Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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SAíDAS PARA A MíDIA >

O editorial interativo e o martini seco

Por Luiz Weis em 20/06/2005 na edição 334

No que tem tudo para parecer um lance de marketing, o editor do Los Angeles Times, Michael Kinsley, resolveu inventar o editorial interativo. Ele anunciou no domingo (20/6) o advento, na edição online do jornal, do que chamou ‘wikitorials’ – por analogia com a Wikipedia, a enciclopédia eletrônica aberta aos leitores para inserir verbetes e mudar outros (e cuja confiabilidade, por isso mesmo, está sujeita a chuvas e trovoadas).


Assim, os leitores do LAT na web poderão mostrar os seus conhecimentos sobre assuntos diversos e exercer os seus eventuais dotes jornalísticos, reescrevendo, cortando e adicionando o que bem entenderem em alguns editoriais selecionados para esse fim pela casa. ‘É o máximo em participação do leitor’, vangloria-se Kinsley (ex-Harpers, ex-New Republic, ex-Slate).


O New York Times o chamou de ‘iconoclasta’, mas ele dá antes a impressão de ser um jornalista capaz de boas e más sacadas em relação a um mesmo problema do ofício.


Na última categoria pode-se incluir o seu mal-disfarçado desprezo pelos corpos de editorialistas que existem em publicações do porte do LAT. Diferentemente do que acontece no Brasil, são eles e não o publisher que definem as posições do jornal diante dos assuntos ‘editorializáveis’. (Mais sobre isso, adiante).


Na primeira, pode-se incluir a idéia de convidar acadêmicos e jornalistas estrangeiros para ser editorialistas-visitantes por períodos de três meses, mais ou menos à maneira dos professores-visitantes das faculdades americanas. Mas, ao contrário deles (que são livres para dizer o que quiserem nas suas aulas), sem a possibilidade de mudar a linha editorial do jornal (pertencente ao grupo que publica o conservador Chicago Tribune).


Outra idéia interessante e potencialmente mais útil do que a dos editoriais gênero obra-aberta é o seu projeto ‘Pensando alto’. Leitores, comentaristas e editorialistas mergulhariam em dois temas difíceis – imigração e trânsito. Diz Kinsley, citado pelo New York Times: ‘Esperamos ter dentro de um ano uma posição sólida, consistente, inteligente e correta [o excesso de adjetivos é bem do jornalista-marqueteiro] sobre esses assuntos, resultando de um processo não apenas transparente, mas do qual os leitores terão participado.’


Democratismo, não democracia


Mas por que o editorialismo interativo não seria igualmente uma bela idéia? A resposta mais convincente que este leitor encontrou foi do colunista Stacy Schiff do NYT: ‘Alguns de nós gostamos da nossa verdade do mesmo jeito que gostamos dos nossos martinis: secos e firmes’.


Ou seja, querem o que um ex-chefe de sucursal do LAT denomina, engravatado, a ‘voz institucional’. Ou seja ainda, querem saber o que o jornal que lêem pensa disso ou daquilo. Clara e inequivocamente. Também por isso pagam por ele. Este leitor assina embaixo.


Dito de outro modo, essa história de oferecer editoriais à copidescagem online do leitor é democratismo. Democracia é o leitor ter o mais amplo espaço concebível no jornal ou revista para cobrir de pétalas ou de pauladas os seus editoriais.


É também abrir e manter bem abertos espaços substanciais para colaborações que reflitam toda a gama de posições existentes a respeito de assuntos de interesse público.


Melhor do que brincar de co-produção de opiniões seria convidar os leitores a escrever na edição eletrônica, onde o que não falta é espaço, os editoriais que eles gostariam de ver publicados sobre temas em relação aos quais o jornal já se manifestou ou não.


Nesse último caso, especialmente, haveria um ganho em tese palpável porque a quantidade de assuntos a merecer editoriais é maior do que a página onde poderiam ter aparecido.


