Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

SAíDAS PARA A MíDIA > MERCADO DE INTELIGÊNCIA

A luz atrás do eclipse da informação

Por Luciano Martins Costa em 31/10/2005 na edição 353

Relatório sobre perspectivas da economia mundial, que circula na Federação das Indústrias no Estado de São Paulo com data de 24/10/2005, indica que a economia dos Estados Unidos vai continuar crescendo apesar das dificuldades políticas do presidente George W. Bush e que os preços do petróleo tendem a estacionar no próximo trimestre, com perspectivas de redução gradual a partir do ano que vem. Outros detalhes do estudo referendam a conclusão de que os fundamentos da economia brasileira permanecerão relativamente seguros durante todo o ano de 2006, a ponto de suportar um agravamento extremado da crise política doméstica. Cópia da análise foi encaminhada a assessores do governador do Estado, Geraldo Alckmin. Não consta que o prefeito José Serra tenha sido brindado com presente semelhante.

A nota acima, que poderia ter sido publicada em qualquer das colunas de jornais diários ou das revistas semanais brasileiras, é tipicamente uma informação estratégica, que chega eventualmente às direções de jornais e revistas, mas não é repassada aos leitores com o valor integral que reúne. No máximo, um relatório com essas características é desmembrado e publicado em partes, fora do contexto em que as informações foram colhidas e analisadas. A inteligência do estudo é omitida do leitor, mas serve de base para decisões cruciais de edição. Esse é o nível sutil de manipulação que ocorre há alguns anos nas principais redações do país.

Informações reveladoras

A parte visível desse processo berra nas manchetes, seja a partir de uma história contada por alguém que diz tê-la ouvido de um defunto, seja como capítulo de uma pesquisa de opinião, cuja metodologia e cuja íntegra são sempre guardadas fora do alcance do público. O que não quer dizer que todo o público vai comprar a versão apresentada.

Para citar alguém já falecido, já que andamos fazendo manchetes com mensagens do além, não custa ilustrar estas ponderações com certa frase que era usada com relativa freqüência pelo editor João Victor Strauss, lembrado por antigos colegas como uma voz ponderada no turbilhão das edições. ‘É como o eclipse; tem gente que só vê o escuro, mas os mais sabidos não esquecem que a lua continua lá atrás das sombras’, dizia, a respeito das reportagens que chegavam à redação comprometidas pelo viés da direção do jornal.

Por exemplo, as pesquisas sobre credibilidade dos governos são feitas diretamente em cima das respostas a perguntas que podem conter premissas direcionadoras de opinião. Nunca se faz uma complementação da consulta direta – sempre manipulável – com o exemplo concreto de fatos comprováveis. No entanto, mesmo quando o título alardeia que certo governo perdeu credibilidade, esses fatos concretos podem continuar afirmando o contrário, ou seja, o que interessa não é verdadeiramente revelar o grau de apoio ou credibilidade do governante, mas o resultado de uma pesquisa específica.

No caso de se perscrutar a credibilidade de um governo, as respostas do público a demandas desse governo, como o lançamento de títulos do Tesouro ou de pacotes de investimento garantidos pelo poder público, são informações reveladoras da realidade que supostamente se deseja observar, mas nunca fazem parte dos fatores analisados. Esse tipo de informação vai para a seção de economia e negócios, e nunca se explicita a relação clara que existe entre ela e o contexto mais amplo em que acontece.

Além do disco escuro

Essa característica se repete em praticamente todos os temas do noticiário, e não é a falta de espaço ou de tempo que pode explicar essa deficiência. O mais provável é que a imprensa não se ocupe tanto em ampliar a base ou a qualidade de seu público, mas tem como maior preocupação preservar sua capacidade de influenciar uma parcela da opinião pública e justificar ou respaldar a ação de agentes econômicos ou grupos políticos com os quais se identifica ou com os quais partilha interesses.

Com essa estratégia, a imprensa não se revela capaz de manter um diálogo estimulante com o público – ou não tem interesse de correr o risco de produzir interpretações com as quais possa não concordar. Trata-se claramente de uma aposta no controle das opiniões, em detrimento do debate livre e amplo que pode ampliar as percepções e fazer crescer a consciência coletiva sobre a realidade social, política e econômica.

Quando dizemos aqui que é necessário criar uma imprensa que considere o mercado de inteligência que existe neste país, referimo-nos aos milhões de cidadãos que, ao observar o eclipse, não se fixam apenas no disco escuro, mas enxergam o contexto integral do fenômeno.

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Jornalista

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