Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

SAíDAS PARA A MíDIA > DE PIRES NA MÃO

Mídia rasga a fantasia

Por Luciano Martins Costa em 24/02/2004 na edição 265

Estabeleceu-se oficialmente a cizânia entre as empresas nacionais de comunicação. A comitiva de descontentes que visitou na quinta-feira, dia 19, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Carlos Lessa, não podia representar mais explicitamente uma declaração de guerra: Luiz Sandoval, presidente do Grupo Sílvio Santos, Amílcare Dallevo Júnior, presidente da RedeTV!, e Dennis Munhoz, presidente da Rede Record, foram dizer ao governo que não aceitarão um programa de socorro às empresas de mídia nos termos que foram propostos pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) juntamente com a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Nacional de Editoras de Revistas (Aner).

As três entidades querem a liberação de R$ 5 bilhões em créditos do BNDES para alívio de dívidas que chegam a R$ 10 bilhões, a maior parte (80%) contratada em moeda estrangeira e com o maior montante (83,5%) vencendo em curto prazo. As empresas sufocadas têm muita pressa: os resultados de pelo menos dois grandes grupos projetados para este trimestre, do qual já se foram dois terços, não são suficientes para o cumprimento das obrigações que vencem no mesmo período. As emissoras que foram na semana passada manifestar sua oposição à proposta querem que os recursos do banco de fomento sejam destinados à aquisição de equipamentos e melhoria operacional. Não aceitam que sequer um centavo seja destinado a acerto de dívidas.

Mais do que uma queixa, o movimento de SBT, RedeTV! e Record produziu como conseqüência imediata uma decisão de governo que na prática impossibilita o atendimento, em curto prazo, do pedido das entidades: a disparidade de interesses levou o presidente do BNDES a observar que o banco não pode discutir nenhuma proposta de financiamento se não receber um projeto coeso. E o governo decidiu que a batata quente será transferida para o Congresso Nacional.

A semana terminou como uma longa quarta-feira de cinzas para os dirigentes da ANJ. Com dívidas muito menores do que aquelas que causam a cizânia — evidentemente, são os R$ 5,6 bilhões devidos pela holding Globo Comunicações e Participações (Globopar) a motivação principal das emissoras concorrentes —, as empresas que editam jornais se encontram numa situação de extrema fragilidade que o dinheiro do BNDES poderia corrigir: a maioria delas alcançou muito recentemente um ponto de equilíbrio em suas contas, às custas de cortes profundos principalmente na folha de pagamentos, mas a participação do meio jornal no bolo de receitas publicitárias continua caindo e não há perspectivas de saírem do atoleiro por suas próprias rodas.

Ao cair no Congresso, a questão vai produzir uma situação muito mais complexa do pode parecer à primeira vista, lançando a questão para um ponto de difícil retorno. Lembremo-nos de que a televisão comercial brasileira é formada por seis grandes redes nacionais, com cerca de 140 grupos regionais afiliados. São no total quase 290 emissoras abertas, e cerca de 70 delas — 1/4 do total — pertencem, por concessão, a deputados, senadores, prefeitos e governadores. Também estão nas mãos de políticos outras centenas, talvez um milhar de estações retransmissoras. O cenário não é diferente quando se fala de emissoras de rádio e, em menor grau, no que se refere a jornais de alcance regional ou municipal.

Portanto, para cada frase dita ao microfone da Câmara ou do Senado, uma infinidade de apartes estarão representando os muitos interesses conflitantes daqueles que serão, ao mesmo tempo, mediadores e protagonistas da disputa. Ou você aí, na frente dessa telinha, acredita que algum deputado ou senador vai se declarar impedido de tratar da questão por ser concessionário de TV ou rádio? Tem mais: quantas emissoras, pertencentes a políticos, estão em nome de ‘laranjas’?

Com a guerra declarada, ficam, de um lado, as redes Record, SBT e RedeTV!, com suas afiliadas, contra a Rede Globo, que domina cerca de 60% da audiência nacional e fatura entre 70% e 80% do bolo publicitário televisivo. A Bandeirantes, que não foi pressionar o BNDES, também tem interesse na ajuda governamental mas ficou fora da briga por enquanto, podendo se beneficiar ou perder com qualquer resultado. No final deste ano, poderemos ver um mercado completamente transfigurado.

A aposta das emissoras que foram a Carlos Lessa é muito alta. E o troco também haverá de ser pesado. Ninguém deve estranhar se a Rede Globo começar a colocar recursos numa investigação dos bingos e do jogo eletrônico, pois há muito se suspeita que uma das redes que partiram para a guerra tem relações com ‘empresários’ do setor de entretenimento que fez a fama e glória de Waldomiro Diniz. Se a monstruosa dívida revela a fragilidade da toda-poderosa Globo, suas oponentes também têm por que se cuidar. Não é de hoje que o Serviço de Inteligência da Receita Federal tenta entender como flui o dinheiro miúdo que tem forjado certos conglomerados empresariais.

Como se vê, aquela preocupação manifestada neste espaço por muitos e qualificados observadores, a respeito de uma possível contaminação da nossa imprensa por uma eventual ajuda do governo às empresas que a controlam acaba de se tornar relativamente menor. Agora que a mídia rasgou a fantasia, se já não sabíamos com que critério o Congresso haverá de discutir o tema, muito mais difícil será avaliar o noticiário a respeito.

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