Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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SAíDAS PARA A MíDIA > O PAPEL DO JORNAL

Que futuro há para os jornais impressos?

Por Nilson Lage em 22/02/2005 na edição 317

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(conclusão)

Comentaristas e palpiteiros

Conservadores ou liberais, os empresários que comandam os grandes jornais brasileiros partilharam alguns traços interessantes. Todos apoiaram a livre empresa, o Estado mínimo e as demais fantasias do discurso neoliberal associado à democratização da década de 1980. Tornaram, assim, objeto de fé o discurso que seus veículos foram levados a veicular. Decorreram dessa adesão incondicional:

** O endividamento em dólares das empresas, quando a moeda nacional, o real, estava supervalorizada. Parte desses recursos foi aplicada em equipamentos que logo se tornariam obsoletos. É o caso da instalação, pelo Sistema Globo, em São Paulo, de uma central de telejornalismo de 150 milhões de dólares que a digitalização da imagem e a edição não linear tornaram tecnologicamente obsoleta em poucos meses;

** O envolvimento com a estranha tese de que a propriedade dos canais, e não os conteúdos, asseguraria o êxito futuro dos empreendimentos. Essa crença levou à participação minoritária em companhias telefônicas então privatizadas, o que contribuiu muito para silenciar as redações quanto a vícios evidentes no processo de privatização;

** O esforço concentrado para convencer diretores de redação a pensar não como jornalistas, mas como gerentes ou homens de marketing, assumindo uma teoria básica que trata do produto ‘jornal’ como se fosse o produto ‘físico atlético’. Como se sabe, o culto da forma física ajuda a vender tênis caros, camisetas de malha, bermudas de tecido sintético, engenhocas de academias etc; pessoas que caminham descalças na praia ou fazem exercício cuidando do jardim não interessam ao anunciante-financiador;

** A terceirização das redações, promovendo a transformação de alguns dos mais bem relacionados jornalistas e escritores do país em ‘provedores de conteúdo’, que alimentam veículos de diferentes cidades e eventualmente inserem seu próprio merchandising nos textos;

** A base da cobertura, internacional, nacional e, se possível, regional, em ‘agências’, isto é, na cópia das matérias de jornais metropolitanos ou em telegramas que expressam interesses de países centrais;

** Sendo a folha de pagamento o único item efetivamente elástico da planilha de custos, o recurso a cortes, embora isso signifique mobilidade excessiva, perda do espírito de equipe, imposição de competitividade perversa e restrição do sempre adequado convívio de profissionais veteranos e iniciantes.

Nos últimos anos, pressionados pela superação evidente do modelo noticioso tradicional, os jornais multiplicam seus colunistas, sejam exclusivos ou partilhados com outras praças. Nos grandes jornais brasileiros, eles se contam às dezenas. Essa política tem várias faces: primeiro, é conservadora, uma vez que extrai credibilidade de quem já a tem, e não cria novos personagens confiáveis; em segundo lugar, mistura o consistente e o inconsistente, o que é má literatura e o que é informação da melhor qualidade. A escolha dos colunistas compõe comumente a diversidade temática e o interesse de grupos; ora premia a qualidade, ora reverencia máfias de compadrio.

Percorrendo esses espaços privilegiados, encontra-se de tudo: desde o ‘trabalho informal’ de redações terceirizadas até especialistas em vinhos, perfumes, computadores ou cidades-satélites; gente que fala de sua própria vida, exalta o passado da família ou faz fuxico da vida alheia. Há opiniões abalizadas e lixo que beira a calúnia. Alguns escrevem por si mesmos; outros são porta-vozes de políticos ou partidos, associações de empresas ou setores da economia, segmentos ideológicos, religiões e até frações do crime organizado.

Vários jornais parecem utilizar o loteamento de espaço para assegurar trânsito em diferentes áreas de influência na sociedade, como se estivessem fazendo donativos para uma campanha eleitoral com base na probabilidade de vitória de cada um dos candidatos: uma pequena coluna ‘progressista’ pode, assim, fazer um veículo levar sua mensagem dominantemente ‘conservadora’ a leitores de outra forma hostis. É algo similar ao que Roland Bhartes chama de ‘vacina’ [Barthes, 1993].

