Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Programa nº 843

>>Torturando o leitor
>>Sujeira nas urnas

Por Luciano Martins Costa em 12/08/2008 | comentários

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Torturando o leitor

Os jornais assumiram claramente um dos lados, no debate sobre o possível julgamento dos militares e agentes civis que cometeram o crime de torturar presos políticos durante o período da ditadura militar.

Na comparação entre as notícias disponíveis hoje, a imprensa continua fazendo confusão entre levar o caso à Justiça e promover a revisão da Lei de Anistia.



Embora o ministro da Justiça, Tarso Genro, nunca tenha proposto uma revisão da lei, mas a abertura de processos contra os acusados de tortura, os jornais seguem dando destaque maior para os personagens que defendem a validade plena da Lei de Anistia, que não chegou a ser colocada em questão.

Hoje, o Estado de S.Paulo coloca no alto da página a declaração do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, que defendeu o fim da discussão sobre tortura no regime militar.

O argumento do ministro é que o julgamento produziria instabilidade política, mas os jornais não questionam seu posicionamento controverso.

Afinal, era de se perguntar se não caberia ao presidente da Suprema Corte defender, em princípio, que a Justiça se manifeste, em vez de varrer as demandas para baixo do tapete.

É preciso não esquecer que a questão foi levantada pela família do jornalista Luiz Merlino, que trabalhava no Estadão quando foi morto sob tortura.

A família de Merlino pede justiça há trinta anos, e o presidente do Supremo diz que o Judiciário não deve se manifestar.

E a imprensa – especificamente o Estadão – agasalha o argumento sem questioná-lo.

Para que não se diga que deu espaço apenas para um dos lados, o jornal também noticia que um grupo de cem juristas, entre os quais o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, assinou manifesto público em defesa do debate sobre o alcance da Lei de Anistia.

O texto do manifesto esclarece mais do que as reportagens dos jornais, ao observar que os termos da questão estão sendo deliberadamente deturpados.

A Folha de S.Paulo foi o único dos grandes jornais a destacar a manifestação dos juristas, deixando em segundo plano a declaração do ministro Gilmar Mendes.

O Globo ignorou completamente todas as informações controversas e o documento dos juristas e apostou numa página inteira em que o ministro Tarso Genro foi enquadrado pelo presidente da República e obrigado a voltar atrás, considerando encerrado o assunto.



É muito provável, mesmo, que o tema seja engavetado para sempre.

Curiosamente, por falta de interesse da imprensa.

Sujeira nas urnas

O Tribunal Superior Eleitoral adiou outra vez a decisão de mandar ou não forças federais para garantir o acesso de todos os candidatos a comunidades dominadas pelo crime organizado.

Segundo a imprensa, o TSE aposta na garantia do voto secreto como arma suficiente para que o próprio eleitor se oponha às pretensões dos criminosos que tentam emplacar nas urnas seus asseclas e associados.

Talvez  seja acreditar demais no tirocínio das pessoas, ou subestimar demais a capacidade de pressão do crime organizado.

Se até mesmo para comprar um litro de leite muitos cidadãos dependem de autorização dos bandidos que dominam as favelas, uma campanha pela valorização do voto secreto pode parecer candura demais.

A imprensa parece ter perdido o interesse na questão dos candidatos com ficha suja depois da decisão do Supremo Tribunal Federal de que ninguém pode ser impedido de se candidatar enquanto não for condenado definitivamente.

Mas ainda há muito espaço para debates.

Alberto Dines:

– O Supremo Tribunal Federal decidiu que candidatos com problemas na justiça e chances de recorrer não podem ser embargados. Tem razão. Mas a Associação dos Magistrados considera que o princípio da presunção de inocência não vale para funções públicas. Também tem razão.

O que fazer? Convocar a imprensa para cumprir com o seu papel de defensora do interesse público. A questão dos candidatos com ‘ficha suja’ talvez não seja resolvida com facilidade.

Mas precisa ser discutida exaustivamente.

É o que fará hoje o Observatório da Imprensa. À meia-noite e dez na TV-Cultura. Ao vivo, às 22:40 na TV-Brasil. Participe.

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/08/2008 Alberto Figueiredo

    Concordo, existem processos se arrastando desde 1996 e candidatos até com sentenças expedidas de dois anos e oito meses de reclusão (convertidos em prestação de serviços comunitátios) concorrendo, fazendo propaganda e se dizendo honesto e digno. Isso na cabeça de uma maioria analfabeta política e com uma boa dose de marketing soa como perseguição aos abençoados.

