações em nada melhora a posição da mídia.’
    ___Embora pareça trazer uma crítica À imprensa, cai novamente na tática de negação corporativista do direito que a sociedade tem de criticar os excessos da imprensa.
    ___Ao Governo e ao PT o Sr. atribui ‘erros e desmazelos’ e às criticas da sociedade (eu por exemplo estou criticando e não sou nem do governo, nem filiado ao PT) o Sr. atribui o adjetivo de ‘cortina de fumaça’… Já a uma deturpação proposital de uma declaração, para passar uma informação diferente à realidade (ou seja, uma mentira) o Sr. chama de ‘desfiguração’ e o máximo de crítica que consegue fazer é que ‘em nada melhora a posição’ referindo-se à mídia…
    ___A desproporção no tratamento é evidente… Se o Sr. acha que o Governo é ‘gigante’ e por isso não vale isenção (como se a grande imprensa e principalmente o poder econômico, seu titerista, fossem pequeninos), o mesmo não se pode dizer do PT, que não tem a força e o gigantismo que o Sr. atribui ao governo.
    ___Será que sua frase é uma cortina de fumaça para os erros e desmazelos da imprensa???

  14. Comentou em 27/11/2006 Sérgio Henrique Cunha Zica

    Se uma auto-reflexão de ambas as partes é necessária, e se o Governo é proporcionalmente e por definição muito mais poderoso que a mídia, há de se perceber também que uma auto-reflexão pura é inócua. Sozinhos não hão de sair do lugar, pois este processo não é solitário, mas sim um diálogo entre todas as partes envolvidas: sociedade civil, ong´s, a própria mídia, e órgãos governamentais, etc. Entretanto, apesar desta desproporção, é muito mais transparente a discussão no primeiro campo que no segundo. Enquanto que esta reflexão do governo ocorre de maneira mais ampla, por mais que ocorram resistências internas, já na mídia tal não ocorre. Auto-incensada por expressões como ‘4º poder’, ela mesma é o veículo de sua discussão. Isso, é claro não pode acabar bem. Ainda mais se a cada vez que esta reflexão é proposta pelo governo este é acusado de tirano. E nós, leitores, que também o fazemos, seremos anti-democráticos?

  15. Comentou em 27/11/2006 Ruy Acquaviva

    ___Outro ponto interessante é sua afirmação: ‘Difamação é crime e deve ser combatida mediante recurso à lei. Verbas de publicidade supostamente são ditadas pela necessidade de fazer chegar ao público as mensagens do governo.’ — Mas a necessidade de fazer chegar ao público as mensagens do governo, passa por colocar essas mensagens em veículos que contenham a credibilidade e idoneidade necessárias para que essas mensagens sejam entendidas sem desconfiança ou suspeita. Então os veículos que praticam crime (difamação) não possuem suficiente credibilidade para fazer chegar ao público as mensagens do governo. — É uma questão de aplicar o próprio conceito que o Sr. definiu…

  16. Comentou em 27/11/2006 Ruy Acquaviva

    ___Sr. Malin, realmente ‘Existe um combate estridente entre governo e imprensa’. Tanto que, do mesmo modo que o Sr. diz: ‘O governo usa erros e excessos da mídia como pretexto para combater manifestações críticas’, poder-se-ia dizer: ‘A mídia usa erros e excessos do governo como pretexto para combater manifestações críticas’. ___Eu, que não sou do governo, faço as minhas manifestações críticas e por causa delas fui insultado (juntamente com outros leitores que, assimk como eu, também estão apenas fazendo suas manifestações críticas) pelo Sr. Dines, o Sr. Magnoli e o Sr. Weis. Fui chamado de radical, extremista, linchador, antidemocrático, difamador e outros adjetivos do mesmo calibre. Isso apenas por não concordar com a visão dos referidos jornalistas. ___Interessante, não é???!!!

  17. Comentou em 27/11/2006 Marnei Fernando

    Não sei por que eu venho aqui no OI? nada muda… nem o meu hábito diário de acreditar que finalmente o bom senso coeçará a dar as suas caras por aqui, muito menos a arrogância de certos ‘formadores de opinião’… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma… Na mesma…

  18. Comentou em 27/11/2006 André Martins

    Por que a verba publicitária do governo não pode ser direcionada para os veículos de preferência do governo? Desde que os anúncios não sejam superfaturados, isso contribuiria até para diminuir os gastos do governo. Afinal, uma propaganda numa revista com tiragem de 65 mil cópias sairia bem mais barata que numa revista de 1 milhão.

  19. Comentou em 27/11/2006 Marco Costa Costa

    O governo não é tão poderoso assim, é a dondoca da mídia que deturpa todas as notícias que envolvem os pseudos governantes. O único assunto que os meios de comunicação utilizam com frequência é sobre política governamental. No país não temos problemas que afetam a população, seja ela miserável, ou classe média baixa em extinção, ou não caro mestre?

  20. Comentou em 27/11/2006 Lica Cintra

    Conclusão: governo e mídia precisam urgentemente de auto-reflexão. Os dois lados têm pisado na bola.

Programas Anteriores

1 2 3 4 5 última

1 de 2625 programas exibidos

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem