Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

Programa nº 682

>>Guerra nas estradas
>>As voltas da História

Por Luciano Martins Costa em 26/12/2007 | comentários

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Guerra nas estradas

Mais uma vez, como acontece todos os anos, os jornais do dia 26 de dezembro trazem as estatísticas das mortes nas estradas brasileiras.

E a cada ano os números se tornam mais impressionantes.

Hoje, os jornais publicam uma avaliação parcial da Polícia Rodoviária Federal: foram 134 mortos em acidentes desde a meia-noite de sexta-feira até as 6 horas da manhã de ontem.

É bem provável que tenhamos tido, pela primeira vez, um Natal com mais mortes do que as que ocorrem no carnaval.

O balanço final será divulgado hoje, mas os dados parciais antecipados pelos jornais mostram que o número de vítimas fatais chega a ser quase 78% superior ao das ocorrências do Natal de 2006.

É a pior estatística dos últimos quatro anos, e pode ser ainda mais grave, já que ainda não haviam sido contabilizadas as ocorrências do último dia do feriado.

Segundo autoridades citadas pelo Estado de S.Paulo e a Folha, a principal causa de acidentes continua sendo a imprudência dos motoristas.

Mas o sucesso do modelo econômico adotado no Brasil tem grande relação com a tragédia.

O Estadão observa que 2007 foi o ano em que dois fatores ligados à economia aumentaram os riscos nas estradas.

O primeiro deles é a venda recorde de automóveis – foram 3 milhões de novos veículos colocados nas ruas e estradas neste ano, considerado o melhor resultado da indústria automobilística em toda a sua história.

O outro fator de risco é o aumento do consumo em geral, que provoca uma elevação na estatística de transporte de produtos industrializados e grãos pelas rodovias.

A receita da tragédia é a convivência de muito mais automóveis com muito mais caminhões, cada um deles dirigido por um motoristra apressado, nem sempre preparado e quase sempre convencido de que dificilmente será apanhado pela polícia.

Os jornais têm dado destaque todos os anos às estatísticas dos desastres, assim como têm sabido comemorar os feitos da economia.

O que parece estar faltando é relacionar uma coisa com a outra.

As voltas da História

É manchete hoje no Globo e destaque em todos os outros jornais a decisão da Justiça italiana de mandar prender 140 ex-integrantes das ditaduras que assolaram a América do Sul nas décadas de 1970 e 1980.

Entre argentinos, uruguaios, chilenos, paraguaios, peruanos e bolivianos encontram-se treze brasileiros.

Ele são acusados de perseguir, torturar e matar dissidentes dos regimes ditatoriais que dominavam o Cone sul.

Não foram informados os nomes dos brasileiros procurados, mas sabe-se que todos estiveram envolvidos na chamada Operação Condor, que organizou a repressão política da época e integrou as forças repressoras dos países da região.

O processo se refere a cerca de 25 cidadãos italianos que foram presos e assassinados no período em que a Operação Condor ampliava a violência política na América do Sul, permitindo que os opositores das ditaduras da época fossem presos fora das fronteiras de seus países.

Os jornais de hoje reproduzem informações do tribunal de Roma e do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

A precariedade da cobertura jornalística durante o plantão natalino certamente dificultou o aprofundamento do noticiário, mas provavelmente a imprensa vai se dedicar nos próximos dias a esclarecer melhor o episódio.

O Itamaraty já se antecipou em lembrar que a Constituição proíbe a extradição de cidadãos brasileiros para serem processados ou cumprirem pena fora do Brasil.

Portanto, a possibilidade de algum dos assassinos da ditadura vir a ser preso e enviado para a Itália é muito remota.

Mas não deixará de ser interessante observar como a imprensa brasileira vai lidar com esse lado obscuro da nossa História.

O período da ditadura sempre foi retratado pela mídia nacional de forma despersonalizada, como se fosse possível ter havido assassinados sem assassinos.

Ao contrário do que acontece na Argentina, os personagens da repressão sempre permaceram na sombra.

A decisão do tribunal de Roma dá aos jornais uma oportunidade para lançar um pouco de luz nos porões da ditadura.

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/12/2007 Alberto Cabre

    Não se deve esquecer também da crise no setor aéreo, que empurrou mais gente para as estradas.

  2. Comentou em 27/12/2007 Emerson Mathias Pinto

    Excelente observação do Luciano. NINGUEM fez essa correlação entre crescimento economico e violencia nas rodovias. No maximo foi feita a já banalizada comparação com o ‘primeiro mundo’, bem tipica da rede Globo. O fato é que NINGUEM quer tocar na ferida de que o crescimento a passos rapidos (tipo 50 anos em 5) que muitos esperam, tem um custo altissimo. Custo social, custo moral. Vidas são deixadas para tras num darwinismo social tipico das mentes positivistas do começo do seculo passado. Estamos sem jornalismo critico e os poucos que se dispoem a pautar, ficam na margem, pois os principais anunciantes de TV são as montadoras de veiculos. Um grande abraço, Luciano.

  3. Comentou em 26/12/2007 Ivan Berger

    Parece que o sr também não viu a excelente matéria do repórter Marcos Losekan, na mesma edição em que o JN divulgava o aumento das mortes nas estradas,mostrando o que a Espanha fez para deixar de ser a recordista de acidentes na Europa. Resumindo para os que não viram : regime draconiano para os infratores, com prisão sumária e inafiançável para os flagrado até mesmo no bafômetro. Nenhuma fórmula mágica,portanto,apenas cadeia e multas pesadas ,e as taxas de acidentes cairem em 80. Tão simples que parece proposital que em nosso país a coisa corra tão criminosamente frouxa. Na certa, nossas autoridades,do alto de sua clarividência, devem imaginar que se já faltam cadeia para tanto bandido, o que dirá se for para prender os deliquentes do trânsito. É mais cômodo deixar como está. Não ocorre a ninguém privatizar o sistema carcerário, como acontece nos EUA, com ótimos resultados. A idéia já andou sendo cogitada, mas foi deixada de lado pela reação desfavorável do próprio judiciário e da ala conservadora da OAB, provavelmente por receio de ter suas atividades restringidas. O que,aliás,não seria nada demais,pois uma das aberrações que precisam acabar no país é o livre trânsito dos advogados nos presídios, sabendo-se que muitos deles se prestam ao papel de intermediários dos criminosos. Hay que endurecer,senhores, caso contrário jamais nos livraremos desse caos nosso de cada dia.

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