Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Programa nº 760

>>Transparência reduzida
>>O governo da Argentina observa a imprensa

Por Luciano Martins Costa em 16/04/2008 | comentários

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Transparência reduzida

A Folha de S.Paulo anuncia hoje seu novo ombudsman. Carlos Eduardo Lins da Silva, doutor e livre-docente da USP, assume no lugar de Mario Magalhães, para um mandato de um ano, renovável por mais dois.

Magalhães ficou apenas um ano no cargo. Seu contrato não foi renovado porque ele não concordou com a decisão da direção da Folha, de não mais divulgar na internet a crítica interna diária produzida pelo ombudsman.

No anúncio do nome do novo ‘defensor dos leitores’, a direção do jornal paulista afirma que a crítica interna vinha sendo ‘utilizada pela concorrência e instrumentalizada por jornalistas ligados ao governo federal’.

Em declaração reproduzida por seu jornal, o diretor de Redação, Otávio Frias Filho, considera que a distribuição irrestrita da crítica interna era incongruente, uma vez que o próprio conteúdo do jornal na internet é restrito aos assinantes.

Cabe ao ombudsman criticar, e à direção tomar as decisões que considera mais adequadas, afirma.

Ou seja, manda quem pode, obedece quem tem juizo.

Para os leitores do jornal, sobra uma insuperável desconfiança de que a transparência nessa relação foi reduzida, e que, a despeito de todas as qualificações do novo titular, a figura do ombudsman fica um pouco menor com a nova restrição.

Mas, como diz seu diretor, cabe ao jornal tomar as decisões que considera mais adequadas.

De qualquer modo, resta ainda uma questãozinha a merecer melhor esclarecimento.

O que significa exatamente a instrumentalização da crítica interna por jornalistas ligados ao governo federal?

Lançada assim, sem maiores explicações, a afirmação deixa no ar algumas suspeitas que, a rigor, o bom jornalismo não recomenda, já que é função da imprensa esclarecer, não produzir mais dúvidas.

Ficam os leitores agora imaginando quem são os ‘jornalistas ligados ao governo federal’, e como isso poderia prejudicar um jornal.

Por que não preocupar-se também com ‘jornalistas ligados ao prefeito’, ‘jornalistas ligados ao governador’, ‘jornalistas ligados à Fiesp’ ou à torcida organizada do Corinthians?

A menos que tenha outros interesses além da notícia, um jornal não deveria levar muito em conta o que pensam dele os eventuais donos do poder.


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Um passo à frente, outro atrás — Alberto Dines


***

O governo da Argentina observa a imprensa

A presidente da Argentina, Cristina Kirschner, reagiu de maneira nada original aos conflitos com a imprensa do seu país.

Luiz Egypto, editor do Observatório da Imprensa:

– No embalo das críticas assacadas contra a mídia durante o recente protesto de produtores agropecuários, a presidente argentina Cristina Kirchner decidiu ressuscitar um tal Observatório de Discriminación en los Médios, idéia gestada na Universidade de Buenos Aires e encampada pelas faculdades de Ciências Sociais de todas as universidades públicas.

Participam do empreendimento o Instituto Nacional contra a Discriminação, Xenofobia e o Racismo (Inadi) e o Comitê Federal de Radiodifusão (Comfer) – o primeiro vinculado ao Ministério da Justiça e o segundo, uma autarquia ligada à presidência da República.

É aí que mora o perigo: o viés acadêmico não disfarça tratar-se de um observatório de mídia com forte presença do governo. O Foro de Periodismo Argentino (Fopea), entidade que congrega jornalistas de todo o país, notou ali uma ‘ameaça potencial’ a veículos e jornalistas que não endossem as posições governamentais. E a Asociación de Entidades Periodísticas Argentinas (Adepa) sublinhou que a multiplicidade de formas de expressão possibilitadas pelas novas tecnologias ‘convertem a intenção controladora numa caricatura de dominação’.

