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ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Por Luciano Martins Costa em 26/12/2008 | comentários

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Imprensa e o estado de guerra

Encerramos hoje nossa conversa com o jornalista João Paulo Charleaux, editor-assistente de O Estado de S.Paulo e ex-assessor da Cruz Vermelha Internacional.

Observatório da Imprensa: – João Paulo, há uma discussão aberta na imprensa sobre o combate a traficantes e milícias que ocupam comunidades inteiras nas grandes cidades. Qual sua posição a respeito disso? Trata-se de uma situação de guerra?

João Paulo Charleaux: – Não, formalmente não. Os juristas dizem que não, a maioria deles. Dizem que guerra é outra coisa. Agora não é o único prisma através do qual a gente pode observar a questão. Porque se você falar no número de vítimas, no impacto comunitário que isso tem, muitas vezes você vai achar números que são maiores e mais graves até do que vários conflitos do mundo. Até se você perguntar para as vítimas dessa situação de violência, o que elas acham, elas vão dizer que seguramente estão em guerra, que elas foram vítimas de uma guerra. Principalmente no Rio de Janeiro, isso é muito comum. Agora, o que eu acho curioso é que há, às vezes, uma ansiedade por classificar a situação do Rio como uma guerra. Isso é uma tara dos jornalistas.

OI: – O que justificaria também ações que alguns setores estão defendendo…

J.P.C.: – Só que eu acho que é negativo para os jornalistas. Porque se ele está disposto a bancar essa idéia, ele tem que estar disposto a aceitar uma redução na sua liberdade de expressão, na sua comunicação, porque numa guerra essas liberdades são suprimidas. O Direito Humano perde algumas garantias; o Direito Humanitário, que é o que se aplica na guerra, é muito mais restritivo. Eu acho que declarar formalmente que existe uma guerra no Rio e aplicar normas da guerra a essa situação, só traria mais a desgraça para a população que está ali. A polícia ou a força armada agiria como em uma guerra; os meios, as munições, as estratégias, é tudo diferente.

OI: – Mas a circunstância de fato já não é assim? Que direitos tem o morador de um morro que é dominado por traficantes?

J.P.C.: A pessoa não tem nenhuma garantia de que vai estar viva no dia seguinte, tanto pela ação dos criminosos, como pela ação dos criminosos institucionalizados – polícia ou o que quer que seja. Isso não significa que seja uma guerra. Ou seja, você tem violações de direitos como essa em vários lugares do mundo, e não necessariamente é uma guerra. E o que é importante dizer é: Dizer que é uma guerra e aplicar normas da guerra só reduziria a proteção a qual essas pessoas têm direito.

Estamos conversando com João Paulo Charleaux, ex-assessor da Cruz Vermelha Internacional.

OI: – João Paulo, temos um exemplo recente no Morro Dona Marta onde o Estado se restabeleceu, os criminosos fugiram, e a comunidade está se reorganizando.

J.P.C.: É ótimo. A questão vai além da questão militar e policial. Depende do tecido social, depende da geração de emprego, depende do acesso à educação, acesso aos serviços básicos de higiene e saúde. Presença do Estado que não seja só uma presença punitiva ou policial. E o Dona Marta é esse exemplo. Não é só uma operação policial. É você ter vida naquela comunidade, suficiente para estabelecer um cotidiano normal, com os direitos respeitados e etc. Então muito longe disso, as pessoas que vivem nessas comunidades vivem em uma situação de guerra. O impacto humanitário sobre elas é muito mais grave do que vários conflitos. Outra coisa é o Estado oficializar isso e começar a proceder como se estivesse em uma guerra.

OI: – Você entende que a insistência de jornais populares e programas populares de rádio e televisão, no sentido de que existe de fato uma situação de guerra, exigindo uma ação violenta do Estado induz as autoridades a mais violência?

J.P.C.: – Acho que sim. Só um parenteses: novamente, eu volto a essa questão, é o interesse do leitor ou do telespectador. Existe consumo desse tipo de informação. Nós somos muito inclinados a apontar a culpa da imprensa. O que é verdade, deve ser feito. Mas em seguida, deve-se dar outro passo, que é dizer quem é que consome essa informação. Isso responde a um anseio de uma parte da sociedade. Isso é importante refletir também.

OI: – É questão central do jornalismo: qual é o papel do jornalismo, afinal? É a atender a necessidade do cliente, como uma fábrica de sorvete, ou propor uma reflexão um pouco mais além do que aquilo que o leitor está esperando?

J.P.C.: Essa idéia de atender o cliente, se a gente for no extremo dela, a gente pode ter um programa de pornografia infantil. Vai haver cliente para isso. Ou seja, é mentira que você deve atender à audiência. Se não, você vai ter programa sobre tudo. Existe notícia para tudo. Um programa para o segmento psicopata, um programa para o segmento ditatorial… a imprensa tem, evidentemente, o papel de editar o que é notícia e o que não é do ponto de vista noticioso, legal, ético, humano.

OI: – E qual deve ser o pano de fundo de valores da edição?

J.P.C.: – Eu acho que tem que ser a valorização dos Direitos Humanos, ou seja, a dignidade humana acima de tudo. Você não vai expor a desgraça humana, mas acho que existe um outro lado da questão que é o interesse de pessoas por esse material. O que acontece com a sociedade atual para que haja um anseio, para que haja até uma exigência de parte da sociedade para que se espanque pessoas capturadas pela polícia, para que se torture para extrair informação. Quais são os valores dessa sociedade? Porque esses programas refletem isso, né?

OI: – João Paulo Charleaux, muito obrigado por sua participação no Observatório da Imprensa.

Conversamos com João Paulo Charleaux, editor-assistente de O Estado de S.Paulo e ex-assessor da Cruz Vermelha Internacional.

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