Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

Programa nº 1221

>>O prefeito está nu
>>Uma perda para o jornalismo

Por Luciano Martins Costa em 04/02/2010 | comentários

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O prefeito está nu


A fotografia na primeira página do Estado de S. Paulo, mostrando a multidão que ficou presa em uma armadilha na plataforma da estação Sé do metrô, a imagem de um carro destruído pela queda de uma árvore, onde um homem morreu esmagado, e algumas notas na seção de política dos jornais dão a pista: a chamada grande imprensa desistiu de blindar o prefeito paulistano, Gilberto Kassab.


Mesmo sendo o metrô administrado por uma empresa do Estado, na imagem da população tudo que acontece na cidade é de responsabilidade do prefeito.


O leitor atento deve observar, nos próximos dias, um aumento da exposição de Kassab, até recentemente poupado da enxurrada de más notícias que afetam o ânimo da população da maior cidade do País.


Os jornais já não aceitam a tese de que tudo é culpa de São Pedro e começam a admitir aquilo que muitos técnicos vinham dizendo meses atrás: a prefeitura economizou na limpeza pública, atrasou obras de infraestrutura contra enchentes, abandonou o tratamento de córregos na periferia e realizou obras apontadas como prejudiciais ao fluxo dos principais rios que cortam a capital.


Até o Globo, normalmente comedido em suas críticas a autoridades de São Paulo, traz um comentário em tom editorial no qual observa que, dos 22 mil desalojados pelas chuvas, 5.339 estão desabrigados, ou seja, dependem de abrigos públicos.


Segundo os jornais, o prefeito paulistano demonstra  ter pouca sensibilidade sócial. O Estado de S.Paulo destaca, em sua edição desta quinta-feira, que Gilberto Kassab vem reduzindo a oferta de leitos em albergues públicos, o que provoca o evidente aumento do número de moradores dormindo nas ruas.


Mais de mil vagas em abrigos foram extintas recentemente.


A Folha de S.Paulo noticia que, desde o dia 1o. de janeiro, a prefeitura não entrega merenda nas entidades que atendem crianças e adolescentes órfãos ou em situação de risco.


Defensores públicos e dirigentes de entidades que fazem assistência à população carente acusam o prefeito de estar promovendo um processo de “higienização social”, tentando empurrar os mais pobres para fora do centro da cidade, sem criar alternativas de habitação.


Segundo o Estadão, a extinção dos albergues provoca o aumento do número de pessoas dormindo embaixo de marquises e viadutos, porque essa população depende da infraestrutura da região central, onde há mais segurança e serviços de saúde e onde se pode vender a sucata apanhada no lixo reciclável.


Pelo visto, o prefeito foi deixado nu e sozinho na enchente. 


Uma perda para o jornalismo


Luiz Egypto, editor do Observatório da Imprensa:


– Domingo passado, a literatura e o jornalismo sofreram uma grande perda. Morreu em Buenos Aires, aos 75 anos, o jornalista e escritor Tomás Eloy Martínez, também conhecido pelo sucesso literário de suas obras Santa Evita, com edições em trinta idiomas, O voo da rainha, Romance de Perón e, mais recentemente, Purgatório, seu último livro.


Martínez era colaborador regular do diário espanhol El País, que lhe dedicou um belo obituário, além do New York Times e do La Nación.


Em texto publicado no site da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, organização fundada em 1994 por Gabriel García Márquez e que desde o início contou com sua adesão entusiástica, Tomás Eloy Martínez recorda um episódio ocorrido com ele em 1961, quando já fazia dois anos que trabalhava como crítico de cinema do La Nación, de Buenos Aires. Suas críticas chamaram a atenção da direção do jornal, que sugeriu que ele as assinasse. Assim foi feito, mas sua pena ferina, agora identificada, passou a incomodar os distribuidores de filmes americanos, que decidiram retirar a publicidade que veiculavam no La Nación.


Chamado pelo administrador do jornal, foi aconselhado a maneirar as críticas e, a partir de então, seguir as pautas de um secretário da Redação. Martínez topou, mas avisou que retiraria sua assinatura dos textos. O burocrata não aceitou, alegando que ficaria parecendo que o jornal o estava censurando. “Então”, disse o jornalista, “não poderei fazer o que me pede. Meu trabalho está à venda, minha assinatura, não.”


Este é o mesmo jornalista que, anos depois, ensinava: “É preciso trabalhar em equipe. Uma redação é um laboratório onde todos devem compartilhar seus êxitos e seus fracassos. Onde devem sentir que o que acontece com um, acontece com todos.” Ou ainda: “O jornalismo é colocar-se no lugar do outro, compreender o outro e, às vezes, ser o outro”. E por fim: “O único patrimônio do jornalista é o seu bom nome”. Isto Tomás Eloy Martínez garantiu, por toda a vida. 


Leia também


Os fatos da vida – Tomás Eloy Martínez


A marca da generosidade – Janaína Figueiredo


A última entrevista – Ubiratan Brasil

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