Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

Programa nº 391

Mauro Malin

>>PF pede quebra do sigilo de jornalistas
>>Informar sem excluir

Por Mauro Malin em 09/11/2006 | comentários

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PF pede quebra do sigilo de jornalistas

Alberto Dines:

– A Policia Federal parece que está muito estressada com as suas brigas internas e, pela segunda vez em quinze dias, foi mexer com a imprensa. Ontem foi revelado que a área de inteligência da PF, aquela que investiga o Dossiê Vedoin, achou necessário pedir a quebra do sigilo de dois telefones da Folha de S.Paulo em Brasília: um fixo e um celular. Há duas semanas a mesma Polícia Federal convocou indevidamente três repórteres da Veja para depor num inquérito interno. As explicações dos federais não convenceram antes no caso da revista Veja e não convencem agora no caso do jornalão paulista. A área de inteligência de uma polícia tão qualificada tem a obrigação de saber quem é quem. Tem a obrigação, sobretudo, de saber que telefone de jornalista é intocável. Alias, tocar pode, não pode é pretender quebrar o seu sigilo. O ato configura atentado à Constituição, tentativa de censura ou intimidação. Considerados isoladamente, os dois episódios poderiam ser avaliados como “trapalhadas” profissionais. Isso acontece nas melhores equipes, em qualquer atividade. Mas juntos e tão próximos um do outro, não podem ser minimizados nem desconsiderados. Sobretudo, porque a imprensa vem sendo abertamente criticada nas últimas semanas por altas autoridades do governo, por figurões do partido do governo e por formadores de opinião próximos ao governo. Com este background tão ruidoso contra a imprensa, o que poderia ser visto como um lapso seguido de outro, ganha outra conotação. Vejamos o que dirão agora os especialistas em denunciar o “complô da mídia golpista”.

 

Informar sem excluir

 

O repórter da Rede Globo André Luiz Azevedo considera o assassinato do jornalista Tim Lopes por traficantes, em junho de 2002, um divisor de águas no trabalho da imprensa no Rio de Janeiro, hoje submetido a grandes dificuldades.

 

André Luiz:

 

– Como manter a informação para todas as regiões, e não criar regiões onde você não retira informação e não tem aquele cidadão que passa as informações para o restante da sociedade. Esse é o grande o desafio neste momento. Você ter acesso a certas regiões do Rio, acesso à população do Rio de Janeiro que precisa transmitir suas reivindicações, manifestar suas opiniões. A gente tenta diariamente, isso é uma coisa que se conquista no dia-a-dia, fazer essas reportagens. Agora, a gente sabe que isso é uma tentativa. Nem sempre a gente consegue um sucesso absoluto, porque a gente tomou uma decisão, uma decisão radical, em muitas redações, isso foi feito a partir da morte do Tim, foi feita discussão no Sindicato, na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), de não nos submetermos mais ao jugo dos traficantes, de não pedir autorização, permissão para entrar em nenhuma área. É importante levar os pleitos de toda a população, mas sem que a gente se submeta a nenhuma forma de negociação espúria.

 

Mauro:

 

– Segundo André Luiz Azevedo, o domínio de certas áreas por bandidos torna difícil noticiar também manifestações artísticas de grande importância para a cidade.

 

André Luiz:

 

– Na cidade do Rio de Janeiro você tem as manifestações culturais, musicais, presentes em toda a cidade. Uma parte da população, muita gente diz que são um milhão e meio, dois milhões de habitantes, é a população que vive em comunidades chamadas de favelas, ou que outro nome tenha, e comunidades que muitas vezes são submetidas ao tráfico. E essa população tem reivindicações e tem manifestações culturais riquíssimas, principalmente agora que chega a época do carnaval. Essa é uma manifestação que a gente não pode abrir mão de divulgar, mas que a gente tem que andar nesse fio da navalha de fazer essa reportagem sem nos submeter a nenhuma espécie de negociação com o crime organizado ou com traficantes.

