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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Programa nº

Program 776
>>Dois pesos, medidas incertas
>>Longe das pautas

Por Luciano Martins Costa em 09/05/2008 | comentários

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Dois pesos, medidas incertas

Uma ouvinte atenta deste programa e leitora do site Observatório da Imprensa na Internet observa que ela sabe tudo sobre o caso Isabella Nardoni.

Mas está sendo pouco informada sobre o julgamento dos assassinos da missionária Dorothy Stang, no Pará.

Os jornais informam detalhes sobre a família atingida pela tragédia na zona norte de São Paulo, expõem fotografias do interior de sua residência, escancaram as vidas de parentes do pai e da madrasta da menina morta.

A televisão acompanha as movimentações dos acusados, arrastando com suas câmeras a multidão que acompanha os repórteres para todo lado, transformando-se, ela também, a multidão, em protagonista da história.

Foi assim quando a imprensa acompanhou os depoimentos, a reconstituição simulada do crime, a detenção e liberação do casal, as movimentações de testemunhas e parentes, a prisão preventiva, a transferência da acusada para o presídio feminino.

Fotógrafos e cinegrafistas ainda permanecem à porta do prédio onde mora a família, e constantemente importunam os vizinhos na disputa por um posto privilegiado para flagrar sua intimidade; uma janela, um lugar perto da caixa d´água, um trecho de telhado.

Agora que o casal está preso, o que os repórteres vão fazer?

Ficar procurando frestas para registrar o banho de sol dos acusados?

Abordar policiais para saber o que eles comeram no almoço?

A leitora observa que, ao contrário, sabe-se pouco, através da imprensa, sobre o outro caso escandaloso, a absolvição do fazendeiro Vitalmino Bastos de Moura, acusado de ser o mandante do assassinato da religiosa Dorothy Stang.

Se havia provas, se eram consistentes, quem eram os jurados, se é verdade que o assassino recebeu cem mil reais para inocentar o mandante.

Os jornais noticiam hoje que o promotor Edson Cardoso de Souza  pediu novo julgamento, por considerar que a decisao dos jurados contrariou as provas dos autos contra o fazendeiro Vitalmino Bastos de Moura.

A grande repercussão internacional da absolvição, que produziu comentários de ministros do Supremo Tribunal Federal e até do presidente da República, deve despertar a imprensa para a importância de olhar para aquela região.

É bem possível que, com maior atenção da imprensa, um novo julgamento venha a ser feito, em condições mais aceitáveis.

Mas não esperem os leitores e ouvintes que sua necessidade de saber mais seja satisfeita neste caso.

O crime que vitimou a menina Isabella, se comprovada a versão da polícia e da promotoria, é um desses casos que falam mais de baixos instintos e impulsos insanos de indivíduos, sobre os quais a sociedade e, portanto, a imprensa, pouco pode fazer.

O assassinato da missionária, ao contrário, é  o retrato do abandono de algumas regiões do Brasil e um dos sintomas do descaso com que os sucessivos governos têm tratado a questão agrária na Amazônia.

Foi um crime premeditado, remunerado, e o trabalho da imprensa pode resultar em pressões sociais capazes de alterar aquela realidade.

Mas um caso assim é mais complexo, não dá pra transformar em novela.

Além disso, a Amazônia fica longe demais das grandes redações.

Longe das pautas

O prêmio Ortega Y Gasset, concedido há vinte e cinco anos na Espanha, destina-se a valorizar a imprensa livre e combativa.

Uma blogueira ganhou neste ano, mas não pôde comparecer à festa.

Ela é cubana e não foi autorizada a deixar o país.

A imprensa brasileira ignorou completamente o evento. 

Alberto Dines:


– A grande festa do jornalismo espanhol transcorreu na noite de quarta-feira, sete de Maio. Ontem, El País, um dos melhores jornais do mundo, deu uma bonita chamada na sua capa e dedicou sete páginas à entrega do 25º Prêmio Ortega y Gasset dedicado como sempre à valorização da  imprensa livre, valente e comprometida. O grande destaque da noite foi a cadeira vazia da blogueira cubana, Yoani Sanchez, filóloga, que não foi autorizada a deixar seu país para receber o galardão referente ao jornalismo digital. O blog de Yoani Sánchez, Geração Y, é uma dos maiores fenômenos da internet. Está no ar apenas desde março do ano passado e há poucos dias a sua autora foi incluída pela revista Time entre as 100 personalidades mais influentes do mundo. Na entrevista que concedeu a El País Yoani Sánchez diz que está surpresa com a repercussão mundial das suas ‘vinhetas desencantadas’ sobre a realidade cubana. ‘O fato de que repararam numa  pessoa tão simples com eu me surpreende gratamente.  Estamos acostumados em ver sempre os famosos recolhendo os louros.’ Como é do seu feitio, Yoani não fez um comício, apenas remarcou a sua passagem para Junho próximo. E declarou ao El País: ‘As mudanças chegarão a Cuba. mas não através do script do governo’. A grande mídia brasileira passou ao largo do evento. Nenhuma linha a respeito. Os porteiros das redações estão ocupados com questões mais relevantes e sensacionais. As idéias da quieta e determinada filóloga de Havana, aqui não encontram eco. O problema não é dela,  é nosso.

