Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

Programa nº 82

Mauro Malin

>>Manchete: “Lula diz que não é Getúlio”!
>>A crítica de Buratti

Por Mauro Malin em 26/08/2005 | comentários

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Manchete: “Lula diz que não é Getúlio”!


Mais uma vez, como acontece há anos, as manchetes da Folha de S. Paulo, do Estado e do Globo são idênticas. E puro jornalismo declaratório: “Lula diz que…” não é Getúlio, nem Jânio, nem Jango, etc. Isso só poderia ser manchete se alguém achasse que o presidente se equipara a esses antecessores. Qualquer pessoa que tenha memória dos antigos presidentes, ou tenha estudado um pouco de História, sabe da diferença entre Lula e eles.


Que o presidente disse isso ontem, todos os cidadãos cujo juízo não esteja afetado, já sabiam nesta manhã de sexta-feira, 26 de agosto. Salvo os que tiverem passado o dia de ontem fora do alcance de alguma mídia. Não é preciso repetir o que Lula disse. É preciso ou falar do que pode vir agora, ou, no mínimo, interpretar. Como fez elegantemente o Jornal do Brasil, com a manchete “Síndrome de agosto ataca Lula”.


Nas páginas internas, os jornais conseguem fazer uma avaliação da fala presidencial e do novo depoimento de Rogério Buratti. Fica evidente a cada vez mais difícil situação do ministro Palocci, que não se manifestou pessoalmente. Lula previu que a economia “não será uma Brastemp”.


Para avançar, o Brasil, país da desigualdade, vai ter que fazer os poderes da República mudarem de patamar. Entre eles, estrategicamente, a mídia, cuja vitrine são as manchetes.


As críticas de Buratti


O silêncio mafioso da corporação da mídia denunciando constantemente por Alberto Dines se confirmou nos telejornais de ontem, que omitiram a fala inicial de Rogério Buratti na CPI dos Bingos. Ele denunciou a revista Época por ter exposto fatos de sua vida privada que não têm relação com os problemas públicos, e a Folha de S. Paulo por ter mostrado a sua ex-mulher um CD com gravações de telefonemas.


Os telejornais não precisavam fazer isso. Bastava ouvir as partes acusadas por Buratti.


A Folha de hoje, isolada, dá destaque a essa passagem inicial do depoimento de Buratti. O jornal informa que o CD foi mostrado à ex-mulher dele para tentar identificar pessoas mencionadas por apelidos, e traz a defesa da revista Época, cuja direção sustenta não ter havido curiosidade com casos pessoais, mas sim a intenção de retratar a atividade de um grupo que envolve “lobistas, corruptores, corruptos e dinheiro público”.



Falta um perfil da Gtech


Até hoje não saiu uma reportagem que mostrasse como repercute na matriz, nos Estados Unidos, a confusão em que está metida a Gtech. Lá, isso dá cadeia.


Aqui, a Gtech tem um instituto de responsabilidade social que conta entre seus parceiros com o Ministério da Cultura.


Stiglitz, Krugman, Fishlow


Dá para imaginar o New York Times ou o Figaro ouvindo um economista brasileiro sobre a taxa de juros local? Esse declaratório de economistas americanos invocados como autoridades para demover o Banco Central de sua cruel disposição, ou para apoiá-lo, é evidência de uma disfunção profunda da imprensa brasileira.



Exemplo indiano


O primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, salvou o país da bancarrota no início da década passada. Ele era ministro da Fazenda num governo do Partido do Congresso e conduziu um importante programa de abertura e reforma da economia do país. Em 2004, o Partido do Congresso, surpreendendo a mídia do mundo inteiro, que dava como certa a continuação do governo do Bharatija Janata, partido de direita nacionalista, reconquistou o poder e Manmohan Singh foi nomeado primeiro-ministro.


Parecia impossível retomar o programa de reformas econômicas. A maioria dos 670 milhões de eleitores tinha manifestado nas urnas seu desagrado com os escassos resultados sociais obtidos. Agora, em entrevista a uma publicação da consultoria Mc Kinsey, Singh, ao fazer o balanço de um ano, disse que daria nota 6 a seu governo, cuja performance considera insatisfatória.


Quem sabe o presidente Lula se inspira no austero exemplo indiano?


Não chame o ladrão


A situação no Rio de Janeiro está tão difícil que ontem, constatou O Globo, os bandidos já haviam retomado posse do território que a velhinha de Copacabana filmou durante dois anos. A reportagem mostra por que a velhinha teve que agir: porque a polícia não o fez. Pior: em resposta à velhinha, que move uma ação de indenização contra o estado, o então comandante do batalhão da Polícia Militar de Copacabana escreveu num ofício que ela era “exagerada, leviana e irresponsável”.


O cidadão brasileiro hoje tem que agir contra os bandidos e contra as autoridades. Tarefa dura.


