Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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REDES SOCIAIS > Privacidade

A batalha do “capitalismo de vigilância” fica mais violenta

Por Carlos Castilho em 17/09/2019 na edição 1055

(Foto: Unsplash – Will Francis)

Texto atualizado e adaptado pelo site objETHOS a partir do original publicado no blog https://medium.com/@ccastilho

Depois de ser acusada de praticar o chamado “gangsterismo digital”, a rede social Facebook anunciou uma nova série de medidas para tentar limpar a sua imagem pública. Mas a iniciativa foi recebida com ceticismo porque a empresa de Mark Zuckerberg perdeu credibilidade no que se refere à privacidade de seus usuários depois de sucessivos casos de vazamentos e uso indevido de dados alheios.

Estamos assistindo a mais um round da chamada “Guerra do Capitalismo de Vigilância” (do inglês Surveillance Capitalism), um termo criado por especialistas acadêmicos para identificar uma nova forma de ganhar dinheiro por meio do monitoramento e uso de dados pessoais de usuários de redes sociais.

Trata-se de uma guerra político-financeira em que, de um lado, estão governos conservadores, como os da Inglaterra e Estados Unidos, interessados em neutralizar o poder das redes sociais, e, do outro, as bilionárias empresas de tecnologia que ganham fortunas imensas comercializando dados obtidos gratuitamente de usuários de redes sociais.

O fundador da maior rede social da internet ignora a pressão de políticos europeus porque acha que só tem que prestar contas ao governo e ao congresso dos Estados Unidos, baseado no fato de que sua empresa foi criada e funciona na Califórnia. Mas a realidade mostrou que a comunicação via redes sociais na internet atropelou o conceito de fronteiras geográficas, que ainda está muito vivo na cabeça de parlamentares. Facebook, independente do fato de ter sede nos EUA, é hoje uma comunidade internacional formada por 2,3 bilhões de usuários espalhados por mais de cinquenta países.

O caráter globalizado das redes sociais acabou criando um complexo dilema sobre quem tem o poder legal de regulamentar ou restringir as atividades do Facebook, que, desde as eleições norte-americanas de 2016 e do plebiscito do brexit (saída da Grã Bretanha da União Europeia), está sob uma fortíssima pressão de governos e partidos políticos. Os segmentos menos antenados com as novas tecnologias não se conformam com a alteração do comportamento político de milhões de eleitores provocado pela avalanche informativa na internet, da qual faz parte o fenômeno das notícias falsas.

Fake news na guerra da informação
As fake news viraram um item da agenda pública mundial, mas elas são apenas uma parte de um processo ainda mais amplo e complicado que é o crescimento vertiginoso de uma modalidade econômica onde a comercialização de dados pessoais fornecidos por usuários da internet passou a ser fantasticamente lucrativa.

É o chamado “capitalismo de vigilância”, uma atividade onde o nosso modo de vida é a mercadoria mais valorizada, deixando num segundo plano a nossa força de trabalho física e intelectual, que até agora era a pedra angular do capitalismo convencional ou analógico.

O Facebook é o protagonista no caso das fake news porque o ponto forte da rede é a interatividade entre seus usuários, mas o ícone principal do “capitalismo de vigilância” é a empresa Google, hoje a detentora da maior massa de informações sobre pessoas já reunida na história da humanidade. O grande segredo do Google foi oferecer gratuitamente um serviço de buscas na internet, mas a empresa não pesquisa apenas os temas procurados pelo usuário, e sim também os dados sobre o comportamento de quem faz buscas. Esses dados, obtidos sem o conhecimento do usuário, formam hoje um incomensurável capital informativo que é processado pelo Google para faturar bilhões de dólares por ano ao fornecer a anunciantes informações sobre o comportamento de consumidores.

O papel do Facebook no condicionamento das intenções de voto dos ingleses no referendo popular sobre a saída da União Europeia, em junho de 2016, bem como na campanha eleitoral norte-americana que levou à vitória de Donald Trump, também em 2016, assustou o establishment ocidental dada a possibilidade concreta da elite política nos EUA e na Europa perder o controle sobre os processos de consulta popular. Curiosamente, essa ameaça não veio de movimentos de esquerda, mas de grupos de ultradireita.

O efeito desestabilizador do “capitalismo de vigilância” ainda é um tema privativo dos núcleos de pesquisas estratégicas sobre o futuro no planeta, mas já provoca uma profunda insegurança entre os principais tomadores de decisões, porque ele implica a ascensão da empresa Google como um protagonista político global de extrema importância dada a massa de conhecimentos que acumulou ao longo dos seus dez anos de existência. Uma massa de conhecimentos que inclui dados sobre os atuais governantes em todo o mundo.

A União Europeia aplicou no Google uma multa recorde de 19 bilhões de reais como punição pela captura de dados sobre usuários no Velho Mundo. A multa é mais uma retaliação política do que um golpe financeiro, pois em 2018 os lucros da empresa de buscas na internet chegaram a 33 bilhões de reais. Os Estados Unidos, até agora, foram tolerantes diante do crescimento político e econômico das empresas Facebook e Google, mas o crescimento acelerado tanto das fake news como do “capitalismo de vigilância” intensificou a insegurança e a incerteza sobre a política e a economia no planeta.

A maior agressividade, por enquanto verbal, dos legisladores europeus é um sintoma de que eles parecem decididos a transformar as fake news num objetivo estratégico intermediário antes de atacar a questão dos dados pessoais. As notícias falsas são um alvo mais fácil porque são uma questão compreensível pelas pessoas comuns; já o “capitalismo de vigilância” é um problema complexo que exige maior poder de abstração do público.

***

Carlos Castilho tem doutorado em mídia e conhecimento, com pós-doutorado em Jornalismo em Comunidades de Prática. É pesquisador do objETHOS.

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