Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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SAíDAS PARA A MíDIA >

Crise põe a qualidade em xeque

Por Luciano Martins Costa em 22/02/2005 na edição 317

A reportagem de capa da revista Business Week (edição de 15/1), intitulada ‘O futuro do New York Times‘, é leitura obrigatória para jornalistas, gestores da mídia e cidadãos interessados no futuro do jornalismo como o conhecemos desde sempre.

O texto, conduzido por Anthony Bianco (com o auxílio de John Rossant, em Paris e Lauren Gard, em Nova York), traça um retrato cruel do dilema que assalta o atual proprietário do mais respeitado jornal dos Estados Unidos, Arthur Ochs Sulzberger Jr: como conciliar o necessário crescimento da empresa com a preservação da primazia do jornalismo de qualidade?

Com o valor de suas ações desabando 25% – de 53,80 dólares em meados de 2002, para os atuais 40 dólares –, a New York Times Company, empresa proprietária do conglomerado que inclui, além do NYTimes, The Boston Globe, The International Herald Tribune, quinze pequenos diários e oito emissoras de televisão, vê seu futuro suspenso por um plano de negócio de longo prazo cujas chances de sucesso são colocadas em xeque pelas tendências de curto e médio prazo.

Aposta de longo prazo

A rigor, Sulzberger sustenta um plano de dez anos atrás, quando o NYTimes lançou sua versão online e apostou tudo no conteúdo do jornal e na tática de estender o alcance de sua circulação, enquanto ampliava a capacidade multimídia da empresa.

Depois de buscar uma dimensão global de sua presença, ao adquirir o controle do International Herald Tribune, em 2002, ele agora investe na expansão e melhoria do diário europeu. Seu maior problema, porém, é que as circunstâncias mais negativas deste período afetam justamente a maior fonte de poder da companhia: aparentemente, o mercado não retribui com o valor proporcional aquilo que seus editores consideram jornalismo de qualidade.

Depois de ver sua autoridade moral se esfacelar ante a ação criminosa do repórter Jayson Blair, demitido em maio de 2003 por haver apresentado para publicação dezenas de histórias exageradas, mistificadas ou simplesmente inventadas, o jornal mais respeitado do mundo teve sua credibilidade afetada também pela revelação de que algumas reportagens de seus correspondentes haviam aceitado como verossímeis descrições exageradas sobre a capacidade do antigo governo de Saddam Hussein, no Iraque, de produzir armas de destruição em massa, ajudando a justificar a invasão do país.

‘O Império Romano que era a grande mídia está se acabando, e nós estamos entrando num período quase feudal, no qual existirão muito mais centros de poder e influência’, decreta Orville Schell, decano da escola de Jornalismo da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Aquilo que alguns analistas chamam de mídia dominante, formadora de tendências, está em plena decadência não apenas por seus erros, diz a reportagem da Business Week – também contribui para a crise o cenário político norte-americano, no qual se representa o que Schell chamou de período ‘quase feudal’, em cujo centro está a corte ultraconservadora do presidente George W. Bush, que não hesita em proclamar que a grande mídia já não conta como antes.

Por trás dessa complexidade leve-se ainda em consideração o acelerado avanço da tecnologia que praticamente universaliza o poder de publicar. ‘É uma espécie de desagregação da estrutura molecular da mídia’, sentencia Orville Schell.

Douglas Arthur, analista de mídia do Morgan Stanley, uma das maiores instituições financeiras do mundo, apregoa que os números da New York Times Company estão ‘à beira do abismo’.

Ainda assim, insiste Arthur Sulzberger Jr., a aposta é na recuperação em longo prazo do valor do ‘bom jornalismo’.

Leitores pouco exigentes

Atualmente, o braço online da empresa – NYTimes.com – se mantém entre os dez sites de conteúdo jornalístico mais visitados nos Estados Unidos. The New York Times Television é um dos maiores produtores independentes de documentários do país, mas o próprio Sulzberger vê com desconfiança esse sucesso: ‘Começa a ser um problema o fato de estarmos treinando uma geração de leitores para obter informação de qualidade de graça’, disse à Business Week.

Esse é de fato o centro do turbilhão que ele precisa vencer. A maioria dos leitores do New York Times agora prefere ler suas reportagens e artigos via internet, mas a empresa tira 90% de seu faturamento da edição impressa. E o modelo de negócio que parece justificar o custo de produzir jornalismo de qualidade é justamente aquele que não está crescendo, enquanto o modelo que cresce – a internet – não está produzindo resultados suficientes para financiar jornalismo com a mesma qualidade, resume John Battelle, co-fundador da Wired e outras revistas e negócios online.

O drama do New York Times não parece abalar a confiança de seu controlador – também vista por alguns analistas como mera arrogância. Deste posto de observação, a reação olímpica do tradicional diário nova-iorquino a recentes equívocos de seu correspondente no Brasil é, no mínimo, reveladora de que nem mesmo aquilo que ele considera jornalismo de qualidade deve ser aceito unanimemente como tal.

E se é fato o que constatam alguns dos especialistas ouvidos pela Business Week, o dilema que afeta Sulzberger se repete também por aqui, nos veículos que chamamos comumente de ‘a grande mídia’. Com a agravante de que não chegamos a formar uma massa significativa de leitores mais exigentes.

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