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/05/2008 Pedro Meira

    O Sr. Minutti tem toda razão. Infelizmente, no Brasil está se tornando crime tomar o partido dos mais pobres e dos explorados. Do jeito que andam as coisas, só quem é rico, não importa a origem do dinheiro, é que tem valor e direito de permanecer vivo e em liberdade.

  2. Comentou em 10/05/2008 Pedro Meira

    Dr. Paulo, quer dizer então que 700 pessoas mortas por grileiros na Amazônia pro sr. não é nada demais, é um fato banal, como um cachorro atropelado na rua? Ao contrário, é uma razão a mais para que esse tipo de gente que seja acha além do bem e do mal porque tem dinheiro seja posta na prisão. É assim que podemos construir um país decente e não curtindo o circo mórbido do caso Nardoni, nem linchando aquele casal, por mais culpados que eles sejam. Quanto ao tratamento que a mídia dá àquele casal, só vejo dois caminhos: ou os repórteres irão buscar detalhes cada vez mais macabros, tentar arranjar acusações de pedofilia, oculltismo ou coisa do gênero, ou irão dar uma guinada de 180 graus e tentar levantar indícios de inocência. Do contrário, o caso acaba para a imprensa.

  3. Comentou em 10/05/2008 ailton filho

    É sr. Paulo, infelizmente, todos parecem ‘achar o mais natural do mundo’ pessoas serem assassinadas e os mandantes ficarem impunes. É isso que vemos todo santo dia na televisão. A vida é banal, não é? Mas. talvez o sr. não tenha acompanhado o caso quando ocorreu e os outros julgamentos que nunca ocorreram, onde pessoas, que lutam por direitos humanos e são assassinadas por interesses que não vão além de notas de REAIS, e são banidas do nosso convívio apenas por tentarem levar uma vida mais digna a sociedade local onde vivem. Triste ter de ler comentários como o seu, infelizmente, ainda o temos de fazê-lo.

  4. Comentou em 10/05/2008 Erivaldo Ferreira Silva

    Boa Pergunta do texto: Agora que o casal está preso, o que os repórteres vão fazer?
    Sou morador, amigo e vizinho do Pai da Madastra de Issabela.Ele, não tem culpa da loucura da filha.Minha rua vive um inferno com a presença de jornalistas.

  5. Comentou em 10/05/2008 Marcelo Batista

    ‘Mas um caso assim é mais complexo, não dá pra transformar em novela.’
    Com essa frase o colega sintetiza toda a mola que impulsiona a sub-mídia nacional, também conhecida como ‘Grande Mídia’ ou ainda PIG – Partido da Imprensa Golpista.
    Bonner seleciona o cardápio dos Homers Simpsons da vida. Homers comem criancinhas, não missionárias.

  6. Comentou em 10/05/2008 acreucho nascimento

    A diferença entre os dois casos é básica.
    A freira estava no meio de uma confusão sobre conflito agrário, sabendo o que poderia acontecer à ela, já Isabela era apenas uma menina, de 5 anos de idade, indefesa, que foi trucidada, segundo a Polícia e o MP, pelo próprio pai. Quanto a opinião do Luiz, ele a deu a respeito da freira, porque lhe interessava agradar o povo da Amazônia, ele não ter-se manifestado sobre o caso Isabela é porque não é algo de seu interesse ou que lhe traga interesses. A mídia, só se interessa, por aquilo que possa lhe trazer lucros…audiência…sem se comprometer sinceramente…

  7. Comentou em 09/05/2008 Rogério Barreto Brasiliense

    É verdade, a Amazônia fica longe de Sâo Paulo e Rio de Janeiro. mas Unai fica em Minas Gerais, também na região Sudeste.
    O caso dos auditores e do motorista do Ministério do Trabalho assassinados durante o exercício de suas funções, simplesmente sumiu da mídia. Não fico surpreso, afinal, o jornalista tem sempre que partir para outra.

