Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

Programa nº 666

>>Uma certa esquizofrenia
>>Para pensar na História

Por Luciano Martins Costa em 04/12/2007 | comentários

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Uma certa esquizofrenia

Os jornais de hoje corrigem o erro da edição de segunda-feira, quando todos afirmaram que os venezuelanos haviam escolhido o ‘sim’ no referendo proposto pelo presidente Hugo Chávez.

Obviamente, todos eles publicam hoje que, pelo contrário, a decisão do povo venezuelano que foi às urnas é de rejeitar as mudanças constitucionais propostas por seu presidente.

Mas os jornais fingem que não publicaram as análises publicadas segunda-feira em cima da suposta – e desmentida – vitória de Chávez.

Todas aquelas ameaças à democracia na América Latina de repente se desvaneceram.

E os leitores ficam sem saber se realmente houve algum dia o risco de termos uma ditadura na vizinhança da Amazônia.

O que saiu hoje nos jornais é que a Venezuela, um país democrático, votou uma proposta de seu presidente e a rejeitou.

Também está publicado em todos os jornais que o presidente da Venezuela aceitou a decisão das urnas.

Democraticamente.

Mas algumas perguntas ficam no ar.

Por exemplo, se os institutos de pesquisa afirmam que em nenhum momento, durante as apurações, divulgaram boletins dizendo que o ‘sim’ havia vencido, de onde os jornais tiraram a informação de que Hugo Chávez havia conseguido aprovar sua proposta de constituição bolivariana, conforme foi publicado na segunda-feira?

E qual foi a fonte da informação equivocada, tão segura, que motivou análises anunciando mudanças no panorama político da América Latina?

A imprensa ficou devendo algumas explicações.

E mesmo as edições de hoje pecam por abordagens apressadas, que não permitem ao leitor entender o que acontece realmente na Venezuela.

O clima eleitoral, com celebrações de chavistas, na noite de domingo, e comemorações da oposição, na segunda-feira, sem conflitos mais graves do que os que costumam acontecer em disputas políticas em todos os países do mundo, mostra que o processo transcorreu normalmente.

Os observadores internacionais que se encontravam na Venezuela afirmam que o povo teve liberdade para votar como quis, e que as autoridades não tentaram interferir no resultado.

De tudo que se podia ler até ontem nos grandes jornais brasileiros, só era possível tirar uma conclusão: a Venezuela vivia sob uma ditadura, e o ditador estava prestes a ampliar ainda mais seus poderes.

De tudo que se pode ler hoje nos grandes jornais brasileiros, é possível concluir que os venezuelanos vivem numa democracia.

O que será que os jornais vão afirmar amanhã?

Para pensar na História

O fato que os jornais escondem é que não se pode fazer análises definitivas sobre a opinião dos venezuelanos a respeito do polêmico ideário político de seu presidente.

Apenas 4 milhões e meio dos 16 milhões de eleitores foram às urnas. E a imprensa observa que a maioria das ausências ocorreu nas regiões onde é mais forte a presença de apoiadores de Chávez, o que pode indicar que os próprios chavistas decidiram apontar um limite ao seu líder.

Os fatos podem estar indicando, ao contrário do que vêm dizendo os jornais nos últimos meses, que os venezuelanos participam livremente da política e decidem soberanamente o que desejam.

O referendo na Venezuela, com todos seus ingredientes de resgate do passado histórico que propõe o chamado ‘bolivarianismo’, oferece uma oportunidade para a sociedade latino-americana refletir sobre seu passado e sua História.

É o que vai propor o Observatório da Imprensa na TV: uma série reflexiva sobre os 200 anos da transferência da corte portuguesa para o Brasil.

Dines:

– Os 200 anos da chegada da família real ao Brasil parecem mais animados do que os 500 anos do descobrimento. Em 1500, o herói foi o acaso. Em 1808, são muitos os protagonistas, o nascimento da nação está mais visível. A mídia, desta vez, está sabendo aproximar o passado do presente, mesmo que as efemérides sejam um pouco mais cariocas do que paulistas. Hoje, no ‘Observatório da Imprensa’, o primeiro de uma série de programas sobre o ano do recomeço. Às 22:40, ao vivo, pela Rede Cultura e pela TV-E.

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/12/2007 antonio carvalho

    Quando faleceu, em 17 de dezembro de 1830, SIMÓN BOLÍVAR estava deprimido, pobre, e havia sido exilado de seu país de origem, a Venezuela. Morreu de tuberculose em Santa Marta, na Colômbia. Há quem acha que ele não morreu de doença, que era socialista. Há ainda quem acha que na Venezuela de hoje o povo goza da mais ampla democracia. Eu, por exemplo, acredito em saci-pererê, discos voadores e que Elvis não morreu.

  2. Comentou em 05/12/2007 Pedro Afonso

    A Venezuela, se não ocorresse esta freiada nas pretensões absolutistas de Chavez, seria uma ditadura legal. Hoje passou a ser apenas mais uma tirania entre as muitas que já apareceram e sumiram na América Latina. O reflexo positivo deste plebiscito é a vitória do ‘basta’, do ‘cansei’ (ou de qualquer outro slogan) ao bolivarianismo e também a todas as proto-intenções de mandatos perpétuos ou terceiros mandatos nos demais governos simpatizantes ao do Coronel Hugo. Quanto a chamar a Venezuela de país democrático é uma ousadia que não pode ser permitida a quem anda bem dos neurônios. Só para não se extender: democracia é o culto as instituições e ao estado de direito, o que temos na Venzuela é o culto doentio ao Chavez por sua nomenklatura e o repúdio total as leis, as eleições e ao estado de direito. Basta lembrar da frase simbólica de Chavez após a bofetada que ele recebeu das urnas: ‘por enquanto’. Não tem humildade nenhuma de reconhecer que extrapolou. Quanto a análise jornalística, Sr Luciano, considere que em todo mundo existe uma aversão ao que é dado como certo e definitivo. Esta é a democrática (as vezes não tão ideal) ‘caixinha de surpresas’ de uma eleição.

