Sexta-feira, 22 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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Por Luciano Martins Costa em 23/12/2008 | comentários

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Jornalistas no front

Seguimos conversando com João Paulo Charleaux, editor assistente do jornal O Estado de S.Paulo, sobre a cobertura jornalística dos conflitos armados e situações de guerra.

Observatório da Imprensa: – João Paulo, falávamos sobre a cobertura da guerra de alta tecnologia, mas os mísseis inteligentes costumam acertar mais escolas do que objetivos militares, não?

João Paulo Charleaux: – O míssil inteligente depende da inteligência de quem dispara. Agora, uma coisa curiosa sobre isso também é que os jornalistas, em alguns episódios, têm servido como apontadores para força aérea. Se você liga um celular ou um aparelho satelital em qualquer lugar do mundo, você está identificando a posição de um alvo para a força aérea. Isso aconteceu no Iraque. Quer dizer: o departamento de informação convoca uma coletiva, o jornalista vai, e aí a força inimiga tem a localização precisa – de maneira que os mísseis entravam pela janela. Os jornalistas também acabam prestando a esse papel, às vezes sabendo, às vezes sem saber.

OI: – E jornalista também se torna vítima, às vezes…

J.P.C.: – Tem se tornado vítima. O cenário para os jornalistas tem sido cada vez pior. O International News Safe Institute (INSI), que é da Federação Internacional dos Jornalistas, tem um levantamento anual das mortes na imprensa, e tem sido cada ano pior. 2008 tem uma progressão de ser o pior ano de todos, mas tem algumas particularidades que merecem ser mencionadas. As pessoas às vezes acham que o jornalista morre lá no combate, na guerra internacional. Não é bem isso. Na verdade, os contextos chamados de paz são os que têm sido muito mais mortais para os jornalistas. Por causa de crime organizado, narcotráfico, coisas desse tipo, pressão política. O cenário é negro, mas nem sempre relacionado ao grandes conflitos. E mesmo nos grandes conflitos, as pessoas que morrem são os jornalistas locais, não são os jornalistas internacionais, nem os correspondentes. É um quadro sobre o qual a gente tem que se debruçar e olhar com atenção.

OI: – Continuamos conversando com João Paulo Charleaux, da editoria Internacional do Estadão. João Paulo, você trabalhou durante sete anos na Cruz Vermelha. Uma questão que sempre se coloca na cobertura de imprensa sobre os conflitos são as guerras esquecidas. A África é um caso típico.

J.P.C.: – A África tem um grande número de conflitos armados, que mudam de característica, mas na verdade são reflexos de conflitos antigos que se mantêm, que geralmente têm impacto violento sobre a população civil, o nível de atrocidades cometidas, o tempo que esses conflitos duram, a contaminação regional – geralmente se expandem para países vizinhos. São coisas realmente assutadoras. Eu acho que é difícil manter um foco contínuo em conflitos tão antigos e que se mantêm por tanto tempo acontecendo.

Continuamos conversando com João Paulo Charleaux, jornalista do O Estado de S. Paulo e ex-assessor da Cruz Vermelha Internacional.

OI: – Por que a imprensa de vez em quando abandona um conflito na África e o leitor acaba tendo a impressão de que o guerra acabou?

J.P.C.: – O critério da imprensa é muito perverso. A imprensa trabalha com o critério da anormalidade, do ineditismo: o que é corrente não é notícia, o que é comum não é notícia. Quer dizer, se você tem dezenas de mortes em um país todos os dias, há quarenta anos, isso deixa de ser notícia. É uma coisa bizarra, mas é assim. Por exemplo, o caso da Colômbia que tem quarenta anos de conflito armado. A Colômbia só é notícia quando tem um fato extraordinário que envolve presidente, que envolve libertação de seqüestrados; mas se você for a um jornal colombiano, todo dia você tem notícia sobre o conflito. Não significa que os jornais aqui vão conseguir acompanhar isso, porque faltaria papel e atenção do leitor. Isso é muito importante: não é um critério só da imprensa, mas é um critério da imprensa que responde ao que a gente supõe que seja interesse do leitor. O leitor cansa de acompanhar um evento todo dia, há vários anos.

OI: – Você vê os jornalistas brasileiros preparados, em termos de conhecer o direito internacional que se refere aos conflitos?

J.P.C.: – Acho que muitos, sim, conhecem, outros não conhecem. Mas o que talvez fosse interessante debater é a preparação dos jornalistas que vão ao terreno, as pessoas que vão a um conflito armado. O Brasil não é dos países que têm mais debate sobre isso ou mais cursos sobre isso; é muito comum que os jornalistas brasileiros, é o caso do Juca Varella que foi pro Iraque, que coordena a fotografia, fazer cursos na Argentina, no CAECOPAZ, Centro Argentino de Entrenamiento Conjunto para Operaciones de Paz. Agora o Exército Brasileiro começa a fazer um curso no Rio de Janeiro para esses jornalistas, é uma coisa nova, mas é uma discussão relativamente nova. Não é raro, você encontrar jornalistas que partem para cobrir um conflito sem nunca ter feito um curso sobre isso.

OI: – O repórter corre riscos desnecessários e improdutivos, muitas vezes?

J.P.C.: – Às vezes sim, mas a crítica mais comum ao jornalista de guerra é a de que ele fica do hotel cobrindo tudo pela TV. Na verdade tem sido o contrário, tem poucos heróis nessa história. Acho que deveria ter cada vez menos, ou seja, não existe herói nisso: jornalista morto não conta a história. É uma grande discussão na verdade, porque o jornalista que vai, ele vai dar o que se chama de coloração local. A pessoa no terreno, no meio de uma guerra, é muito difícil ter uma visão de general, saber para onde vai movimentos geopolíticos, a diplomacia, a economia, tudo que envolve o conflito. Ele vai para acompanhar um pouco das histórias e do desenrolar concreto da coisa ali. Ele deve considerar isso. A pretensão tem que ser relativa.

OI: – Muito obrigado, João Paulo. Concluimos assim mais um trecho da nossa conversa com João Paulo Charleaux, jornalista do O Estado de S. Paulo que foi assessor da Cruz Vermelha Internacional.

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