 

Mauro:

 

– O repórter da Rede Globo diz que toda relação com fonte de informação é delicada e deve ser submetida a critérios cuidadosos.

 

André Luiz:

 

– Com a fonte policial, o repórter tem que ter acesso à fonte para receber a informação. Ele tem que ter o discernimento para não permitir que seja manobrado por aquela fonte, que aquela fonte use de uma maneira que ele não esteja percebendo. A relação repórter-fonte é uma relação delicada, importante, em qualquer setor da comunicação. Não é diferente na área política, não é diferente na área cultural, não é diferente na área esportiva. A gente tem que ter acesso à fonte, a fonte tem que perceber que ali ele tem um canal importante de divulgação, agora, a gente não pode de nenhuma forma ficar submetido aos interesses da fonte. A gente tem que pensar sempre que o nosso compromisso número um é sempre com a sociedade, com nosso telespectador, com nosso ouvinte. De que lado está o interesse do telespectador como participante da sociedade. 

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/11/2006 Ivanilson Alves

    SÓ PERGUNTAS AO SR. DINES: ‘Há duas semanas a mesma Polícia Federal convocou indevidamente três repórteres da Veja para depor num inquérito interno’ INDEVIDAMENTE!! Não entendi a do Sr. Dines, você já foi Delegado de Polícia? Sabe como funciona os procedimentos em uma investiagação policial? Ora bolas! Esse ‘Folhetim’ faz acusações sem provas e não queres prestar as informações devidas a Sociedade? Em que país nós estamos Sr. Dines? Não vivemos uma Democracia ou não vivemos? Então paguemos por ela, que por sinal, é o melhor sistema de governo ou pelo menos não existe outro melhor. Por isso, parabéns Polícia Federal do Brasil!!!

  2. Comentou em 12/11/2006 régis richael primo da silva

    Na verdade, é bom que se diga que a proteção do “sigilo da fonte”, de que gozam os jornalistas, não é absoluta, sendo garantida apenas às hipóteses de condutas jornalísticas lícitas. Nem seria preciso dizer que, numa república, ninguém está acima da lei, nem o presidente da república, nem tampouco os jornalistas. Se sobre estes últimos recaem suspeitas razoáveis de práticas delituosas, qualquer juiz tem não só o poder mas o dever de decretar-lhes a quebra do sigilo telefônico, se de tal medida depender o êxito da investigação. A não ser que entendamos os ‘jornalistas criminosos’ como uma classe privilegiada de criminosos, imune aos procedimentos de investigação e de processo destinado aos demais. Aliás, já está mais do que na hora de a imprensa parar de dar a qualquer questão jurídica envolvendo seus órgãos e profissionais o status de conflito em torno da liberdade de expressão. A polícia investiga policiais, procuradores denunciam procuradores, juízes condenam juízes. Só a imprensa insiste em se colocar acima do bem e do mal?

  3. Comentou em 11/11/2006 ubirajara sousa

    Sr. Dines, o senhor está equivocado. Telefone de jornalista não é intocável não. Vá ao site abaixo e decubra isso.
    http://ultimainstancia.uol.com.br/noticia/33031.shtml
    Ademais, o senhor está distorcendo as coisas. Os jornalistas foram depor como testemunhas, aliás. o que justifica o impedimento de consulta aos seus advogados. Sinceramente, o senhor mudou muito.
    Faça um artigo sobre o ‘filmete’ apresentado há pouco, pelo JN, de um evento que todos já sabiam desde ontem. Mas a Globo tinha a exclusividade do filmete e, por isso, sem levar em conta os danos que poderão advir e recair sobre os familiares (inclusive filhos menores) do André, sequestrador do ônibus e de sua ex-mulher, isso não conta. O André estava em total desequilíbrio psicológico quando se decidiu pela consumação do ato. E o editor-chefe da Globo, também estava, ao decidir pela veiculação do horroroso filmete? A sua mídia não tem defesa. A nossa mídia tem. A nossa mídia é a mídia responsável; é a mídia que procura a verdade; é a mídia que mede as conseqüências dos seus atos; é a mídia como foi originalmente concebida. Chega de lero-lero; chega de bravatas. Nós não tememos o poder da (sua) mídia: nós não lemos mais a mídia, como antigamente. Obrigado.

