Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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SAíDAS PARA A MíDIA > JORNAL DO FUTURO

A hipótese da interatividade total

Por Luciano Martins Costa em 12/07/2005 na edição 337

Imagine o leitor a possibilidade de reescrever um editorial do Estadão e ter a sua opinião publicada pelo próprio Estadão. Ou pegar um artigo da Folha de S. Paulo ou do Globo e ‘corrigir’ aquilo que considerar impropriedades, exageros ou distorções. Acrescente-se a isto a hipótese de todas as versões propostas por cada leitor ficarem disponíveis, em camadas de textos, para quem quiser conhecer a diversidade de visões que um mesmo fato pode produzir.


Essa possibilidade existe, e a tecnologia para produzir essa revolução já está disponível. O jornal Los Angeles Times fez uma experiência, no dia 20 de junho passado, abrindo para o público a chance de reescrever um texto da seção de opinião e editoriais. A resposta foi massiva, permitindo observar as orientações políticas do público do jornal, com a explicitação da polarização entre conservadores e liberais que os observadores têm notado na chamada era Bush.


Mas o Los Angeles Times desistiu, após menos de dois dias, de publicar as contribuições de leitores ao debate aberto por uma coluna publicada no site do jornal. O texto, intitulado ‘Guerra e conseqüências’, questionava a validade de o governo americano treinar cidadãos do Iraque para substituir suas tropas naquele país. Cerca de mil leitores se inscreveram para reescrever o editorial, mas, além de divergências radicais entre conservadores e liberais, o site foi também invadido por bobagens, obscenidades e até imagens pornográficas.


A experiência, inspirada no site interativo www.wikipedia.org, consiste em apresentar uma página com um conteúdo original do jornal que vai sendo modificado progressivamente por cada novo leitor, formando camadas de opinião praticamente infinitas. A tecnologia oferece sempre a versão mais recente da página, mas também permite vasculhar retroativamente todas as mudanças postadas, até o texto original.


Não deu certo desta vez, mas o projeto não morreu. Robert Barrett, gerente-geral do Los Angeles Times Interactive, ficou entusiasmado com a repercussão da novidade e com a adesão dos leitores. Ele garante que, assim que for criada uma forma segura de impedir a ação dos vândalos, o jornal vai retomar a prática, provavelmente limitando a participação a certos grupos de assinantes e escalando jornalistas para monitorar as contribuições dos leitores antes de coloca-las no ar.


Bate-boca geral


Imagine-se agora o brasileiro tendo a possibilidade de refazer alguns textos publicados nas últimas semanas sobre o escândalo político que ameaça os fundamentos do petismo. Como toda inovação, provavelmente teríamos também, como acontece em alguns fóruns de debate online, um bate-boca geral com grande incidência de impropérios e interjeições. No entanto, os estômagos sensíveis acabariam entendendo que é assim mesmo que funciona a democracia. Partindo do conteúdo das inquirições da mais recente CPI, ou de uma análise do último clássico do futebol nacional, com certeza os menos ocupados serão também os mais ativos – o que não garante a qualidade do debate.


Ainda assim, a inovação acabará pegando e, como sempre, uma vez experimentada, a liberdade de expressão acabará pegando. O que nos levará, inevitavelmente, a rediscutir certos pressupostos da imprensa. Desde a questão da propriedade dos meios até o papel do jornalista, tudo terá de ser revisto sob a prática da interatividade real. O que ainda continua no reino da fantasia é a hipótese de editores e articulistas abrirem mão voluntariamente do monopólio da verdade, para permitir que a sociedade manifeste a riqueza de interpretações que a realidade oferece.

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