  2. Comentou em 12/08/2008 Pedro pereira Pereira

    Se;os jornais assumiram claramente um dos lados, as noticias disponíveis hoje continuam fazendo confusão.que o jornal deu espaço para mais de 100 juristas, que a folha( um dos maiores jornais do pais) destacou o assunto e que vc não leu o globo para acompanhar as noticias, vc chega à conclusão de foi CURIOSAMENTE por falta de interesse da imprensa que o assunto foi engavetado.. Se foi engavetado, vc diz, não deve ser por causa disso e o motivo todos nos sabemos.mas o patrulhada não permite opinioes contrarias.Para que se saiba,antes de discutir qualquer assunto politico deve-se haver legalidade nas discussoes ou pelo menos um ¨Fumus boni iuris¨que não caso não há, que a manifestãçaõ do STF emitido pelo
    Dr Gilmar foi da competencia dele sim , ou vc queria que ele se manifestasse contra a lei.?… não entendo !!!!
    Quanto a sujeira nas urna estamos debatendo demais a agindo pouco não peça mais debate sobre isso.. fragiliza a democracia porque o caso é de impedimento das liberdades do minimo .. que é votar em quem se quer.
    Quanto ao sr Dines, não seria diferente, ele tem que concordar que a presunçao de inocencia não vale pra funçoes publicas, queria ver ele discorrendo se um dia a presunçao de inocencia não valesse pra jornalistas ou qualquer outra profissão… embora acho que ele concordaria tbem.

  3. Comentou em 12/08/2008 Gregório Banar

    É compreensível (porém, inaceitável) que a grande imprensa esteja fazendo esse jogo sujo com seus leitores, a respeito da elucidação dos crimes políticos ocorridos no período 1964/1985. Assim como Hitler, que acreditava no Reich dos Mil Anos, também os Marinhos, Mesquitas et caterva apostaram que os golpistas de 64 ficariam eternamente no poder. Assim, investiram todas as suas fichas no quesito ‘puxa-saquismo’, defendendo os torturadores e criticando ferozmente quem se opunha à nefanda prática. Com isso, ganharam milionários contratos de publicidade. Nunca, em toda a sua história, as organizações Globo foram tão bem aquinhoadas pelo poder público. Naquela época, enquanto as TVs concorrentes tinham que se valer da extinta Cacex para importar equipamentos, o que podia levar até três anos, a TV Globo recebia o que de melhor havia no Mundo, com autorização expressa do general de plantão, apenas em alguns dias após feitas as encomendas. Este é apenas um pequeno exemplo do ‘porquê’ dessa grande imprensa, hoje, estar se portando dessa maneira. Afinal, não se deve cuspir no prato em que comeu…

  4. Comentou em 12/08/2008 jairo flexa

    Isso permitiria que, quando nostálgicos daqueles tempos quisessem homenagear algum torturador dando seu nome para alguma rua ou praça. o transeunte pudesse ler na placa: ‘Fulano de Tal, Torturador’ – assim como se lê ‘Beltrano’, médico. ‘Sicrano’, escritor e assim por diante.

  5. Comentou em 12/08/2008 jairo flexa

    A grande imprensa não está se confundindo qunato ao que está em discussão no caso: ela está deliberadamente tentando confundir a opinião pública sobre a questão, fazendo aquilo que na linguagem bem coloquial chama-se ‘um rolo’, ou seja, embaralhando de tal maneira os elementos em discussão de modo a tornar impossível – ou muito difícil – desembaraçar o novelo. Nem se poderia esperar algo diferente dos grandes órgãos de imprensa, uma vez que todos eles foram inteiramente favoráveis ao golpe de 1964 (que os jornalões gostavam de citar como ‘Revolução’). A recente nota do Clube Militar fala de ‘supostas torturas’. Algum grande órgão de nossa imprensa questionou esse ‘supostas’? Abordando o tema por outro lado: se as torturas foram ‘supostas’ – o que, em termos práticos, significa que ‘não ocorreram’, qual o problema, então, em abrir os tenebrosos arquivos dos militares para, analisando-os, constatar que, de fato, não houve tortura e, principalmente, não houve torturadores, ou seja, pessoas físicas que as teria, cometido? A mim, que apesar de várias vezes cerceado e financeiramente prejudicado em meu trabalho teatral, felizmente, não sofri tortura física, bastaria algo bem simples: que os torturadores (da turma do Coturno & Caserna ou seus seguidores) fossem identificados.

  6. Comentou em 12/08/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Depois das bobagens que andou falando e fazendo o Presidente do STF não tem legitimidade para silenciar ninguém. Deveria silenciar-se a si próprio. Só assim daríamos atenção à ele. No mais, o debate deve prosseguir, nem que seja com o tal risco a que aludiu o banana que preside o STF. Quando minha casa era invadida a ponta-pés pro militares em 1967, eu tinha três anos de diade. Hoje tenho 44 e muita disposição de receber os mesmos caras à minha porta com não menos que as flores que produzem os canhões.

  7. Comentou em 12/08/2008 José Orair Silva

    ‘O Supremo Tribunal Federal decidiu que candidatos com problemas na justiça e chances de recorrer não podem ser embargados’. Segundo juristas de escola está corretíssimo o entendimento já que os ilustríssimos candidatos não sofreram ainda a condenação definitiva. A questão é que a justiça brasileira só é rápida quando se trata de conceder habeas corpus a bilionários, quando então até os supremos servidores da justiça postam-se, vigilantes e zelosos, varando madrugadas insones na defesa intransigente do estado de direito… Para as demais situações a justiça brasileira caminha a passos de cágado preguiçoso postergando ad infinitum as decisões. Assim os políticos poderão participar de quantas eleições desejarem, uma vez que a possibilidade de uma condenação definitiva pela justiça brasileira terrena é absolutamente nula. Essa condenação definitiva sómente poderá ocorrer por ocasião do julgamento divino final universal quando então todos seremos inapelavelmente julgados…

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