  8. Comentou em 09/05/2008 Romulo Minutti

    Se o tal Bida for a julgamento outra vez aqui em Belém, vai ser inocentado. Explico: o juri popular e formado por pessoas da população local e essas pessoas da capital vivem sob o constante bombardeio da midia dizendo que as ONGs são todas pilantras e que movimentos sociais são formados por um bando de desocupados e baderneiros que invadem e destroem as propriedades produtivas, grandes fazendas, as propriedades da sagrada Vale, etc, etc, etc. Então qualquer fazendeiro, pro pessoal daqui, é santo e as Dorothys da vida são as vilãs.

  9. Comentou em 09/05/2008 Isabella R. Pichiguelli

    Caro Luciano, não seria o OI, além de observatório, parte integrante da imprensa?
    Não seriam dignas e passíveis de consideração as linhas aqui desenvolvidas sobre Ortega Y Gasset?
    Através deste, se cumpriu o papel do quarto poder em minha vida: o de manter-me informada.
    Sei que o colega provavelmente queira se referir a jornais brasileiros de grande alcance, mas não se pode desvalorizar o que deveria ser destaque pelo diferencial, mas, infelizmente, é ofuscado pela massa da massa.
    Um bom profissional não pode ser desvalorizado, desprezado, desconsiderado, apenas por sua equipe não contribuir da mesma forma que ele para a obtenção de um bom resultado.
    0,1, é 0,1… Não é 0.
    Abraços.

  10. Comentou em 09/05/2008 Marco Antônio Leite

    Precisamos saber quem recebeu mais, o daqui ou o de lá. A Justiça para ser Justa tem que ser AJUSTADA dentro dos moldes democráticos e com um código de condutas atualizado, para que não venhamos há ver disparates como os que estão acontecendo em todo o território nacional.

  11. Comentou em 09/05/2008 Vivi S

    Muito oportuno o texto. Ao me questionar até onde iríamos na cobertura do caso, julgando que os ânimos se acalmariam após a prisão do casal (os excessos até então se justificariam pelo papel vigilante da mídia e a ânsia de justiça), me deparei (no dia 08/05) com reportagens absolutamente constrangedoras de vários telejornais, incluindo o Jornal Nacional, a respeito dos pormenores da prisão do casal, incluindo descrição e condições das celas, fotos policiais, alimentação. Alguns mostraram o Alexandre se despindo para exames. Absolutamente desnecessário. Os jornalistas estão perdendo o bom senso em busca da espetacularização de um episódio que foi sim bárbaro, mas que deve ocupar o seu devido lugar em relação a tantos outros problemas conjunturais que temos.

  12. Comentou em 09/05/2008 Carlos Henrique

    Irretocável a comparação entre os casos Dorothy e Isabella. O assassinato dessa última ocorreu no coração econômico do país e envolve personagens com os quais estamos habituados (uma família de classe média), o que nos possibilita facilmente estabelecer uma relação com eles e julgar seu comportamento. Já uma decisão da justiça que ocorreu a milhares de quilômetros (cujo resultado controverso, se discutido, pode auxiliar em muito na melhoria da justiça brasileira) não tem o mesmo apelo aos repórteres e editores dos veículos de comunicação.

  13. Comentou em 09/05/2008 Ibsen Marques

    Dizem alguns filósofos antigos que a justiça se estabeleceu para promover um julgamento justo entre as partes e livre das emoções.
    As provas do caso Isabella, pelo menos o que dela se divulgam e, considerando que sejam verdadeiras, apontam para o pai e a madastra como executores do crime. Ponto. Daí para frente o que a imprensa, principalmente a televisada mopstram é um circo. Quando faltam notícias iniciam-se as especulações e os teatros com imagens da criança, fotos e descrições do ambiente familiar e escolar da criança. Tudo pela audiência. A multidão aos gritos em frente a casa dos pais da Ré me remeteram aos circos da Roma antiga. Certamente se fosse possível linchariam o casal condenado por antecipação. O próprio juiz em sua argumentação para validar a prisão do casal alega comoção social e manutenção da ordem. Mas a justiçã não deveria ser imparcial???? No caso Dorothy não há imprensa, não há informação e, portanto, não haverá justiça, pois como podemos ver, essa só se movimenta diante do clamor da imprensa (essa é quem na verdade incita o clamor popular). É a chamada manipulação da informação e das massas. Isso me lembra uma propagandinha ridícula que vem sendo veiculada na TV pela ABA que quer nos convencer da ingenuidade da propaganda. Ela não incita ninguém, não influencia comportamentos etc etc. Se é assim ela é ainda mais prescindível não é mesmo:????

