Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

SAíDAS PARA A MíDIA > O ESTADO DA MÍDIA

Alerta vermelho para veículos de papel

Por Carlos Castilho em 29/03/2005 na edição 322

A grande imprensa pode estar perdendo uma das últimas chances de dar a volta por cima na crise que atinge o setor desde os anos 1990, segundo um alerta feito pelos autores do relatório The State of the News Media 2005 (O estado da mídia noticiosa 2005).

O documento divulgado em meados de março nos Estados Unidos qualifica como ‘ácido’ o ambiente no qual as grandes redes de jornais, rádios e TV terão que buscar uma solução para a continuada perda de público, de credibilidade e de faturamento – a pior de toda a história da imprensa norte-americana e mundial.

O adjetivo ‘ácido’ foi usado para definir o ambiente em que a maioria dos executivos de jornais, revistas e redes de televisão dos Estados Unidos está sendo criticada por uma série de decisões equivocadas em setores como atualização tecnológica, enxugamento das redações, política editorial e resistência em admitir uma maior participação do público no processo informativo.

Toda a análise e estatísticas mencionadas no documento referem-se à realidade da mídia dos Estados Unidos. Mas isto está longe de ser um alívio para a imprensa brasileira, porque seguimos basicamente o modelo norte-americano em matéria de estratégias corporativas e políticas editoriais. Daí a necessidade de uma reflexão sobre as advertências e conclusões do The State of the News Media 2005.

Orçamentos elásticos

Esta é a segunda edição do ambicioso levantamento anual do estado da imprensa norte-americana organizado pelo Projeto para a Excelência em Jornalismo, vinculado ao Comitê dos Jornalistas Preocupados (Committe of Concerned Journalists), com patrocínio da Universidade de Columbia, em Nova York, e do Pew Charitable Trust, uma fundação financiadora de pesquisas na área do jornalismo.

A parte mais polêmica do relatório é o capítulo intitulado ‘Cinco Tendências Predominantes‘ onde são listadas as seguintes preocupações:

1. Diversificação das políticas editoriais com duas linhas predominantes: o jornalismo online voltado cada vez mais para a participação do leitor e para a temática local, enquanto a imprensa convencional está cada vez mais voltada para o jornalismo superficial, pouco preciso e ligeiro. O jornalismo de verificação, preocupado com a veracidade e credibilidade está sendo substituído pelo jornalismo de afirmação, no qual os profissionais substituem a pesquisa pela opinião pessoal e pelo sensacionalismo.

2. O descrédito crescente na mídia reduz a ideologização do noticiário nos principais jornais e cadeias de televisão. As exceções são os talk shows radiofônicos e o noticiário do canal fechado Fox News, que apostaram no conservadorismo como forma de manter audiência. No relatório 2004 do Estado da Mídia havia uma previsão de aprofundamento da repartição ideológica dentro do público norte-americano.

3. O surgimento de um novo tipo de público, mais exigente e mais participativo, está obrigando os jornalistas a uma profunda revisão dos seus valores e rotinas na profissão. O público começa a cobrar transparência total dos profissionais e dos veículos, mais do que eficiência, rapidez e objetividade. É a resposta de quem perdeu a confiança na imprensa.

4. Apesar das estatísticas indicarem um crescimento rápido da audiência via internet, a grande imprensa continua demasiado cautelosa nos investimentos na informação online. Esta opção é determinada pela insegurança sobre um rápido retorno do capital aplicado, mas isto acaba deixando o terreno livre para empresas novas ocuparem espaços estratégicos na web, o que aumentará inevitavelmente as dificuldades da imprensa tradicional para sair da crise.

5. O noticiário na televisão aberta convencional está entrando num período de grande instabilidade por conta da aposentadoria de nomes famosos e pela continuada queda de audiência por conta da concorrência dos canais a cabo e da internet. O relatório destaca que, no caso norte-americano, a escolha parece ser entre um noticiário de qualidade baseado na contextualização das informações, o que pressupõe orçamentos elásticos, ou a transformação dos telejornais em programas leves, com entrevistas e transmissões ao vivo. O documento diz que 2006 será um ano crítico para o telejornalismo dos EUA.

Novo leitor

As estatísticas recolhidas pelos pesquisadores do Projeto para a Excelência em Jornalismo confirmam a queda, pelo décimo segundo ano consecutivo, da credibilidade do público nas notícias publicadas pela grande imprensa norte-americana. O índice de credibilidade caiu de 72% para magros 49% entre 1992 e 2004. No mesmo período, o número de pessoas que compram jornais diminuiu de 75% para 60%, enquanto o criticismo do público em relação aos jornais aumentou. Em 1992, apenas 13% dos leitores achavam que os jornais encobriam seus próprios erros – índice que disparou para 67% no ano passado.

As dificuldades que atingem a grande imprensa norte-americana contrastam com os dados otimistas que o relatório apontou em três segmentos da comunicação: aumentou o público que visita sites de notícias na internet (o Google News já está entre as cinco fontes de notícias mais procuradas; e o público dos blogs cresceu 58% e atinge 36 milhões de pessoas só nos EUA); cresceu o número de jornais voltados para comunidades étnicas (em 2004 foram criados 14 novos jornais hispânicos nos EUA) e, pelo segundo ano consecutivo, foi registrado um crescimento na quantidade e faturamento de publicações alternativas.

O relatório de mais de 500 páginas analisa a performance de nove segmentos da imprensa norte-americana, que são examinados sob seis perspectivas diferentes: conteúdo do material publicado, comportamento da audiência ou público leitor, situação econômica e financeira, posicionamento dos proprietários, novos investimentos e reações do público em geral. Há também um capítulo dedicado às percepções dos jornalistas em relação aos veículos de comunicação.

Tom Rosenstiel, coordenador geral do relatório, diz nas conclusões que a ‘grande imprensa norte-americana parece não compreender que está surgindo um novo tipo de leitor, baseado numa nova percepção de cidadania’, na qual o público passa a encarar a imprensa como UM, e não mais O, componente do processo de informação.

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Jornalista e pesquisador de mídia online.

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