Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

Programa nº 1336

>>O crime compensa
>>JB: morte em anúncio

Por Luciano Martins Costa em 16/07/2010 | comentários

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O crime compensa


O jornal O Estado de S.Paulo publica nesta sexta-feira uma reportagem estarrecedora sobre a impunidade na capital paulista.


Cruzando dados da produção do Ministério Público Estadual entre 2002 e 2009 com os registros de crimes na Secretaria de Segurança Pública no mesmo período, os repórteres constataram que uma pessoa que cometa um crime na maior cidade do País tem apenas uma possibilidade em vinte, ou 5,2% de risco, de vir a responder por esse crime na Justiça.


Se não for apanhado em flagrante, a possibilidade de ser descoberto em uma investigação criminal é de apenas 2,5%.

Ou seja, em apenas um em cada quarenta crimes – entre os que chegam a ser investigados – a polícia identifica o autor.
 
Somada à conhecida ineficiência e lentidão do Judiciário, manietado pelo excesso de trabalho e pela imensa seqüência de recursos à disposição dos réus, completa-se o mapa da impunidade.

De certa forma, isso também explica o grande número de assassinatos em roubos de menor expressão: o ladrão sabe que, matando a vítima, corre menos risco de ser identificado.

Essa é a origem das notícias que assombram a população, quando alguém é morto por causa de um telefone celular ou um relógio.

Praticamente não há solução para crime de furto, que na maioria dos casos nem chega a ser notificado. Dos furtos que são informados à polícia, apenas 3,1% chegam ao Judiciário, enquanto apenas 4,8% dos roubos evoluem até a fase de julgamento.
 
Segundo a reportagem do Estadão, a ineficiência da polícia paulista na resolução dos crimes pode ser ainda maior, uma vez que o levantamento considerou apenas os casos registrados nas delegacias.

Outros estudos citados pelo jornal indicam que 70% dos crimes não são comunicados às autoridades.

A prioridade dos policiais é o flagrante contra delinqüentes de menor importância que atuam nas ruas, enquanto as estruturas criminais mais complexas, que envolvem encomenda e receptação e caracterizam o crime organizado, permanecem intactas.

Em alguns casos, como ficou demonstrado em reportagens anteriores, essas organizações que atuam em rede contam com a participação de policiais.

Recentemente, caíram um secretário de Segurança e seu adjunto, e muitos delegados estão sob acusação de irregularidades, mas esse é outro lado da questão que não tem saído nos jornais.

O fato de 95% dos crimes ficarem impunes e o pleno conhecimento de que a polícia paulista não costuma sequer abrir uma investigação quando não há prisão em flagrante deveriam estar provocando um escândalo de proporções nacionais e motivando outros jornais a fazer trabalhos semelhantes em seus Estados.

Vamos ver como essa reportagem repercute na mídia em geral.

JB: morte em anúncio
Jornal sem epitáfio

Alberto Dines:

– Os sinos não dobram quando fecha um jornal, mas dobram pelo jornalismo. Nenhum jornal é uma ilha – menos um jornal, menor a imprensa. Menos um diário, menor o continente, o mundo, a humanidade.

Pífia, lamentável, a repercussão do anúncio do fim do Jornal do Brasil impresso. Ninguém vestiu luto – só os jornalistas – porque há muito aboliu-se o luto. O luto e a luta. Sobreviventes não lamentaram, dão-se bem no jornalismo morno, sem disputa. Juntaram-se para revogar a concorrência e enterraram a porção vital do seu ofício.  Esqueceram a animada dissonância, preferiram a consonância melancólica.

O derradeiro confronto jornalístico no Rio talvez tenha se travado no início dos anos 70 (ou fim dos 60) quando Roberto Marinho decidiu que O Globo não poderia ficar confinado ao esquema de vespertino e passou a circular aos domingos. Em represália, Nascimento Brito decidiu que o JB invadiria a segunda-feira. Encontro de gigantes, disputa de qualidade. Mesmo com a ditadura e a censura como pano de fundo.

Sem competição, o jornalismo  perdeu o elã, desvirtuado, virou disputa pelo poder. Exatamente isso atraiu Nelson Tanure, o empresário que investe em informática, estaleiros e faz negócios pelo negócio. Não lhe disseram que empresário de jornal não precisa escrever editoriais, basta gostar do ramo e ser fiel a ele.

Simbólico: o fim do JB impresso foi confirmado na edição de quarta-feira (14/7) sob a forma de anúncio, publicidade. Aquela casa não acredita em texto. E o seu jornal morreu sem epitáfio.

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