A polícia, às vezes, funciona no susto. Está na capa do Globo: dois bandidos num carro roubado foram assaltados em Santa Teresa. Na confusão, bateram num carro da PM e acabaram presos. Fica sem efeito o mote de Chico Buarque: “Chame o ladrão!”.

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/08/2005 Renato Colombo de Almeida

    Ao Presidente

    Luiz Ignácio Lula da Silva

    Sem a Vossa Excelência o país seria pior – a lama ficaria escondida, como vem acontecendo neste país ao longo de sua história. Temos a cultura de tudo culpar os presidentes, causando uma miopia grave, impedindo de ver a lama que escorre das instituições. Se nossas instituições fossem sérias, nada disso estaria acontecendo. Esses bancos que fizeram os empréstimos, não têm responsáveis? O Banco Central não tem de fiscalizar? O Judiciário não é o primeiro a facilitar a vida dos corruptos? Não conheço nenhum corrupto condenado pela Justiça! Ou será que não tivemos corruptos em governos passados.
    Enquanto, neste país, Senhor Presidente, não se exercer a cidadania e ficarmos colocando os presidentes da República como responsáveis por tudo, os corruptos continuarão a deitar e rolar. No caso do PT, partido de Vossa Excelenência, tudo veio à tona porque o pessoal é novato e atrapalhado, como disse a senadora Heloísa Helena. Por falar nela, onde estava quando tudo acontecia? Parece que a Senadora é boa de grito, mas não é boa da vista. E os outros?
    Todos que estão pedindo a sua cabeça Senhor Presidente, acusando-o de conivente e omisso. Mas onde estavam que não viam a mala passar? Por que só Vossa Excelência deveria ter visto a mala passar? Se isso for verdade, todos os demais foram ingênuos e omissos, ao meu juizo, e são merecedores de culpa.
    E por falar em PT, Senhor Presidente, devemos agradecer todos os dias por este partido ter chegado ao Poder, pois caso contrário, nada disso estaria acontecendo. O mais curioso é que a oposição esquece que no governo passado fatos piores e mais nojentos foram sufocados. Quanto cada deputado ganhou na reeleição do FHC? E as corrupções montanhosas? (privatizações vergonhosas e entreguistas, esquemas fradulentos nas estatais, bilhões destinados aos bancos falidos e dezenas de outros escândalos). Ninguém apurou nada porque eles abafaram. A questão é que FHC tinha uma habilidade fora do comum para abafar a podridão de seu governo coisa Vossa Excelência não tem capacidade de fazer.
    Se consideram impossível que Vossa Excelência não tenha percebido o que acontecia, o mesmo se dá com eles, Deputados e Senadores. Como não viam o que estava acontecendo tão escancarado? Eles convivem diariamente com os corruptos ali no Congresso e não sabem do que se passa à sua volta? É impressionante como ninguém sabia de nada.
    Como é que tipos como Roberto Jefferson (23 anos de mandato) e Valdemar da Costa Neto, e muitos outros, circulavam na intimidade do Congresso sem que os demais percebessem as marcas de lama que o mau-caratismo deixa por onde passa? E o cheiro da lama podre ninguém sentia? É muito fácil gritar depois que tudo se escancarou. Muito fácil e teatral é fazer cena em cima do leite derramado.
    Na verdade, Senhor Presidente, o que vemos é um grande oba-oba da oposição. Esses políticos não estão nem aí para o país, querem é aproveitar a crise para tornar a voltar novamente ao poder e manter seus privilégios e impunidade – querem mais quatro anos para poder vender o que restou das estatais e mandar os bilhões para fora do país.
    Falando em estatais, Senhor Presidente, Vossa Senhoria não percebeu que após 1º de janeiro de 2003 não aconteceram mais aqueles desastres inaceitáveis pela população brasileira, em relação a Petrobrás? – não aconteceu mais vazamento em navios, nas plataformas, nos oleodutos…-. Por que será? Se aquela turma voltar ao Planalto, certamente, Senhor Presidente, grandes catástrofes voltarão a acontecer na Petrobrás. Os Correios? O Banco do Brasil? O sistema energético? Bem! Esses eles já colocaram a venda ao demoralizarem nas CPMIs.
    Acredito que a crise não é política. A crise é das instituições brasileiras contaminadas pela corrupção endêmica. Mudemos de Presidente e a corrupção se manterá como um bicho de sete cabeças, pois um país só muda quando a vergonha, a honestidade e o respeito pelo povo povoarem as nossas instituições, quando não só o Presidente da República, mas qualquer servidor público, do dirigente ao porteiro de uma estatal, tiver de dar satisfação dos seus atos ao povo. E com humildade, conscientes de que ter qualquer cargo de poder é uma responsabilidade e não um privilégio.
    Eu proporia, Senhor Presidente, que se substituíssem todos os capítulos da Constituição Brasileira por: Artigo Único – “Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara”.

    Fique com Deus e vá em frente Senhor Presidente.

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