Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

SAíDAS PARA A MíDIA > O ESTADO DA MÍDIA

Imprensa americana, crise e decepção

Por Luciano Martins Costa em 29/03/2005 na edição 322

O relatório sobre o Estado da Mídia 2005, produzido pelo Projeto para a Excelência em Jornalismo, instituição associada à Escola de Graduação em Jornalismo da Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos, divulgado em meados em março, apresenta um retrato devastador, mas ao mesmo tempo útil e altamente esclarecedor, sobre a situação do jornalismo norte-americano. O extenso levantamento, que ocupa mais de 500 páginas, lança fortes luzes sobre a mais grave e duradoura crise do setor, mostrando a ampla extensão da chaga, mas também indica caminhos para a recuperação.

Embora estritamente dedicado ao mercado norte-americano, o estudo oferece uma inestimável contribuição para os estrategistas da mídia latino-americana e brasileira em especial, pelo histórico de relações entre o modelo americano e o que se passa ao sul do Rio Grande (aquele que se supõe separar o México dos Estados Unidos).

A pesquisa abrange nove setores de mídia – redes de TV, TV por assinatura, jornais, revistas, internet, rádio, emissoras locais e regionais de televisão, mídia étnica e imprensa alternativa. Para cada um desses setores foram organizadas informações sobre direcionamento do conteúdo editorial, tendências do público, tendências econômicas, características de propriedade da mídia, tendências de investimentos nas redações e análises das atitudes do público.

O objetivo declarado dos organizadores do trabalho foi estudar o estado do jornalismo americano e responder questões essenciais sobre suas tendências e direções, sintetizando todas as informações disponíveis de maneira independente e desapaixonada. Uma das conclusões centrais: a tecnologia está transformando os cidadãos, de consumidores passivos de notícias produzidas por profissionais, em participantes ativos que podem compor seu próprio jornal.

‘Nesse novo mundo, continuamos acreditando que o jornalismo não está se tornando irrelevante’, dizem os organizadores. ‘À medida em que o universo da informação se expande, a necessidade de saber o que é verdade é tudo que vale. Mas discernir e comunicar isso está mais difícil.’

O estudo permite observar, por exemplo, que existem agora muitos modelos de jornalismo, os meios que mais crescem são os mais rápidos e baratos. O modelo de empresa tradicional, no qual os jornalistas se preocupam primeiro em contextualizar os fatos – que no estudo é chamado de ‘jornalismo de verificação’ – vem perdendo terreno para os programas de entrevista e comentários, nos quais se sobressai um ‘jornalismo de afirmação’, por meio do qual a informação é oferecida com pouco tempo para se conferir a veracidade com independência.

Por outro lado, o universo dos blogs, ao mesmo tempo que agrega a riqueza da diversidade de cidadãos ativos, expande exponencialmente ‘essa cultura das assertivas’, agregando a isso uma filosofia afirmativa: ‘Publique qualquer coisa, especialmente opiniões, que os relatos mais precisos e a confirmação acabam acontecendo mais cedo ou mais tarde na própria rede de bloggers’. O resultado é parte verdade e parte mentira, ou seja, não confiável.

Outra característica constatada pelos pesquisadores na relação entre a imprensa e seus públicos é que o crescimento do partidarismo no consumo de notícias e a impressão de que as pessoas recuaram para seus cantos ideológicos foram muito exagerados. Na realidade, a maioria esmagadora dos americanos diz preferir uma imprensa independente e não partidária, assim como os anunciantes e os investidores – o que indica uma escolha errada por parte dos editores e gestores que buscam aumentar o número de correligionários, em vez de leitores críticos.

Uma vez que os cidadãos têm um espectro maior de informações ao alcance dos dedos, diz o estudo, também precisa crescer proporcionalmente o nível de comprovação oferecido pela imprensa. Nesse sentido, conclui, a tendência de encher as redações só com jornalistas generalistas, mesmo talentosos, pode não ser apropriada.

Competidor da imprensa

Outro aspecto interessante revelado pelo trabalho do Projeto para a Excelência em Jornalismo é que os cidadãos mais críticos, que desconfiam da imprensa, consomem mais imprensa do que os mais crédulos ou mais passivos. A única exceção observada ocorre quanto aos programas de entrevistas e comentários no rádio e na TV (talk shows), nos quais se percebe uma concentração de republicanos conservadores nas emissoras da Fox.