O Globo já faz isso na sua versão impressa. Freqüentemente, sob o editorial que traz o chapéu ‘Nossa opinião’, aparece ‘Outra opinião’, devidamente assinada.


É verdade que o chamado leitor comum lê menos editoriais do que reportagens ou artigos assinados. Eles lhe parecem esnobes, auto-indulgentes, cheios de forçada gravitas e deitadores de regras. Mas terceirizá-los é um falso remédio para esses males em muitos casos verdadeiros.


Ponham-se textos compactos, convidativos e desengomados a carregar as questões não raro pesadas sobre as quais o jornal tem o dever de se pronunciar – porque isso faz parte da mercadoria pelo qual o comprador pagou – e a propaganda boca a boca ressuscitará o interesse dos leitores mais velhos e suscitará o dos mais jovens pela página editorial.


E não se perca de vista que um editorial pode – deve – suplementar o que geralmente as reportagens não fazem, ou por aderir estritamente aos fatos, nada mais do que aos fatos (embora não a todos os fatos), ou por falta de calibre de quem os apura: contexto e perspectiva.


Porque editorial bom é aquele que traz em boas palavras uma posição bem fundamentada, o que depende de um exame mais substantivo do que adjetivo do entorno dos fatos.


Respeito à Constituição


De qualquer forma, o problema dos editoriais na imprensa americana (e de outros países) e na brasileira (e de outros países) é diversos. Em lugares como os Estados Unidos, se não todos, ao menos uma parcela dos jornais mais importantes tendem a transmitir opiniões incomparavelmente mais independentes daquelas dos seus donos do que em lugares como o Brasil.


O editorial board de um New York Times, a sua editoria de editoriais (cujos integrantes aparecem com nome, sobrenome, foto e currículo na edição online), tem em relação a Mister Sulszberger uma latitude que não passaria pela cabeça de um patrão brasileiro dar a seus editorialistas.


Simplificadamente, o sistema funciona assim: espera-se dos proprietários ou mentores do jornal que tenham convicções claras e firmes, além de amplas e gerais (parece o Kinsley escrevendo), como as provisões de uma Constituição enxuta; os editorialistas, cujo chefe é escolhido pelo diretor de redação em comum acordo com o publisher, obviamente conhecem o credo da casa, mas decidem eles mesmos com o editorialista-chefe, na reunião diária de pauta, o que dará editorial e qual será a sua linha.


Basta que ela respeite a Constituição do patrão e que, edição após edição, a página mantenha a sua coerência.


Quando esse esquema roda sem interferências do alto, o leitor se depara dia-a-dia com opiniões que são, sim, do jornal – mas não são necessariamente a imagem espelhada das opiniões pessoais de quem paga os que as põem em letra de forma.


Mal e mal, uma barreira


Ao menos em termos ideais, existem três barreiras em um jornal: entre a Igreja (o editorial, tudo que não é reclame) e o Estado (o comercial); entre a página editorial e o noticiário – o Wall Street Journal, por exemplo, tem editoriais perto dos quais Bush parece um esquerdista e reportagens que deixam a Casa Branca vermelha de raiva; e entre os interesses da empresa e a página editorial.


Vai sem dizer que a solidez de cada uma e de todas essas barreiras varia enormemente conforme uma infinidade de fatores. Mas no Brasil mal e mal existe apenas a primeira. A linha editorial da casa não só tem a cara do dono, mas transborda de modo menos ou mais sutil para o que sai (e de que maneira) nas outras páginas e para o que deixa de sair nelas.


Eis por que jornalistas brasileiros têm muito chão a percorrer para que os leitores recebam editoriais que reflitam antes as ponderações bem-informadas de uma equipe de profissionais com redação própria, como se diz, do que as idiossincrasias do patrão, independentemente da afinidade entre as idéias de uns e do outro.


Enquanto não se chegar lá, editoriais interativos continuarão parecendo aqui coisa de marciano – mesmo quando o seu objetivo for aumentar a parceria com o leitor e não só o faturamento publicitário da edição online de um jornal.


[Texto fechado às 17h45 de 20/6]

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