  4. Comentou em 11/11/2006 Mirna Vieira

    Eu só sei de uma coisa… que a gritaria da folha de sp está estranha isso está!

  5. Comentou em 10/11/2006 Gloria Lafeta

    Bom Dia caro jornalista, nao entendo…nao entendo mesmo. jornalistas são ‘deuses’? Por que intocáveis? o termo foi demais… Menos… menos, caro jornalista!

  6. Comentou em 10/11/2006 Rogério Ferraz Alencar

    ‘Vejamos o que dirão agora os especialistas em denunciar o “complô da mídia golpista”. Esperemos o que a quebra de sigilo vai revelar ou não. A tentativa de golpe houve. A quebra de sigilo pode mostrar a extensão da tentativa, se foi só o que nós percebemos ou foi muito mais. O delegado Edmílson Bruno foi glorificado pela mídia, porque agiu contra o PT. Os delegados que não agem contra o PT são logo execrados pela mídia, por estarem ‘atentando contra a democracia’. As informações preliminares apontam vários telefonemas para Gedimar Passos. Gedimar foi o ‘petista’ que incriminou o PT. Foi também quem disse que foi coagido pelo delegado Edmílson Bruno, para incriminar Freud Godoy. Ainda sobre o dossiê: Valdebran Padilha, o outro ‘petista’ pego com o dinheiro, fretou o avião no qual levaria o dinheiro. O piloto do avião era Tito Lívio da Silva, filiado ao PSDB. Resta saber quem é Arlindo Barbosa, o dono do avião.

  7. Comentou em 09/11/2006 Giancarlo Câmara

    Há duas semanas a mesma Polícia Federal convocou indevidamente três repórteres da Veja para depor num inquérito interno. Eu acho que a procuradora federal já afirmou e reafirmou que não foi um inquérito interno, e não precisam convencer se for verdade, porém discordo com diversas frases suas posteriores, sua retórica em defesa da ‘liberdade de imprensa’ beira a histeria, não é a PF que quebra o sigilo, é o juiz que dá o mandado, porém eu acho que o Sr. não acredita na idoneidade do Judiciário, do MPF, entre outros, só da imprensa. E me desculpe, eu não acredito em ‘liberdade de imprensa’ quando a pauta é definida e a edição das reportagens são feitas ao bel-prazer e interesse dos proprietários da imprensa.

  8. Comentou em 09/11/2006 elton titonelli titonelli

    Estranho ! Até agora nenhum comentário. Há censura ou os internautas estão abandonando o OI ?

  9. Comentou em 09/11/2006 Ruy Acquaviva

    Como é que é Sr. Alberto Dines???!!! Sua frase ‘pela segunda vez em quinze dias, foi mexer com a imprensa’ referindo-se à Polícia Federal é um primor de corporativismo. Então não se pode ‘mexer com a imprensa’???!!! O Sr. está propondo a volta da famosa frase: ‘Você sabe com quem está falando’??? Já pensou ? ‘Que história é essa de mexer comigo? Eu sou da imprensa. TENHO COSTAS QUENTES. Se mexer comigo eu publico uma mentira qualquer sobre você e vira verdade. E VOCÊ VAI TER QUE FICAR QUIETINHO. Se não eu grito que é contra a liberdade de imprensa’… Ora, Sr. Dines, tenha santa paciência!!! Desde quando a polícia está proibida de investigar um ilícito só porque ‘mexe com a imprensa’??? Em que País democrático que a imprensa tem o tipo de imunidade acrítica que o Sr. está propondo??? Isso não tem cabimento. Se há ou houve abuso de poder por parte da política, que o Sr. fale contra esse abuso. Mas dizer que a polícia não pode ‘mexer com a imprensa’???!!! Já é demais.

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