A história recente das relações do governo argentino com a mídia não é nada edificante. Na gestão de Néstor Kirchner, a administração federal adotou uma clara postura de discriminação informativa, além de fazer uso político da veiculação de publicidade oficial paga. Agora, o que era ruim pode piorar.

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Todos os comentários

  1. Comentou em 17/04/2008 Ruy Acquaviva

    Será que eles aceitariam a limitação do acesso ao portal da transparência porque ele é instrumentalizado por jornalistas ligados à oposição (como os da própria Folha)?
    Vamos falar claro… A Folha tem o rabo preso com a oposição tucano/pefelista (PFL que mudou de nome de tão mal visto que está).

  2. Comentou em 17/04/2008 Werner Piana

    É DEPRIMENTE como um jornal do qual aprendi a gostar, comprar e assinar ao final da era da ditadura militar – por seu ideário democrático à época – tornou-se mais um patético ‘órgão’ de desinformação e sectarismo no pior estilo Veja.

    Ainda bem que não voltei a assinar a FSP, mesmo depois de receber o jornal gratuitamente no último mês.

    Nunca pensei que veria o jornalismo brasileiro acabar no tal PIG do Paulo Henrique Amorim – desta forma descarada, despudorada e anti-democrática.

    Lástima…

  3. Comentou em 17/04/2008 Lucrécio Rocha

    Prezado comentaristas,
    Não existe mais na Folha o ombudsman. Existirá sim, uma figura meramente DECORATIVA tipo: não falo, não vejo, não escuto e, por tudo isso, não critico.Abraços!

  4. Comentou em 16/04/2008 Fernando souza

    A tal pluralidade que só existia da boca pra fora deu lugar a censura. É para não haver mais dúvida alguma do que é a Folha, cada vez mais próxima do jornalismo de VEJA. A missão de Magalhães naufragou, dando lugar ao silêncio e ao cale-se.

  5. Comentou em 16/04/2008 Marco Antônio Leite

    O ombudsman numa democracia de verdade tem muita utilidade e é considerado um profissional de verdade. Mas num país de quinto mundo se torna difícil acreditar que possa ter uma pessoa que se encarrega de observar e criticar as lacunas da empresa na qual vende sua força de trabalho, pondo-se no ponto de vista do leitor. Na área de comunicações seus donos é quem determinam aquilo que devemos ler, como também essas noticias vendidas aos leitores são fabricadas nos laboratórios das redações ou outras áreas de transformações, dessa forma esse tal de OMBUDSMAN não têm poder algum do ponto de vista de determinar o que devemos saber e ler.

  6. Comentou em 16/04/2008 Carlos Esteves

    O novo ombudsman não terá, certamente, a função de ´defensor´ dos leitores. O novo ombudsman deverá, decerto, ajudar a refinar os métodos de manipulação, omissão e distorção de informações visando o grande projeto atual da Folha: ‘empossar’ José Serra (ou, na pior das hipóteses, qualquer tucano) na presidência da República em 01/01/2011. ´2011, Uma odisséia no PLanalto’… Tem mais uma coisa: só jornalistas ligados ao governo federal liam a coluna do ombudsman, jornalistas demo-tucanos não a liam, não é?

  7. Comentou em 16/04/2008 Haroldo Arruda

    Como disse o leitor Miro Junior, com qual moral Carlos Eduardo Lins da Silva vai assumir o cargo de ombudsman? Ora, acabaram de realizar um debate em parceria com o iFHC! Isso mesmo, um debate sobre a atuação da TV pública feita pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso e o jornal Folha de São Paulo. Não resta dúvida sobre que lado a Folha defende, e agora fica muito mais clara a saída de Mário Magalhães: juntos, eles vão alavancar as candidaturas do PSDB paulista em ano eleitoral.

