Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Programa nº 744

>>O mosquito que ninguém viu
>>O Conselho sumiu

Por Luciano Martins Costa em 25/03/2008 | comentários

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O mosquito que ninguém viu

Os jornais descobriram hoje que a dengue que ataca no Estado do  Rio mata 20 vezes mais que a média tolerada pela Organização Mundial da Saúde.

A letalidade aceita pelo organismo da ONU é de um morto a cada cem contaminados e, segundo a OMS, o caso do Rio é mais grave do que o surto ocorrido na Índia em 2006, quando 4 mil pessoas ficaram doentes e cem delas morreram por causa do vírus da dengue.

Na verdade, as autoridades não sabem exatamente, ou não querem divulgar, quantas pessoas já morreram no Rio neste verão por causa do vírus transmitido pelo mosquito Aedes Egypti.

Admite-se que mais de 32 mil pessoas tenham sido contaminadas.

Se o índice de mortes é de pelo menos 20 a cada cem, basta fazer uma conta simples, mas as autoridades confirmam cerca de cinquenta óbitos e a imprensa não descobriu uma fonte confiável que faça esse cálculo.

Ou que faça um balanço dos atestados de óbito nos hospitais.

Para o leitor distraído, que não presta atenção nas pequenas notas dos jornais, parece que a imprensa e as autoridades foram surpreendidas pela agressividade da doença.

Na verdade, os jornais vinham publicando registros da evolução da dengue desde 2005, mas os dados ainda eram tímidos até a semana passada.

Em 2002, houve no Rio o mesmo número de contaminados – cerca de 32 mil no auge da crise –, mas o número de mortos foi bem menor.

Jornalistas que cobrem a área da saúde sabem que, no caso da dengue, o risco aumenta com as reincidências.

Sabem também que, normalmente, o total de óbitos resulta de uma equação que considera a demora no atendimento, mas os sinais dados pelos jornais desde janeiro deste ano foram fracos até mesmo para serem percebidos nas próprias redações.

O leitor atento questiona: onde estavam os jornalistas enquanto a doença se espalhava pelos bairros pobres do Rio? Ninguém viu que o número de casos de dengue e de mortes pela doença estava subindo? Os jornalistas vivem em que planeta, já que parece que todo mundo conhece alguém que ficou doente?

A revista Época desta semana tem até o depoimento de um repórter cujo pai morreu de dengue. Não tocou nenhum alarme nas redações? E por que isso?

Será que as redações perderam o contato com a sociedade e ficam dependendo de declarações das autoridades?

Compare-se, então, a atual situação de calamidade social no Rio aos casos de febre amarela ocorridos nas zonas rurais do Centro-Oeste no ano passado.

Os jornais nunca divulgaram o número exato de casos nem quantas mortes foram confirmadas.

O surto que a imprensa noticiou na época nunca chegou a ser confirmado, mas sabe-se que  o número de casos era tão baixo que foram necessários dez dias para que alguém publicasse um levantamento das ocorrências nos dez anos anteriores.

Mas o escândalo que a imprensa fez na ocasião foi tão grande que levou muita gente a tomar a vacina desnecessariamente.

Até hoje há suspeitas de que morreu mais gente da vacina do que da doença.

Será que, para a imprensa, existem diferenças entre os mortos  municipais, estaduais e federais?

O Conselho sumiu

A quem não interessa ver funcionando o Conselho de Comunicação Social?

O órgão social de defesa da liberdade de informação se desvanece sob a omissão ativa do governo e a indiferença do Congresso.

Alberto Dines:

– Cerca de 90% dos que votaram na urn@ eletrônica do Observatório da Imprensa nesta semana, reconhecem que não sabem quais as atribuições do Conselho da Comunicação Social, órgão auxiliar do Congresso Nacional em tudo o que se refere à imprensa e à mídia. Previsto pela Constituição, o Conselho funcionou ativamente no período 2002-2004, depois foi sumindo, sumindo até que deixou de funcionar ao longo do ano passado inteiro. Neste ano a Mesa do Senado sequer indicou os seus membros. A mídia não está interessada em fortalecer um órgão que eventualmente pode criticá-la, os congressistas por sua vez não querem fortalecer um órgão que pode prejudicar os seus interesses corporativos e ao governo, obviamente, não cabe interferir no Legislativo. Então, vamos acabar com o Conselho de Comunicação Social ou, ao contrário, torná-lo mais vivo e mais  atuante?  As respostas você pode encontrar hoje à noite no Observatório da Imprensa, às 22:40, ao vivo na TV-Cultura e na TV-Brasil.