Os pontos fracos do negócio

No meio a remendos como esse – distribuir releases e coberturas rotineiras entre boxes com colunistas consagrados, e raras reportagens ‘especiais’ exclusivas –, alguns aspectos da questão não devem ter sido considerados pelas empresas jornalísticas com a relevância que têm:

(a) a indústria dos jornais é cara, por definição, dado o custo da base em que imprime seu conteúdo e os encargos de transporte;

(b) mesmo a concorrência com magazines é problemática, porque estes dispõem de tempo maior de exposição em banca, possibilidade de reposição e remanejamento na distribuição e não estão obrigados a dar conta de todos os eventos talvez relevantes para seu grupo de leitores;

(c) quando se trata de relatar diretamente os fatos, a competição com o rádio restringe o conteúdo inédito; com a televisão, mais ainda; com a internet, é impossível, salvo para matérias exclusivas;

(d) a luta pela exclusividade pode custar caro quando o jornal abriga denúncias encaminhadas por advogados ou procuradores, sem condições para confirmar a autenticidade e veracidade do conteúdo, a consistência dos indícios – isto é, antecipa-se a uma sentença judicial de conteúdo imprevisível. Com toda certeza – pelo menos, onde e quando funcionar a Justiça – , o resultado será uma ação indenizatória;

(e) cobrar pelos serviços na web não se tem provado boa solução, uma vez que sempre será possível copiar a informação. O direito autoral protege a forma, não o conteúdo, e a citação é universalmente admitida.

Estarão, assim, os jornais impressos destinados à desaparição? Não necessariamente, mas será preciso modificar alguns de seus mais caros dogmas.

O que é e o que tem que ser

Como escreve o veterano jornalista e professor australiano Keith Windschuttle [Bren (org), 1998, p. 17]:

Há pelo menos três características do jornalismo que todo programa educacional na área deve assumir. Primeiro, o jornalismo incumbe-se de investigar a verdade sobre o que ocorre no mundo. (…) O jornalismo, em outras palavras, sustenta uma visão realista do mundo e sua metodologia é empírica. Segundo, a principal obrigação ética dos jornalistas é com seus leitores, ouvintes ou espectadores. Os jornalistas escrevem não para agradar patrões ou anunciantes, para servir ao Estado ou apoiar alguma causa, mas para informar a sua audiência. (…) Terceiro, os jornalistas têm que se obrigar a escrever bem. Isto significa que o texto deve ser claro e a gramática correta. Em nossa sociedade, repórteres e subeditores estão na linha de frente das trincheiras em que se luta pela clareza e precisão do estilo.

Dirão os totalmente céticos e os nem tanto que uma postura como essa não é realista, embora o jornalismo deva ser. O mundo contemporâneo condenou à morte muitos jornais tradicionais e com boa tiragem por erros de gestão ou por não atenderem ao modelo empresarial ditado pelos publicitários: por exemplo, ter número adequado de leitores jovens, mais fáceis de atrair para o consumo do que os mais velhos, com a experiência do elevado custo da mentira contida nos anúncios e promoções.

Jacques Wainberg [Mouilland & Porto (orgs.) , 2002, pp .387-410], em artigo sobre o fim de carreira do tradicional Correio do Povo, de Porto Alegre, em 1984, lembra o fechamento, em 1982, do Philadelfia Daily Bulletin, fundado em 1847 e que vendia 400 mil exemplares diários; em 1981, do Washington Star, jornal com 120 anos de história e que vendia cerca de 300 mil exemplares; e, em 1978, do Chicago Daily News, com 102 anos de tradição, detentor de 15 prêmios Pulitzer de Jornalismo e com mais de 300 mil exemplares de venda diários.

Comentando a crise dos jornais italianos, Caterina Lenzi [Problemi dell’Infoirmazione, nº 1, março 1999, pp.79-91] aponta quatro razões principais: a queda de tiragem; o custo da tecnologia, do papel do transporte e mão-de-obra; e a absorção da maior parte das verbas publicitárias pela televisão. Mas destaca como fator decisivo o desinteresse dos anunciantes pelo número de exemplares vendidos; o que passou a importar para eles é o número e a condição (social, econômica, etária, sexo e grau de instrução) dos leitores.

