Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

Programa nº 1385

>>Tirando a máscara
>>Um pseudo-embate no palanque

Por Luciano Martins Costa em 27/09/2010 | comentários

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Tirando a máscara


A imprensa brasileira, ou pelo menos aquela formada pelos títulos que se apresentam como de influência nacional, acaba de inaugurar uma nova relação com a política: o jornal O Estado de S.Paulo anuncia, em seu editorial principal do domingo, que tem, sim, oficialmente, uma preferência na disputa pela Presidência da República.


O candidato oficial do Estadão é o ex-governador José Serra.


O leitor agora espera que o Globo, a Folha de S.Paulo e a revista Veja também façam suas declarações de preferência, como de resto, já havia feito há muito tempo a revista Carta Capital, que apóia a candidata Dilma Rousseff.


Declarado sem mais disfarces seu engajamento, resta explicitar em que essa nova postura do Estadão pode contribuir para a oferta de um jornalismo mais confiável.


Ou o jornalão paulista não considera isso necessário?


É de se perguntar, por exemplo, se o Estadão pretende buscar mais equilíbrio na cobertura dos últimos dias da campanha eleitoral, ou se vai, agora com justificativa pública, continuar favorecendo seu candidato.


Uma das maneiras de concretizar esse favorecimento pode ser observada nas edições de domingo e desta segunda-feira, no seguinte exemplo: as notícias negativas sobre o governo federal e seus aliados, mesmo aquelas de cunho administrativo, são publicadas na seção de política, junto com o noticiário da campanha eleitoral.


As notícias negativas sobre o governo paulista e a prefeitura da Capital, como as que envolvem denúncias de irregularidades na polícia ou obras contratadas sem licitação, são publicadas bem longe do noticiário de campanha, no caderno Metrópole.


Outra dúvida razoável: agora que é oficialmente apoiador de um dos candidatos, o jornal vai admitir que produz reportagens combinadas com os assessores de campanha?


Essas questões deveriam acompanhar a vigorosa declaração de apoio ao candidato.


Não basta o jornal declarar que fez a escolha “pelos méritos do candidato, por seu currículo” ou por ele representar o antídoto contra aquilo que parte da imprensa considera “o mal maior a ser evitado”.


Também precisa esclarecer o leitor que restrições esse engajamento, antigo mas somente agora assumido, deverá produzir no noticiário.


Os leitores que tinham dúvidas sobre a independência do noticiário agora vão precisar de notas de rodapé que esclareçam o que é informação e o que é peça de campanha eleitoral.


Um pseudo-embate no palanque


Alberto Dines:


– Este confronto entre o presidente Lula e a imprensa é artificial, não somos a Venezuela nem a Argentina. Este confronto é na realidade  um confrontóide, parafraseando a semelhança fato-factóide. Na sexta-feira em Porto Alegre, ao lado da sua candidata, o presidente pregou o exercício da humildade para lidar com o noticiário que desagrada. Foi taxativo: “Quando a matéria dos jornais sai falando mal da gente, ninguém gosta. Quando fala bem, o ego cresce. Precisamos de humildade para nem ficar com muito ego quando se fala bem nem ficar com muita raiva quando se fala mal.”


A mudança de tom foi devidamente registrada pela Folha e pelo Estadão no sábado com razoável destaque. Mas no dia seguinte, ontem, domingo, a Folha publicou um raro editorial na primeira página com uma violenta contestação ao presidente pelos ataques contra a imprensa. Ora, se no dia anterior Lula levanta a bandeira da humildade e sugere uma pacificação, porque insistir no clima de guerra? Aqueles que tomaram a decisão de soltar o petardo não leram a notícia por eles mesmos publicada sobre a mudança no ânimo do adversário?


Uma imprensa incapaz de perceber as sutilezas da política está evidentemente tão radicalizada e delirante quanto aqueles que denuncia. Na verdade, este pseudo-embate, confrontóide, , está sendo agravado porque a mídia abriu mão de seus atributos e resolveu juntar-se ao presidente num palanque o qual nenhum dos dois deveria freqüentar.


O presidente Lula comete um erro quando se compara à imprensa – como o fez indiretamente na entrevista ao portal Terra. Se jornais e revistas não podem exercer o papel de fiscalizadores e críticos do governo – como alega –  ele, presidente, não deveria funcionar como cabo eleitoral ostensivo, em tempo integral. O próprio  Lula havia prometido há poucas semanas que só faria campanha depois do expediente e nos fins de semana, quando não tem compromissos oficiais.


A Presidência da República é cargo full-time, a promessa é capciosa, e além disso, não está sendo cumprida.

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