  14. Comentou em 09/05/2008 RODRIGO HOSCHETT

    É triste ver até onde o sensacionalismo da maioria da imprensa pode chegar, a falta de ética e respeito transbordam há mais de um mês, será que o caso da missionária nâo merece a atençâo da mídia?Será que a impunidade do assassino nâo é importante? Perfeito o que postou Luciano Martins Costa, a Amazônia é muito longe.

  15. Comentou em 09/05/2008 Paulo Bandarra

    Acho o mais natural do mundo. Um caso, da criança, já por ser criança, comove muito mais, faz 50 dias apenas, e o inusitado caso como foi morta. Já o caso de Dorothy faz anos, sempre a prova foi muito fraca, apenas testemunhal, e nenhuma material. Portanto, a pior das provas, a chamada prostitutas das provas. Se com todas as evidências materiais e periciais contra o casal ainda suscita dúvidas em muitas pessoas soabre a sua culpa, o que dirá no caso do Pará, que apenas existia a acusação do suposto intermediário? São casos muito diferentes, e que despertam muitas emoções diferentes. Talvez a ouvinte não tenha acompanhado o caso quando ocorreu e os outros julgamentos! E não saiba, que diferentemente do inusitado caso de Isabella, que existem mais de 700 casos iguais ao da freira naquela região!

  16. Comentou em 09/05/2008 Pedro Meira

    Excelente o artigo sobre o melodrama criado sobre o caso Isabela e a quase indiferença com a absolvição de Vitalmiro, ao que tudo indica o mandante do assassinato de Dorothy Stang. Com relação a este caso, há gente por aí que está comemorando. No site do Estadão, um sujeito, sob o codinome Halbrecht, deixou um comentário altamente ofensivo contra a Irmã Dorothy chamando de, digamos exploradora (o termo original foi outro, que não poderia ser transcrito aqui, pois seria cortado) da fé, e até insinuou que gostaria de ve-la no inferno. Para esse tipo de gente de vocação nazista e que anda muito em evidência no Brasil atual, todo aquele que ousa questionar injustiças sociais é bandido e tem que morrer sem que a boa gente, aquela que tem muito dinheiro limpo ou sujo no bolso venha a ser incomodada por isso.

  17. Comentou em 09/05/2008 marcelo damico

    Um crime ‘sem mandante’ e uma imprensa ‘sem cabeça’ podem transformar nosso país numa nação ‘sem cérebro’. O povo clama por justiça no caso Isabella, mas ignora a mesma justiça para Dorothy Stang. Existem outra pessoas ameaçadas no norte e nordeste do país, e se não tomarmos consciência disso, e alastrar informações a respeito, poderemos assistir outros crimes acontecerem. Que país é esse?
    http://comunicatudo.blogspot.com

  18. Comentou em 09/05/2008 Oscar Borges Lucas

    O Caso Isabela só serviu para fazer a mídia parar de falar de dengue no Rio de Janeiro, assunto que já estava ficando mais batido que traseiro de masoquista. E só virou notícia por se tratar de uma família com certo poder aquisitivo, branca, e na região sudeste. O caso não impressiona em muita coisa se considerarmos que quase na mesma data do caso da Isabella, aqui em Roraima, uma jovem matou a mãe com 12 facadas para ir a festa à Suzane. Teve a missionária citada nesta coluna também, caso que envolve muitos interesses e por isso não foi noticiado.
    Se duvidarmos, daqui a algum tempo (não muito, podem acreditar), notícias que falam dos casos sexuais de celebridades com travestis vão ter mais destaque as eleições para presidente.

  19. Comentou em 09/05/2008 Eduardo Amaral

    È evidente que ocaso da irmã dificilmente seria tão noticiado, pois ele coloca em cheque. Afinal o caso demonstra o assino por encomenda, e como denunciou Dom Herwing como promessa de campanah, de um bando de senhores respeitaveis que contribuem para a economia do país, desenvolvendo técnologias no agronegócio e destruindo com a Amazônia.
    Enfim, é difícil qtacar aqueles que desenvolvem a economia através de um meio já conhecido, que é o desenvolver o lucro subdesnvolvendo a vid humana.

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