Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

Programa nº 661

>>O mundo visto pelos jornais
>>TV Pública e a mídia privada

Por Luciano Martins Costa em 27/11/2007 | comentários

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O mundo visto pelos jornais

Os jornais tratam hoje da nova tentativa de acordo entre israelenses e palestinos, promovida pelo desacreditado presidente americano George W. Bush.

Apesar das declarações otimistas dos envolvidos, o noticiário não transpira animação.

Talvez o fato de o anfitrião não ser conhecido propriamente como um promotor da paz tenha alguma influência na visão da imprensa.

O melhor retrato do encontro foi feito pelo desenhista Cássio Loredano e publicado no Estado de S.Paulo. Mostra dois xifópagos, irmãos siameses, em posição de duelo.

Os jornais de hoje também noticiam a violência nas ruas de Sucre, na Bolívia, onde quatro pessoas morreram durante protestos contra a nova Constituição aprovada por iniciativa do presidente Evo Morales.

Está nos diários, da mesma forma, a morte de um homem durante manifestações contra a proposta de reforma constitucional do presidente venezuelano, Hugo Chávez.

Também são notícia os choques entre policiais e moradores nos subúrbios de Paris, que começaram com a morte de dois adolescentes, atropelados por um carro da polícia.

Jovens filhos de imigrantes árabes e africanos voltaram às ruas, como em 2005. O protesto contra a polícia tem como pano de fundo a persistência do desemprego e das más condições de vida nos subúrbios pobres da capital francesa.

A semelhança entre os três acontecimentos é a insatisfação de parte da população com as políticas públicas de seus governantes.

Na América do Sul, protesta-se contra mudanças.

Na Europa, protesta-se pela falta de mudanças.

Os acontecimentos na Bolívia e na Venezuela são chamados de confrontos, protestos e manifestações.

Os acontecimentos nos bairros pobres de Paris são chamados de distúrbios.

Detalhes como esses ajudam a entender como a imprensa diária molda a visão de mundo dos seus leitores.

TV Pública e a mídia privada

A julgar pelos 15 membros do conselho curador da Empresa Brasileira de Comunicação, a futura TV pública vai nascer sob o signo da pluralidade.



Além de quatro ministros – o da Educação, da cultura, de Comunicação Social e o de Ciência e Tecnologia, o conselho terá o ex-deputado Delfim Netto, que foi ministro durante a ditadura militar, uma carnavalesca, um cantor de ‘rap, empresários, acadêmicos e especialistas em televisão.

A nova emissora terá um orçamento geral e 350 milhões de reais e ainda está em fase de formatação.

As transmissões começam já neste domingo, mas o governo prevê que ela estará inteiramente constituída só em março do ano que vem.

A Medida Provisória que cria a TV pública ainda não foi votada, mas a imprensa, quase que por unanimidade, vinha criticando a decisão do governo.

O ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, acha que a divulgação do diversificado conselho curador reduza o tom das críticas.

Os protestos da imprensa foram estimulados por parlamentares que também são donos de emissoras.

Mas os jornais não ligaram os dois fatos.

A criação da TV pública se insere no grande debate sobre a imprensa no Brasil.

Dines:

– Quem lê jornais no Brasil – só o cidadão com alto poder aquisitivo e título universitário? Neste caso, quem consome a chamada imprensa popular? Os dois segmentos defendem linhas diferentes ou são complementares? Qual a força do jornalismo escrito quando comparado com o radiofônico ou o jornalismo televisivo? E por que razão alguns governantes sul-americanos mostram-se tão avessos ao trabalho da imprensa? Não querem intermediários e, por isso, preferem falar diretamente com as massas? A força e as fraquezas da mídia impressa serão discutidas hoje à noite no ‘Observatório da Imprensa’. Às 22:40, ao vivo, pela rede Cultura e pela rede da TV-Educativa.

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/11/2007 antonio barbosa filho

    A imprensa brasileira não ‘cobre’ a América Latina (aliás, não cobre nem a União Européia, é um dos poucos países sem correspondente em Bruxelas). Limita-se a repetir chavões direitistas contra governantes e reformas nos países vizinhos. Se enviam um repórter a Caracas, ele é obrigado a ver avanços sociais e plenitude do direito de expressão, e isso não interessa aos donos da mídia (as seis ou sete famíglias…). Aí ficamos nisso: editoriais grosseiros, simplificações, sem falar nox xingamentos ideológicamente motivados, como chmara Hugo Chávez de ditador, e o rei da Arábia Saudita de rei…

  2. Comentou em 29/11/2007 Ivan Moraes

    ‘que em Paris o que ocorre são ‘distúrbios, na Bolívia ou Venezuela são ‘confrontos’ e nos caso do Brasil em que qualquer manifestação ou protesto de rua, que enfrenta repressão policial é tratado como ‘baderna”: afirmar que Paris tem ‘disturbios’ eh a maneira europeia de confirmar ao mundo que os africanos foram favelizados por decadas na cidade-luz e agora chegou a hora da cobranca, nao eh muito nao, eh so uns trocadinhos, sabe? Quanto a ‘confrontos’ e ‘badernas’, so acontecem em colonias. Colonias de elites covardes, mortas de medo, por sinal, que ja nao conseguem esconder seu comprado judiciario atraz de um elefante.