O sumário executivo do estudo indica que o jornalismo deve se mover na direção de tornar seu trabalho mais transparente e mais fundamentado, e ampliar o escopo de sua investigação. Deve se tornar fonte confiável em vez de se apresentar como coletador de informação.

Para que os jornalistas alcancem a aspiração de se tornar a fonte confiável do público, acrescenta, as organizações de imprensa precisam promover algumas mudanças. Uma delas seria documentar seus processos de reportagem mais abertamente, para que seu público possa decidir por si mesmo em que acreditar.

Acabou a era do jornalismo ‘confie em mim’, dizem os analistas da pesquisa, e começou a era do jornalismo em que o público exige: ‘mostre-me’. Em vez de meramente monitorar os corredores oficiais do poder, as organizações informativas podem ter também que monitorar os novos meios alternativo de debate público, observam.

O problema é que o estudo constatou que a mídia tradicional está deixando para as empresas de tecnologia (como o Google) e para os indivíduos ativos e empreendedores (como os blogueiros e os freqüentadores de chats de debates) a tarefa de explorar e inovar a internet. O risco dessa atitude é que a mídia tradicional ceda a esses novos concorrentes a tecnologia mais avançada e a audiência que está sendo construída online.

Em 2004, por exemplo, o serviço de notícias Google News surgiu como grande competidor da imprensa, enquanto a audiência dos blogs cresceu 58% nos Estados Unidos, em apenas seis meses, e já alcança 32 milhões de pessoas. À medida que cresce essa audiência, os blogs se tornam mais profissionais, mais confiáveis e ainda mais competitivos.

Seria necessário muito tempo para perscrutar todos os detalhes das nove áreas estudadas – o resultado completo no que se refere aos jornais pode ser visto aqui. Mas alguns pormenores revelam como a mídia enfrentou a crise em 2004, nos Estados Unidos.

Más notícias

O desapontamento com a continuidade da perda de leitores e de receita fez com que muitos jornais voltassem a cortar na carne de suas redações, ao mesmo tempo em que se constatava que boa parte dos números que haviam induzido a certo otimismo há um ano eram resultado de fraudes do tipo muito conhecido entre nós: maquiagem na circulação, assinaturas de cortesia contadas como assinaturas pagas etc. O pior é que se verificou baixo investimento em jornalismo online, onde a audiência continua crescendo, o que aumenta as dúvidas quanto ao futuro. No entanto, os jornais continuam dando lucros nos Estados Unidos.

A circulação de jornais impressos voltou a apresentar queda acelerada no período de seis meses terminado em setembro de 2004, com 0,9% menos leitores nos dias de semana e 1,5% a menos aos domingos. Ao mesmo tempo, um estudo do Deutsch Bank Securities com 40 jornais americanos revelou que métodos inadequados para medição da circulação, como a concessão de descontos pesados para atrair leitores, haviam mais do que duplicado nos dois últimos anos, criando distorções que podem indicar uma queda real ainda maior na circulação paga.

Para disfarçar a queda na circulação, muitos jornais passaram a usar o critério do número de leitores, o que não ajuda a medir a saúde da mídia. E mesmo essa artimanha para tentar atrair o interesse de anunciantes acabou por se revelar um desastre: o número de pessoas (60%) que declararam em 2004 ter o hábito regular de ler jornais diários é o menor índice em 14 anos, desde que essa consulta começou a ser feita pelo Pew Charitable Trust, instituto pertencente à entidade que patrocinou a pesquisa sobre o estado da mídia.

Abalados pela falta de resultados sustentáveis – embora tenha havido um crescimento nos lucros – os gestores das empresas americanas de jornalismo reduziram os investimentos nas redações e tentaram forçar o público a pagar para ler na internet. O cenário não apenas permaneceu o mesmo, como muitos jovens leitores foram empurrados para fontes gratuitas online.

A revelação das tentativas de maquiagem na circulação produziu outro efeito perverso: as agências de publicidade passaram a desconfiar até mesmo dos jornais que não tentaram fraudar os números, o que fez cair o valor da mídia impressa e ameaça afetar os lucros obtidos no ano passado. Isso deixa os gestores de imprensa sem mais cartas no bolso do colete.

A soma de más notícias fez com que um executivo ouvido pelos pesquisadores opinasse que a indústria de jornais nos Estados Unidos está vivendo uma crise de autoconfiança, e está deixando de acreditar na viabilidade do que está oferecendo, no papel ou em outros meios. As conclusões do estudo indicam que ele pode estar certo.

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