Mas, o que é, efetivamente, realismo? A aceitação passiva de uma realidade imposta arbitrariamente ou a disposição de enfrentá-la ou contorná-la mediante a negociação adequada, com o horizonte do que é possível e deve ser feito? A questão se coloca de maneira similar para os cientistas. Ouvidos numa pesquisa por Maria das Graças Targino, Roberta Targino Pinto Correia e Cristiane Portela de Carvalho [Duarte & Barros (orgs.), 2003], a maioria dos pesquisadores da Embrapa Meio-Norte manifestou sua crença de que sua atividade pressupõe a disposição de compartilhar conhecimentos, o desapego material e o ceticismo sistemático. Das quatro condições propostas em 1950 como típicas do procedimento científico, apenas a universalidade encontrou restrições, dada a óbvia interferência de grupos de opinião, países e hierarquias; a maioria concorda, no entanto, que não há fonte privilegiada de saber.

Nem por entenderem assim os cientistas da Embrapa são idealistas sonhadores. Pelo contrário: lidam com objetos e objetivos concretos e constituem um grupo brilhante e motivado. Não o seriam, certamente, se subjugados àquele tipo de crítica que destaca o egoísmo, a ambição e a arrogância como inevitáveis prendas acadêmicas.

A questão editorial

A técnica baseada na antecedência do fato mais importante de uma série ou no conjunto de fatos mais importante de um evento não deve ser abandonada. Apenas não tem sentido ao jornal do dia n+1 noticiar aquilo que foi assunto do rádio, da televisão, da internet no dia n – nem mesmo apelando para inferências tais como ‘tragédia em Nova York’, ‘policia causa revolta no morro’, ou ‘constituição iraquiana é para inglês ver’. Isso também os outros veículos podem fazer – e fazem.

A primeira indicação que se pode dar aos jornais diários é que privilegiem reportagens, de preferência concebidas e realizadas por iniciativa da redação – o que garante não apenas exclusividade mas a criação de um estilo. Para isso, é preciso abandonar velhas suposições: por exemplo, que o leitor médio não lê mais que uma lauda e meia ou duas laudas de matéria sobre cada assunto, na mesma edição. Esse leitor o jornal perderá, inevitavelmente para a internet ou a TV interativa; resta-lhe explorar o público seleto criado pela difusão rápida – explosiva, ainda que deficiente – do ensino superior e da formação pós-graduada.

O jornalismo impresso, mantidas essas variáveis, tende a destinar-se, no futuro, cada vez mais ao público ‘leitor de livros’, que busca aprofundar-se nos assuntos de atualidade, analisá-los de diferentes ângulos, de modo a extrair conclusões universais e úteis para sua orientação. Trata-se de segmento importante, composto de gestores e controladores de sistemas, estudantes e profissionais com grande capacidade de formar opinião.

A reportagem de jornal diário deve ser algo que acrescente ao que o leitor – supostamente alguém preocupado com informar-se, ou não compraria jornal – já sabe. Há três possibilidades, a última das quais dependente de hábil gestão de conteúdos:

(1) o ensaio jornalístico fundado no conhecimento dos contextos em que os eventos ocorrem;

(2) o levantamento de temas a partir de perguntas inovadoras, resultantes do tratamento de dados;

(3) a linha editorial criativa, que incorpore aspirações difusas, de que o público sequer, talvez, tem consciência.

Não que se deva, no primeiro caso, contratar sociólogos, historiadores ou físicos teóricos para escrever as matérias; o texto jornalístico é transdisciplinar ou transversal – parte da singularidade do fato para abordá-lo de todos os ângulos de interesse para o público. Nem que escreva em estilo empolado: o bom texto noticioso, como a boa diagramação, é aquele que dá acesso imediato ao conteúdo, isto é, não chama a atenção para si mesmo – e nisso se diferencia da literatura e das artes plásticas em si. Trata-se de ouvir fontes secundárias, construir versões consistentes e analisar cada problema de perspectivas distintas. Isso se faz melhor a partir de bancos de dados que vão se enriquecendo progressivamente e ‘fechando’ estruturas de conhecimento – e só com suporte tecnológico é viável na imprensa diária.