  3. Comentou em 28/11/2007 Márcio Pereira

    Sintomático afirmar que em Paris o que ocorre são ‘distúrbios, na Bolívia ou Venezuela são ‘confrontos’ e nos caso do Brasil em que qualquer manifestação ou protesto de rua, que enfrenta repressão policial é tratado como ‘baderna’.
    Há interesse ideológico por trás de tudo isso.
    A imprensa repassa bens simbólicos e molda a subjetividade do sujeito.
    Em Paris a situação é vista com preocupação, o velho temor da revolta dos miseráveis dos subúrbios. Já na Venezuela ou Bolívia, há uma espécie de regozijo com as manifestações, que aos olhos da mídia corporativa são vistos com ‘bons olhos’, já que está em jogo conturbar e sabotar regimes que não seguem a ótica do mercado, a mesma ótica que a imprensa como empresa, defende com unhas e dentes.
    No Brasil, toda forma de protesto de rua que acaba em repressão policial não é visto como ‘ameaça à democracia’, na maioria das vezes é saudada como ‘reação’ da polícia e assim aplaudida pelos sabujos (de)formadores de opinião da ordem estabelecida.
    Em resumo, o que é bom para outros não serve para nós…eis aí o simbolismo da hipocrisia!

  4. Comentou em 27/11/2007 Ramón Alves Portal

    Os casos de Paris e os de Venezuela são completamente diferentes e o tratamento da mídia foi satisfatório. Em Paris, elementos que teriam a possibilidade de manifestação pacífica, causam, SIM, distúrbios à odem institucional, ao estado de direito. França tem uma democracia crstalizada e transparente, recém saída de eleições sérias e livres, cujo resultado nunca foi posto em dúvida mem mesmo pelos que perderam. Já na Venezuela há na verdade, SIM, um confronto entre cidadãos que estão impedidos de se manifestar de outro modo, com grupos de apoiadores sustentados pela política explícitamente totalitária de um coronel psicopata que atingiu o poder, mas que o usa para perpetuar sua ideologia, usando de ameaças, insultos, violência, fechamento de órgãos de mídia de oposição, enfim, afrontando o estado de direito. Ora, para metade da população venezuelana, que sente-se espezinhada e que vê um país sendo entregue à barbárie, à nefasta doutrinação marxista desde os cursos básicos através de cartilhas que distorcem a história e criam divisão e ódio, nada mais resta que sair às ruas, onde é confrontada pela turba – claque – paga pelo esquema totalitário montado pelo Sr. Chávez.

    Tão óbvia é esta realidade, tão notórios os fatos, que as expressões da mídia, no caso, acabam obedecendo uma lógica intrinseca. Confronto para um, e distúrbio para outro, dos casos, saiu de modo muito natural.

  5. Comentou em 27/11/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Parabens pelo artigo. Você abordou um tema relevante de maneira bem interessante. Só vou lhe dar uma dica. Se ler com atenção o grande cronista do Império Romano (TITO LÍVIO, Ab Urbe Condita Libri), você perceberá que esta mania de tratar as classes sociais de maneira conceitual distinta é muito antiga. Na prosa liviana você perceberá o deslocamento do narrador (de primeira para terceira pessoas) conforme o personagem seja patrício ou plebeu. Todo grande feito plebeu é reduzido (quando um soldado comanda uma tropa acéfala ele é inspirado por um deus), toda cagada de um comandante patrício é atenuada (normalmente Lívio dá duas versões do fato e assume como verdadeira a mais gloriosa). Quando um patrício é assassinado por um plebeu o crime é descrito como sendo repugnante. Quando ocorre o oposto (a morte de um plebeu por patrícios) o autor não se dá ao trabalho de adjetivar a conduta dos homicidas, mesmo que narre em detalhes a conspiração para sua morte. O mesmo expediente é usado conforme Lívio se refira aos romanos ou aos inimigos deles. Os inimigos são sempre sanguinários, os romanos na maioria das vezes justos è às vezes se excedem (mesmo quando pratiquem as maiores carnificinas). Se uma batalha em que há divisão do comando resulta em derrota a culpa é do comandante plebeu. George Orwel, cunhou a expressão DUPLIPENSAR para esta mania antiga que perdura até hoje.

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