Sábado, 17 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

Programa nº 1151

>>Violência e bairrismo
>>O berço do crime

Por Luciano Martins Costa em 26/10/2009 | comentários

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Violência e bairrismo

Como era de se esperar, a imprensa se dedicou intensamente aos novos casos de violência no Rio de Janeiro.

Uma coleção de diagnósticos, mapas, estatísticas e infográficos desfila diante dos leitores, com destaque para a capa da revista Veja: “Quem cheira mata… e outras 14 verdades incômodas sobre o crime no Rio de Janeiro”, diz a manchete.

Depois de dezenas de páginas impressas, o leitor tem pouco a contabilizar: a imprensa repete os mesmos diagnósticos, aproveita para fazer a distribuição seletiva das culpas entre as autoridades e nada mais.

Na falta de maior profundidade, o estilo das reportagens das revistas semanais de informação resvala para o discurso contundente, e pouco se diferencia das narrações dos programas espalhafatosos da televisão.
 
Os jornais paulistas e a revista de informações de maior tiragem olham o Rio de Janeiro como se aquilo fosse o palco de uma guerra no estrangeiro.

A imprensa de São Paulo faz de conta que a violência respeita fronteira, aceita a tese de que a criminalidade em São Paulo está mais contida e ajuda a criar o cenário para a expansão do inferno que hoje atinge as favelas cariocas.

Em São Paulo, o narcotráfico e outras atividades do crime organizado são dominadas por uma única facção, que se consolidou com ajuda da polícia.

Trata-se de uma estratégia oficial, comentada, segundo a Folha de S.Paulo, até pela revista britânica Economist: as autoridades paulistas continuam acreditando que o predomínio de uma quadrilha evita as guerras de gangues, como acontece no Rio.
 
Pois bem: nesta segunda-feira, o jornal O Estado de S.Paulo noticia que pelo menos duas das facções criminosas do Rio já atuam em território paulista, disputando o poder nos presídios.
Pontos de drogas na zona Oeste da região metropolitana de São Paulo já foram tomados por traficantes cariocas e fichas de inscrições de gangues do Rio foram aprendidas em um presídio da capital paulista.

Mas o bairrismo impede que a imprensa perceba como a violência se consolida rapidamente como questão de segurança nacional.
 
O berço do crime

Alberto Dines:

– Sem medo de ser censurada, a Folha de S. Paulo continuou ontem a desafiar o STJ de Brasília com a publicação de novos trechos dos relatórios da Polícia Federal sobre o tráfico de influência praticado em nome do senador José Sarney por seu filho, Fernando. A matéria ganhou grande destaque nas páginas internas, mas não chegou à capa – talvez por falta de espaço.

Independente do motivo da omissão, vale lembrar que tráfico de influência é um ilícito penal e moral. Inclui-se no âmbito da prevaricação e da corrupção. Vale lembrar também que o formidável poder do crime organizado que hoje ganha as primeiras páginas da imprensa mundial resulta da leniência da sociedade brasileira para com a pequena delinquência.

A troca de favores, o nepotismo, o superfaturamento, as propinas, o suborno direto ou indireto tornaram-se tão corriqueiros que já não incomodam as autoridades nem indignam os cidadãos. Mas esta rede de indulgências é uma das responsáveis pela sublevação do narco-terrorismo no Rio de Janeiro.

A metralhadora que derrubou o helicóptero da polícia não foi fabricada no Rio. Veio do Paraguai, da Bolívia ou da Guiana. Não foi importada, foi contrabandeada e o contrabando só existe quando não há fiscalização nas fronteiras ou quando a fiscalização é exercida por comparsas dos criminosos.

É evidente que a família Sarney não está implicada no circuito de delitos que começa num país vizinho e chega ao Morro dos Macacos em Vila Isabel. Mas salta aos olhos a intensa interatividade entre os diferentes estágios e tipos de delinquência infiltrados em nossa vida pública. O Rio de Janeiro não é a capital do crime. A Cidade Maravilhosa é apenas o pedaço mais visível do lodaçal que corre nos subterrâneos do país.

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