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/03/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    O Sr. José Bispo foi fantástico em sua análise. Como biólogo, declaro: a coisa mais fácil do mundo é controlar mosquito. Quando se quer. E a coisa mais fácil do mundo para instalar uma epidemia É NÃO CONTROLAR O MOSQUITO. Ou seja, enquanto ainda vemos crianças brincando em poças de lama, sujas, pelas ruelas das cidades, onde Ferraris último tipo acabaram de passar, vamos continuar vendo as mesmas crianças morrendo de dengue, impaludismo, bicho-de-pé, frieiras e de todas as doenças bobinhas de 3o. mundo que há por aí. Somos tal aquele pobre que pinta a casa de uma tinta top de linha, mas os alicerces já estão podres. E tem bobalhão na mídia que ainda elogia a tinta. A Globo, que o comentarista Paulo Mota elogia, tem mostrado as conseqüências deste problema, sem mostrar as causas, ou seja, uma política sofrível na área de saúde em sua cidade. Será que William Bonner e Fátima Bernardes têm coragem de dedar o César Maia, como fazem com o governo federal?

  2. Comentou em 26/03/2008 Luciano Martins-Costa

    Caro Paulo Mota, voce tem razao em afirmar que alguns reporteres estavam nas ruas desde janeiro. Citei no comentario (‘Para o leitor distraído, que nao presta atencao nas pequenas notas dos jornais, parece que a imprensa e as autoridades foram surpreendidas pela agressividade da doencca. Na verdade, os jornais vinham publicando registros da evolucao da dengue desde 2005, mas os dados ainda eram timidos até a semana passada…’). Mas, se alguns reporteres sabiam da gravidade da evolucao, por que o tema nao chegouas manchetes antes, como aconteceu em 2002? Tambem fica dificil explicar a diferenca no tratamento desta noticia, muito mais grave, e dos casos esparsos de febre amarela do ano passado. No caso da febre amarela, criou-se o panico. No caso da dengue, a falta de destaque e de persistencia do tema no noticiario (note que as noticias sao frequentes mas esparsas e sem destaque, no periodo de janeiro a marco deste ano) nao resultou em alerta suficiente para a populacao e as autoridades.

  3. Comentou em 25/03/2008 Jose de Almeida Bispo

    Pois é, mosquito não conhece fronteira municipal ou qualquer outra. Quando existiam Fundação SESP e Fundação SUCAM não existia dengue. E mais, na área coberta pelas duas instituições, num tempo em que não era comum o uso de computadores e sobre internet ninguém sonhava, os dados eram fechados mensalmente e publicados. Agora, leva três anos pra aparecer no sistema do Datasus. O neo-liberalismo acabou as duas fundações nacionais e suas funções. O mosquito adorou. E os prefeitos também. Ao menos enquanto o dinheiro cai todo o mês e não aparece uma nova epidemia ou epideMaia. Ah, foi a burocracia paulistano-escola de Chicago do Collor que destruiu as duas fundações criando o monstrengo FUNASA em 1990 que já começou com história de guardas-chuva, bicicletas, etc., etc. Foi inaugurada com a epidemia de cólera morbus e a dengue veio em seguida. Em seguida entregaram tudo – uma montanha de dinheiro – aos prefeitos para fazer politicagem. Viva a descentralização radical. Mosquito adora liberdade. Parabéns Brasil! De volta aos tempos de Osvaldo Cruz. Que avanço! Quero meu SESP de volta.

  4. Comentou em 25/03/2008 Marco Antônio Leite

    Esse é mais um dos muitos factóides que a imprensa brasileira gosta de nos brindar. A saúde no país esta na HTI já faz dezenas de anos, portanto isso não passa de mais um passatempo dessa imprensa incompetente para fazer denuncias de fato. Noticias como essa é veiculada nos jornais de papel, revistas, telejornais e similares apenas com o objetivo de faturar alto com os patrocinadores. O Brasil é um país doente, a pior praga que atingi uma parcela considerável dos políticos é o vírus da corrupção. Por isso eles não estão preocupados com a DENGUE, cuja doença não é socializada entre pobres e ricos. Trata-se de uma doença de periferia, conseqüentemente atinge somente a população vulnerável, aquela que não tem meios para se defender desse monstrinho chamado Aedes Egypti. A AIDES, VHC, entre outras doenças estão matando muito mais que a DENGUE. Ou não?

