Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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SAíDAS PARA A MíDIA > LEITURA DE JORNAIS

Compro ou não compro?

Por Gabriel Perissé em 22/02/2005 na edição 317

Houve um tempo em que era sagrado: comprava o jornal todos os dias pela manhã e lia tudo, de cabo a rabo, de fio a pavio, das manchetes aos classificados.

Numa segunda-feira, porém, surgiu a dúvida. Compro ou não compro o jornal hoje? Dia internacional da preguiça, e, além do mais, tinham ficado em cima do sofá, para ler, alguns cadernos da edição domingueira. Pensando bem, segunda-feira (onde estará a primeira-feira?) era mais para começar a semana, marcar compromissos… Não comprou. Virou rotina.

Certa vez, esqueceu de comprar na quinta-feira. E sabe o que aconteceu? Não aconteceu nada. Tudo o que aconteceu já havia acontecido. As informações da quinta não alteraram a cotação do dólar nem o tamanho do engarrafamento.

Quando passou a comprar o jornal apenas na quarta, sexta, sábado e domingo, os três dias restantes ganharam em leveza. As notícias pela rádio e pelo telejornal supriram sua fome de verdades, ou meias-verdades, ou especulações, ou meteorologia… Ainda sobrou um trocado para a cerveja.

Foi numa sexta-feira de verão, depois da oitava latinha, que ele lembrou não ter lido o jornal que comprara pela manhã. E já era praticamente sábado! Sábado-domingo, sim, poderia ler com calma, saborear o editorial, as reportagens, o caderno de cultura. Estabeleceu que nem chamaria a publicação de jornal (proveniente do latim diurnalis, como consultara num livro sobre etimologia popular). Não o leria todos os dias nunca mais. Só no final de semana.

Informação, informação

Mas o problema é que os finais de semana foram ficando curtos: lavar carro, fazer compras, sair com a família, cuidar do cachorro, pegar um cineminha, dar uma corridinha no parque, tomar outra cervejinha com os amigos, bater uma bolinha, dar uma dormidinha…

Tudo bem, a edição de domingo passa a reinar ao longo da semana. Ler um jornal em sete dias – nada mal em tempos nos quais tempo é o que mais falta. O triste foi se dar conta de que, numa determinada semana, o jornal com tantas páginas permaneceu dentro do saco plástico, virgem.

A banca de jornal tornou-se quase invisível. As notícias pela internet, o comentário de alguém na hora do cafezinho, até o jornalzinho da associação de bairro – tudo lhe comunicou que a freira foi assassinada no Pará, que o julgamento de Michael Jackson está uma confusão, e que amanhã vai chover, com certeza…

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Doutor em Educação pela USP e escritor; (www.perisse.com.br)

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