Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

Programa nº 1226

>>Queda na circulação
>>Forçando o pessimismo

Por Luciano Martins Costa em 11/02/2010 | comentários

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Queda na circulação

A crise financeira interrompeu, no ano passado, o “crescimento sustentado” da circulação de jornais no Brasil, depois de três anos seguidos de altas próximas dos 10%.

Esse é o enunciado de uma notícia publicada nesta quinta-feira pelo Globo.

O jornal carioca lembra que a circulação de jornais havia crescido 8% em 2008 e caiu 3,5% em 2009.

De um total de 4.351.400 exemplares em 2008, o volume total da circulação foi para 4.200.743 no ano passado.

A explicação, segundo o IVC, Instituto Verificador de Circulação, citado pelo Globo, é que a crise financeira levou as empresas de comunicação a adotarem políticas de investimento mais conservadoras, reduzindo as promoções para os leitores no primeiro semestre de 2009.

Os números apontam também uma leve recuperação em dezembro passado, quando a tendência de queda parece ter se reduzido, registrando-se uma perda de 2% na circulação em relação a dezembro de 2008.
 
Para entender um pouco melhor a situação, é preciso ressaltar que o número de jornais auditados pelo IVC aumentou, no período, de 94 para 101 títulos, porque muitas empresas aproveitaram o crescimento da nova classe média e lançaram títulos “populares” em quase todas as capitais.

É em cima dessa população, que nos últimos anos deixou a pobreza para formar a chamada classe C, que a imprensa brasileira se sustenta.

Essa mesma nova classe média, cujo crescimento a imprensa brasileira se negou a reconhecer por muito tempo, impediu uma queda maior da circulação de jornais e é a esperança das empresas na recuperação do mercado.
 
Também é conveniente lembrar, como declarou um dos diretores do condomínio Diários Associados durante encontro de dirigentes de jornais no ano passado em São Paulo, que a imprensa brasileira “deu um tiro no pé”, no começo de 2009, ao insistir num noticiário pessimista quando ainda não havia sinais claros de repercussão da crise internacional no Brasil.

Segundo esse dirigente, a imprensa brasileira antecipou a crise no Brasil e, com isso, acabou assustando seus próprios anunciantes.
 
Forçando o pessimismo

É muito provável que a queda na circulação dos jornais tenha tido como uma das causas os próprios erros das empresas jornalísticas.

A nova classe média compra jornais por uma questão de exibicionismo social, mas também por que toda família que ascende socialmente passa a ter mais interesse por informações diversificadas.

A questão é: que qualidade de informação as empresas jornalísticas estão oferecendo aos seus novos leitores?

Não apenas em seus novos títulos chamados de “populares”, mas também em seus títulos tradicionais, há controvérsias quanto à qualidade do jornalismo que se oferece ao público.
 
Veja-se, por exemplo, o noticiário desta quinta-feira sobre o estudo dos efeitos da crise econômica sobre as diferentes classes sociais no Brasil.

Realizada pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, essa avaliação indica que as classes de renda mais elevada, A e B, foram as que mais sofreram com os efeitos da crise financeira internacional no Brasil, enquanto a classe C perdeu apenas 0,4% de dezembro a dezembro, entre 2008 e 2009, e as classes mais pobres, D e E, praticamente se mantiveram estáveis.

Registre-se, para maior precisão, que, isolada, a classe D, que deixa a pobreza e aspira a ascender à classe média, cresceu 1,4%.
 
Agora comparem-se as abordagens que os diferentes jornais dão a essas informações.

O Estado de S.Paulo apresenta no título uma aparente contradição, afirmando que “Classes A e B foram as que mais cresceram na crise”, mas no corpo da reportagem esclarece que, apesar de terem sido as mais afetadas, essas classes de renda mais favorecidas foram de fato as que mais se expandiram.

De fato, segundo o estudo da FGV, mesmo durante a crise econômica, o Brasil manteve certa mobilidade social: enquanto nos anos anteriores houve um aumento significativo da população na classe C, chamada de nova classe média, entre 2008 e 2009 mais brasileiros de classe média subiram para as classes de renda mais alta.
 
Agora, observe o leitor a versão da Folha de S.Paulo.

O título da Folha diz o seguinte: “Crise piorou status de 4,2 milhões de brasileiros”, ou seja, um título absolutamente pessimista.

No interior da reportagem, o jornal começa dizendo que a crise baixou o status de 4,2 milhões de brasileiros que faziam parte das classes A e B em setembro de 2008, jogando-os para as classes C, D e E.

Em seguida, no segundo parágrafo, o texto repara que “por outro lado, outras 4,7 milhões de
pessoas saíram da classe C e ascenderam na pirâmide”.

Mais adiante, o jornal acrescenta que quase um milhão de brasileiros deixaram de ser pobres durante a crise financeira internacional.

Ou seja, a parte boa e mais realista da notícia fica em segundo plano, e ressalta-se um elemento isolado no contexto do estudo, e não por acaso o mais pessimista.
Jornalismo tendencioso não é bom jornalismo.

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