  8. Comentou em 16/04/2008 Rogério Ferraz Alencar

    ‘…a crítica interna vinha sendo utilizada pela concorrência e instrumentalizada por jornalistas ligados ao governo federal’. Esses tucanos têm cada uma…
    E Mário Magalhães não disse que esconder a crítica diária era inócuo, que tudo pode facilmente ser vazado? O novo ombudsman entra muito diminuído, tendo que mostrar que tem juízo. Ou seja: tem que obedecer. Críticas aos demos-tucanos? Nem pensar! Críticas a José Serra? Jamais! Em tempo algum!

  9. Comentou em 16/04/2008 Euclides Rodrigues de Moraes

    Sr. Luciano,
    Sendo curto e grosso, vejo com tristeza o retrocesso por que vem passando a FSP, nos últimos tempos, mas como se trata de uma Empresa Privada ela é livre para tratar os seus destinos. Cabe aos seus leitores, não sou mais um deles, decidirem se é esse o jornal que eles aprovam e lhe imputam credibilidade. Nesse ‘imbroglio’ todo o que me chama a atenção é a capacidade desse Senhor que ora assume a Ouvidoria, de aceitar exercer uma atividade num ambiente – que por definição deveria ser anti-censura -, onde a sua atuação já encontra-se previamente censurada. Impressiona-me a que ponto chega a vaidade e o orgulho do ser humano, que o torna capaz de se dobrar, com a maior facilidade, aviltando até a sua dignidade, para ocupar espaços que lhe tragam, talvez, algum status. Mas entendo que nesse caso ocorre justamente o contrário.

  10. Comentou em 16/04/2008 thomaz magalhães

    ‘instrumentalização da crítica interna por jornalistas ligados ao governo federal’, respondo a dúvida do autor Luciano M Costa, é os jornalistas do lulo-petismo usarem a crítica dos obdusman como pauta. Os donos do jornal mandaram então o novo ombudsman, não o que saiu, que teve respeitada sua coluna diária, se ocupar de fazer crítica direta à redação, sem dividi-la. Algo como, trabalhe só para nós mesmo. Não dê colher de chá para a concorrência. O autor já achou que a Folha tem medo ou reserva dos jornalistas do governo, Não tem. De governo de esquerda, ninguém tem medo.

  11. Comentou em 16/04/2008 Miro junior

    Belo exemplo de transparência deu a FSP ao noticiar um evento seu assim: ‘A Folha, em parceria com o iFHC (Instituto Fernando Henrique Cardoso)’. Que tal sugerir ao novo Ombudsman que todas as materias da FSP tenham o mesmo alerta?

  12. Comentou em 16/04/2008 Adjutor Alvim

    Concordo inteiramento com suas palavras. Já estava pensando em ligar para o novo ombudsman para perguntar o que exatamente significava a frase.
    Dentre as inúmeras dúvidas que ele me passou, acho que a maior é: se o governo federal instrumentaliza jornalistas, porque não investigar e fazer uma reportagem sobre o assunto? Jornais não são pra isso?

  13. Comentou em 16/04/2008 Ivan Moraes

    1-‘Ficam os leitores agora imaginando quem são os ‘jornalistas ligados ao governo federal”: a quais e quantos dos milhares de ‘assessores de imprensa’ brasilienses pagos com dinheiro publico voce se refere? 2-‘história recente das relações do governo argentino com a mídia não é nada edificante’: mas eu ouvi dizer que o problema argentino nao se refere aa ‘media’ mas sim aa infiltracao de extrema-direita na media. Alguem quer conferir, por favor? Eu nao uso a palavra ‘infiltracao’ levemente.

  14. Comentou em 16/04/2008 vanda viana

    ‘Por que não preocupar-se também com ‘jornalistas ligados ao prefeito’, ‘jornalistas ligados ao governador’, ‘jornalistas ligados à Fiesp’ ou à torcida organizada do Corinthians?’

    Porque estes, se a fs noticiar no próximo ano a possível TSUNAMI, com certeza entenderão que foi culpa do GOVERNO FEDERAL, simples não?

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