Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1014
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>>Negociando em Honduras
>>A pilha das contradições

Por Luciano Martins Costa em 08/10/2009 | comentários

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Negociando em Honduras


Passados quase três meses da derrubada do presidente Manuel Zelaya, a crise em Honduras tem finalmente um horizonte: segundo os jornais desta quinta-feira, as comissões encarregadas de encontrar uma solução para o impasse dividiram as questões em dois grupos principais e cada uma delas vai encaminhar soluções específicas.


É um caso raro de notícia que faz sentido no meio da confusão de opiniões sobre o golpe que tirou do poder o presidente constitucional e o enviou ao exílio.


Vislumbrada uma saída capaz de evitar a transferência do conflito para as ruas, a imprensa internacional começa a avaliar o papel do Brasil no episódio, observando que a diplomacia brasileira pode estar se consolidando como ponto de equilíbrio na América Latina e se contraponto ao arrivismo do grupo liderado pelo venezuelano Hugo Chávez.


No cenário de análises apresentado pela imprensa, chama atenção a entrevista da vice-chanceler do governo golpista, publicada pelo Estado de S.Paulo, na qual ela afirma, sem oferecer maiores explicações, que o presidente do Brasil está muito vinculado a Hugo Chávez.


Que a funcionária hondurenha tenha essa opinião, e que a manifeste publicamente, é parte das controvérsias.


Mas destacar a frase no título, em toda a extensão no alto da página, sem qualquer contexto que possa ajudar o leitor a analisá-la, é menos jornalismo e mais militância do jornalão paulista.


Por essas e outras é que a imprensa brasileira às vezes é acusada de resvalar do noticiário puro e simples para a militância partidária explícita.


Na mídia internacional que trata de assuntos diplomáticos, que se pode acessar pela Internet, não há publicação conceituada que considere o Brasil de alguma forma refém do governante venezuelano.


Pelo contrário, é ponto pacífico que o governo brasileiro atua quase sempre no sentido de aparar as arestas provocadas por declarações ou atitudes intempestivas de Hugo Chávez.


Os editores do Estado de S.Paulo sabem que a opinião da vice-chanceler em exercício de Honduras não seria levada a sério em qualquer mesa de debates.


Então, por que colocá-la em destaque?


A pilha das contradições


Desde 2003, quando se tornou clara a opção de política externa do governo, a imprensa nacional vem seguidamente se apresentando na condição de opositora, acusando-o de exercer uma diplomacia terceiro-mundista e cobrando maior alinhamento com os Estados Unidos.


O Brasil seguiu uma política de independência, reforçou os laços com a vizinhança, melhorou as condições do comércio regional, consolidou as relações com outros países em desenvolvimento e emerge da crise financeira internacional em posição de destaque não apenas na economia, mas também no papel de mediador de conflitos na América Latina, papel que até então era exercido exclusivamente pelos Estados Unidos.


Ainda em 2002, quando o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que viria a ser o secretário geral do Ministério das Relações Exteriores, anunciava sua opinião segundo a qual o Brasil não precisaria se aliar à Alca para se tornar um protagonista importante no processo de globalização, os jornais e revistas brasileiros – com exceção da Carta Capital –, o colocaram como alvo de críticas.


O Brasil escolheu como prioridade o Mercosul, anulou a tentativa de Hugo Chávez de estabelecer um mercado comum bolivariano e se transformou em ponto de apoio para o desenvolvimento da maioria dos países ao sul do Rio Grande, aquele que separa os Estados Unidos do México.


O dinheiro do petróleo não tem sido suficiente para que a Venezuela concretize os delírios de Hugo Chávez.


Em contraposição, o Brasil coleciona avanços diplomáticos e comerciais importantes.


A crise de Honduras pode estar chegando ao fim em poucos dias.


As negociações tratam basicamente de encontrar uma saída honrosa para os protagonistas trapalhôes, todos eles, de um lado e de outro, típicos personagens de velhas oligarquias que dominam a política na região.


Com a posição ambígua adotada pelo governo Barack Obama, e sem heróis dignos de um panteão nesse episódio, a História vai acabar registrando a vitória do pragmatismo brasileiro.


E a pilha de jornais velhos será testemunha das contradições da nossa imprensa.

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