  5. Comentou em 25/03/2008 Paulo Motta

    Luciano, a conta dos 20% de letalidade, como frisa a manchete do Globo, tem que ser feita em relação ao total de casos de dengue hemorrágica e não sobre o total de casos de dengue clássica (essa taxa, como agora admite a prefeitura, é de 26%).
    E os jornalistas do Globo estavam exatamente onde deveriam estar: fazendo jornalismo. Tanto que a atual epidemia (negada pela prefeitura mas denunciada pelo jornal) vem sendo alvo de reportagens desde o início do ano. Muitas delas sem qualquer fonte oficial, ou seja, fruto de cobertura nas ruas ou ouvindo especialistas independentes. Basta consultar o arquivo do jornal para que a sua pergunta se revele improcedente.
    abs

  6. Comentou em 25/03/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    O Sr. Paulo Lima aí abaixo pensou de menos e falou demais. Há, sim, uma tendência em politizar os FATOS na sociedade. Aquilo que dá para amenizar, quando o governante é contra Lula, faz-se a devida blindagem. Se o governante é a favor de Lula, pau nele. Óbvio que não defendo nenhum deles, pois todos são culpados. TODOS! Se a mídia pensasse assim, em não aliviar ninguém, muitas vidas não seriam levadas pela inépcia das administrações públicas. A propósito: por que a Dra. Eliane Cantânhede, irresponsável jornalista da FSP, que deliberadamente receitou vacina contra a febre amarela, não se pronunciou agora? Ah, é no Rio. E no Rio o governo é deles.

  7. Comentou em 25/03/2008 Paulo Lima

    Existem Indivíduos que não tem o senso do ridículo, pessoas estão morrendo no Rio e a solução é procurar de qualquer maneira se livrar da responsabilidade que é sim dos governos Municipal, Estadual e Federal, cada um com sua parcela de culpa.
    Surto de Febre Amarela, Dengue é por falta de competência, de planejamento, falta de conhecimento e principalmente pela inoperância e arrogância de sempre procurar inventar um tal de PIG e Oposição para culpar seus próprios erros. Oposição não Governa!!
    Quanto a imprensa, sua responsabilidade é de noticiar e cobrar, a dos Governos é de planejar, executar e chegar se ações estão dando certo.
    Paulo

  8. Comentou em 25/03/2008 Rogério de Almeida Abreu

    Caro Luciano, a informação sobre o contágio da dengue em 2002 relatada em seu artigo parece que não procede. Em 2002 aconteceram 288 mil casos de dengue no RJ com cerca de 90 mortes.Hoje teriam sido detectados 32 mil casos com 49 mortes.Proporcionalmente um número muito mais elevado de perdas de vida. Segundo especialistas consultados pela imprensa o virus, de 2002 pra cá foi adquirindo, através de mutações, um grau mortífero muito mais elevado, além é claro, da inércia dos governos, particulamente do municipal.

  9. Comentou em 25/03/2008 Fabiano Mendes

    O que acredito é que, sendo a cidade do Rio de Janeiro governada pelo Sr. Cesar Maia, portanto da coligação do PIG, evitou se tocar no assunto por muito tempo. Quando a doença extravasou os limites da cidade e espalhou pelo Estado governado por um aliado do Governo Federal, aí a coisa mudou de figura. Basta lembrar que algumas emissoras fizeram questão de dar destaque ontem a mais uma das bravatas do Sr. Cesar Maia, que recebeu milhões do Governo Federal para que os Jogos do Pan fossem realizados e depois teve o descaramento de comandar uma trupe de idiotas para vaiar quem evitou que os jogos se tornassem em fiasco, divulgando que o atual Ministro da Saúde quando Secretário da Saúde, foi demitido porque era preguiçoso. É tão preguiçoso que basta ver o que está sendo feito no resto do País. Lembram das picuinhas surgidas quando o Governo Federal quis melhorar as condições de atendimento em hospitais no Rio? Pois é, é assim que agem os políticos tucanos e demos,pra eles pouco importa a população, estão sempre correndo atrás dos chamados dividendos eleitorais. Aí fica difícil uma solução, a não ser que o Governo Federal seja mais enérgico e faça valer as prerrogativas constitucionais que prevê a intervenção em casos como esse.

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