Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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>>Sociedade e mídia mobilizadas
>>O dialeto da submissão

Por Mauro Malin em 27/02/2007 | comentários

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Leis e práticas


Tramitam no Congresso mudanças legislativas que podem ser úteis para a sociedade ter maior controle sobre a criminalidade e a violência, mas é sempre necessário advertir que, sozinhas, não resolvem. Por exemplo, o quadro de envolvimento das Polícias e de políticos com o crime no Rio de Janeiro mostra-se cada dia mais calamitoso. A mídia está empenhada em denunciar e mostrar caminhos, mas o desafio é gigantesco.


Sociedade e mídia mobilizadas


Alberto Dines louva o papel da mídia na manutenção do debate sobre criminalidade violenta.


Dines:


– As discussões e emoções suscitadas pelo assassinato do menino João Hélio conseguiram ultrapassar a intransponível barreira do Carnaval. Esta rara persistência é um feito da sociedade e, evidentemente, da mídia que conseguiu expressá-la. Antes do Carnaval a Câmara foi obrigada a esquecer o PAC e aprovou cinco providências penais que se arrastavam há tempos. Agora a barbaridade chega ao Senado com a votação da diminuição da maioridade penal marcada para a quinta-feira. A revolta da sociedade é legítima, mas foi agravada pela forma fria, quase distante, com que o governo tratou a questão desde o início. Na realidade, existiam muitas alternativas para ações governamentais mas os assessores do presidente vetaram todas – não queriam validar a pressão exercida pela mídia. Essa queda de braço não ajuda a ninguém e será o assunto do Observatório da Imprensade hoje à noite: às 23.30 na TV-Cultura. Mais cedo, às 22:40, ao vivo, na TV-E.



O dialeto da submissão


O diretor executivo do Instituto Via Pública, Pedro Paulo Martoni Branco, sugere que a mídia ajude a entender por que se criou um ambiente em que a ameaça de violência muda o comportamento das pessoas em face do crime.


Pedro Paulo:


– Aprofundar as explicações que nos levem a perceber de maneira mais nítida que se consuma hoje a existência de um dialeto tacitamente aceito por todos os protagonistas no comportamento social cotidiano, entre a criminalidade que se banalizou e a atitude dos cidadãos diante dela. Do tipo: todos saem de casa, circulam pelas ruas, alamedas, espaços públicos de dia e à noite certos de que não poderão reagir ao primeiro toque que lhe procura nos bolsos o dinheiro, no pulso o relógio, sob pena de que um gesto brusco de repente praticado é a senha para que, naquele dialeto, o outro lhe atire mortalmente, lhe corte a garganta, o ponha numa condição de inferioridade física que pode resultar na morte – esse tipo de aceitação, de passividade, de rendição, amplamente difundido e recomendado como a melhor prática diante de um cotidiano que banalizou as ameaças que estão postas em todo canto. Tudo isso faz com que o bandido tenha estabelecido regras e direitos que são aceitos, e não há nada que se contraponha a isso. E por aí passa um dos caudais que torna a sociedade refém.


Em causa própria


O professor Venício Lima chama a atenção, em artigo no Observatório da Imprensa Online, para o silêncio da mídia a respeito da composição das Comissões de Comunicação da Câmara e do Senado. Há vários parlamentares donos de meios de comunicação. Vão legislar em causa própria.


Reportagens compradas


Título da Folha de hoje: “Chinaglia analisa se compra de reportagens fere regras”. Trata-se de repercussão de reportagem publicada no domingo em que o jornal aponta compra de espaço, por deputados, com verba da Câmara, em jornais regionais. Ora, certamente essa compra fere as regras mais elementares do jornalismo. Reforça-se a percepção de que a liberdade de imprensa é um atributo muito relativo da democracia brasileira. Segue escala decrescente dos grandes centros para as pequenas cidades.


O deputado do Rio Grande do Norte Henrique Eduardo Alves, filho de Aluízio Alves, ex-governador que começou a vida como jornalista, controla a Tribuna do Norte, de Natal, onde, diz a Folha de S. Paulo, seriam publicadas notícias sobre as atividades do deputado em Brasília mediante pagamento. Henrique Eduardo Alves ganha duplamente: como beneficiário das reportagens e do dinheiro público.


Etanol deixa Estadão tonto


No domingo, a proposta do presidente Bush de uma “Opep do etanol” foi saudada em manchete pelo Estadão. Hoje, os entraves a uma conquista de maior fatia no mercado americano de combustíveis são destacados em editorial chamado “A retórica da ´Opep do etanol´”.

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