Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

Programa nº 83

Mauro Malin

>>O caso de Santo André
>>Menos nervosismo nas semanais

Por Mauro Malin em 29/08/2005 | comentários

Referências

Zizek, Slavoj, 'Esclavo es la palabra que nombra al amo fingido', Página/12, Argentina, 2004.

La Insignia (www.lainsignia.org)

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O caso de Santo André


Embora haja cheiro de pizza no ar, como fartamente reportaram os jornais de sábado e domingo, o calendário de depoimentos desta semana é pesado. João Francisco, o irmão do prefeito assassinado de Santo André, Celso Daniel, reiterou em todos os seus pronunciamentos a denúncia de que havia uma relação mafiosa da prefeitura com empresas de ônibus. A Folha de S. Paulo desta segunda-feira, 29 de agosto, traz o depoimento de um perito segundo o qual Celso Daniel foi torturado, o que não costuma acontecer em casos de seqüestro relâmpago. João Francisco Daniel fala na quinta-feira.


Menos nervosismo nas semanais


O Alberto Dines mostra como a mídia deve assumir suas responsabilidades na condução da crise do mensalão, que interfere no desdobramento dos trabalhos no Congresso Nacional. Fala, Dines.


Dines:


– Mauro: a crise amainou ou foram os semanários que saíram menos excitados? As duas coisas: a crise não arrefeceu, ao contrário, agora está espalhada e inclusive transferiu-se para o interior das CPIs, mas também as revistas saíram neste fim de semana menos nervosas. Pode-se até dizer menos nervosas e mais responsáveis. Pela primeira vez em muitas semanas Veja baixou o tom denuncista da sua capa. O principal assunto continua sendo político, óbvio, mas desta vez a colocação é de certa forma construtiva – os exageros do marketing político e o custo absurdo das campanhas eleitorais. As denúncias contra Palocci, que na edição anterior abalaram o país, foram empurradas para o rodapé da capa. A verdade é que parte da crise que se arrasta há três meses tem a ver com a forma e o tom da cobertura. Como os semanários precisam mostrar seu poder de fogo porque só aparecem uma vez por semana, apelaram para o frenesi dos escândalos que aumenta a temperatura sem necessariamente acrescentar fatos, novos. Para não ficar atrás, os diários entravam no clima dos semanários e neste processo de realimentação contínua corria-se o perigo da saturação, que é muito pior do que a pizza. Com a mesma determinação de investigar até o fim e um pouco menos de paroxismo a cobertura jornalística será certamente muito mais eficaz.


Autoritarismo em letra de forma


O jornalista Luiz Weis, autor do blog Verbo Solto, deste Observatório, criticou a reportagem da revista Veja da semana passada que usou informações de procuradores do estado de São Paulo. Foi uma crítica que muitos outros, incluído este que vos fala, fizeram. Veja não gostou e publicou uma “vingancinha” contra Weis. É, como ele mesmo disse, uma tentativa indigente de difamação. Os leitores têm o direito de questionar a revista a respeito desse tipo obscuro de tentativa de intimidação. Os jornalistas têm a obrigação de tomar a defesa do colega que Veja, no estilo mais cafajeste, procurou atingir. Um jornalista usar o poder de publicar para agredir alguém equivale a um policial usar sua arma para atingir um desafeto. Mas não se preocupe com o Weis, leitor. O tiro dado por Veja não passou de um traque.


A novela da Varig


Ancelmo Gois anuncia no Globo de hoje que a novela da Varig entra nesta semana na fase do “vai ou racha”. Uma pergunta teima em permanecer sem resposta: quem vai pagar a dívida da empresa? Os contribuintes?



O povo contra a mídia


O Globo de sexta-feira noticiou que um bandido roubou a câmera de vigilância instalada no alto de um poste na favela da Maré, no Rio de Janeiro. O jornal enviou repórter ao local. Ele se dirigiu ao batalhão da Polícia Militar que fica dentro da favela e disse que iria ao ponto onde fica o poste. Um policial foi o primeiro a questionar: “Você vai lá? Vai tomar tiro.” Depois, um morador repetiu a mesma frase, em tom de antagonismo.


Essa parte da apuração não aparece na reportagem. A imprensa continua achando que imprensa não é notícia. Talvez se tenha chegado à conclusão, nas redações, que relatos desse tipo só iriam envenenar ainda mais um clima que os repórteres de cidade dos jornais do Rio conhecem bem: a hostilidade de moradores, que cada vez mais igualam a mídia à polícia, temida e desprezada. O assassinato do repórter da TV Globo Tim Lopes, há três anos, não atenuou mas, ao contrário, exacerbou esse fenômeno, cujas raízes, acreditam alguns jornalistas, foram criadas quando o SBT lançou o programa sensacionalista Aqui e Agora. Nele, os repórteres corriam e resfolegavam como se estivessem dentro da ação policial, padrão que se mantém em algumas emissoras e, de um modo ou de outro, contaminou todas.

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  1. Comentou em 29/08/2005 Luiz Carlos Brito

    Prezado Mauro:A questão Celso Daniel intriga por vários aspectos. Um deles é o comportamento da imprensa. A TV Bandeirantes, tempos atrás, publicou o teor das conversas de dois figurões (Gilberto Carvalho e Luiz Grenghalg) do PT, entre si, como entre eles e Sombra, com o nítido propósito de abafar as investigações.
    Estranhou-me a falta de repercussão da notícia em outros veículos. Pouco ou quase nada se falou. É só concorrência que vale?
    Você considerou aquilo normal?
    Apesar do conteúdo não ser aparentemente revelador de nenhum dado que pudesse trazer grandes conclusões sobre a morte de Celso Daniel, indago o seguinte: Os dois petistas não eram companheiros e amigos de Celso? Dada essa condição o trivial não seria que ambos estivessem interessados em esclarecer a morte e principalmente a autoria do crime? Pois é, qualquer um responde sim.
    Contudo, as conversam revelam exatamente o contrário. Isso, por si só, já não é muito revelador?

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