  3. Comentou em 04/12/2007 gizeli da cruz silva

    É curioso: de fato D. João VI mexe com o imaginário, particularmente dos cariocas. Quem não se lembra do fato que o cinema brasileiro foi reinaugurado com Carla Camurati representando o episódio que hoje tanto se comenta nos jornais matutinos (e vespertinos também). Acompanhei na época as críticas a obra de Camurati que se desdobraram numa centena de artigos e que, depois da criação da imprensa régia, D. João VI ainda operou uma proliferação de revistas especializadas em história do Brasil baseada em trabalhos de professores respeitados e de instituições idôneas (como é o caso da Biblioteca Nacional). De fato, há certa estranheza em ‘comemorar’ este tipo de fato que fora muito desastroso para os portugueses (tanto lá como cá) e em outro aspecto fez da Colônia um espaço paradoxal ou até mesmo esquizofrênico. Há de se refletir ainda sobre os efeitos de se revirar este capítulo da História, que por um lado deslindam cenas curiosas e profícuas, principalmente, no campo da cultura, das artes e da ciência; por outro, evidencia troças da política governamental desde antes da chegada do monarca que ao que parece as evidencia mais. Bem, mas, e depois de D. João, que outra data histórica ‘comemoraremos’?

  4. Comentou em 04/12/2007 Erich Vallim Vicente

    A falta de errata nas edições de terça-feira foi generalizada. Ninguém foi ponderado o suficiente para dizer: ‘Erramos. É o resultado da nossa histeria’. A tentativa do Hugo Chávez de se perpetuar no poder, por incrível que pareça, foi muito mais democrática do que a reeleição conseguida por Fernando Henrique Cardoso, sob suspeita de compras de voto.

  5. Comentou em 04/12/2007 Ana Rodrigues

    Pelo gráu de abstenção no referendo venezuelano acho que lá o voto não é obrigatório. Onde há mais liberdade lá ou cá?

  6. Comentou em 04/12/2007 Gláucio Costa

    É interessante observar a forma como os jornalistas são sistematicamente atacados nos comentários ou será que a imprensa é formada só pelos donos de jornais? Será que as redações são tão monitoradas assim? É isso, os jornalistas não se impõem pois são dependentes de seus empregos? Ou será que alguns realmente acham que o Hugo Chaves, com sua postura de dividir para conquistar, está realmente prestando um desfavor ao povo venezuelano? No fim, só sei uma coisa, essa não é a forma de se implantar o socialismo, pois o constante clima de guerra existente na Venezuela, as constantes ameaças existentes, impedem o diálogo coletivo em prol do bem comum.

  7. Comentou em 04/12/2007 Carlos N Mendes

    Por acaso alguma redação lembrou que Lula disse há pouco que ‘o que não falta na Venezuela é eleição’ ? Alguém que leia Veja, FDSP, O Globo, Época sabe mais sobre a Venezuela e seu povo do que sabia há 5 anos ? Estamos sendo informados ou estão ‘formando nossa opinião’ ? Não basta as redes de TV nos tratarem como afásicos, agora a imprensa escrita acredita que o leitor tem memória de peixinho dourado. Não existe o “informar”, existe apenas espelho dos preconceitos dos eleitores. Muito triste, isso não vai levar esta Nação a lugar nenhum.

  8. Comentou em 04/12/2007 João Marcos Rocha Marques

    Ditadura na verdade é, meia dúzia de famílias que controlam e monopolizam a mídia em todas as suas vertentes, colocando opiniões particulares como se fossem verdades factuais. Além de ter uma mentalidade de 2 séculos atrás, e manter uma estrutura em que várias oligarquias ficaquem eternamente no poder.

  9. Comentou em 04/12/2007 Marco Antônio Leite

    Não foi o povo venezuelano que rejeitou às mudanças constitucionais, foram os laranjas da burguesia venezuelana e os coronéis da mídia que não se conformam com a não concessão da famigerada RCTV. Povo nada mais é que um conjunto de pessoas que unidas representam os trabalhadores daquele país, já uma turminha de pau mandado é outra coisa bem diferente que o povo. às viuvas do capitalismo canibal que foi praticado durante anos a fio estão felizes pôr esse vitória pouca representativa e expressiva. O senhor Hugo Chávez é um grande mestre no jogo de xadrez, ele irá reverter esse placar magro. Não tenham pressa, aguardem, é uma questão de tempo? Viva Hugo Chávez, viva o socialismo!

  10. Comentou em 04/12/2007 Marcelo Ramos

    Cara, essa imprensa é pra rir. Surpresa, a Venezuela ficou democrática. O conservadorismo dos donos de jornal é tão previsível que é monótono. E o mais engraçado é que esse resultado se deveu a um sentimento do povo venezuelano, semelhante ao que já aconteceu em votações no Brasil. As pessoas acharam que já estava ganho e muitos não foram às urnas por causa disso. Mas como diz o ditado, Deus escreve certo por linhas tortas. Se a proposta de Chavez ganhasse agora, a imprensa ia insistir naquele clima de ‘atentado às liberdades inidividuais’ e ditador da América Latina. Agora, a imprensa foi obrigada a escrever um discurso que não queria.

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