Tomemos os transgênicos. Podem aumentar a produtividade nas lavouras; reduzir o consumo de adubo, inseticidas, fungicidas (o nome ‘agrotóxico’ é, em si, ideológico); permitir que o agricultor lucre e o consumidor tenha preços mais baixos. Por outro lado, quando apropriados por empresas, com base em patentes, podem submeter o produtor ao jugo do capital associado à posse da tecnologia; tornar obsoleta a pequena propriedade, incapaz de beneficiar-se com os cultivares modificados; afetar o equilíbrio ecológico, quer extinguindo espécies quer provocando mutações perigosas. Está também em jogo o controle sobre a capacidade de produção agropecuária e florestal de países ou regiões.

Considerar o conjunto desses fatores, compará-los e medir sua relevância não é função de agrônomos, de biólogos ou fazendeiros. Tem viés de filosofia e ciência política – mas é, na essência, a partir de casos específicos [a singularidade dos eventos é sempre o ponto de partida em jornalismo (Genro Filho, 1987)], o melhor jornalismo.

No segundo caso, a integração com sistemas de informação, técnicas estatísticas e tecnologias da informática permite desvendar aspectos desconhecidos da realidade. Cuida-se, aí, não apenas de armazenar, mas de combinar ou ‘cruzar’ dados, extraindo hipóteses consistentes sobre criminalidade, produtividade, política internacional, tendências da moda, desempenhos desportivos, perspectivas na escolha de carreiras profissionais, corrupção ou qualquer outro assunto. Perguntas formuladas a partir daí permitirão obter opiniões menos padronizadas e porão à mostra contradições antes ocultas.

Com a internet, vai-se mais longe com o questionamento. Por que não ouvir pessoas de outras cidades, estados ou países sobre temas de interesse comum? Por exemplo, o que, em matéria de ciência, está faltando no ensino básico, aqui e em diferentes partes do mundo? Homossexuais espalhafatosos – barbies – desfilam nas passeatas, mas quantos, mantendo discreta sua vida privada, formam a ‘maioria silenciosa’ do mundo gay, em diferentes culturas? Quanto e por que encolhe a população dos países industrializados? Qual a expectativa de vida dos bebês que estão nascendo agora?

Nunca como antes foi atual a legenda do epicurismo: o mundo é a cidade dos homens. Ou, como escreveu MacLuhan [McLuhan, 1994, p. 93]:

Três mil anos após uma explosão produzida pelas tecnologias, mecânicas e fragmentárias, o mundo ocidental implode. Durante a era mecânica, prolongamos nossos corpos no espaço. Hoje, após mais de um século de tecnologia de eletricidade, é nosso sistema nervoso central mesmo que lançamos como uma rede sobre o conjunto do globo, abolindo assim o espaço e o tempo, pelo menos no que concerne a nosso planeta. Aproximamo-nos rapidamente da fase final dos prolongamentos do homem: a simulação tecnológica da consciência.

As técnicas do jornalismo de precisão [Meyer, 1991; o jornalismo de precisão pode ser grosseiramente descrito como aquele que valoriza a pesquisa na preparação e edição de matérias e nela utiliza recursos estatísticos de processamento em planilhas de cálculo e bancos de dados] podem ser utilizadas em qualquer veículo, mas parecem feitas mesmo para os impressos. Quantas pessoas estão envolvidas, hoje, no carnaval carioca? O que ele significa, em termos de investimento econômico? Será que realmente o desfile e os bailes em geral têm o sentido erótico-pornográfico que os religiosos conservadores, os não-foliões (ou os foliões eventuais) lhe atribuem? Tudo isso, que antes se respondia com palpites ou intuições, pode ser agora medido com base em números e dados. E muita coisa hoje acessível apenas de modo fragmentado, em diferentes jargões acadêmicos, pode e deve chegar, inteligível e articulada, ao público dos futuros jornais diários.

Mas será preciso que os jornalistas aprendam a manusear pacotes de dados, por assunto recorrente ou editoria; a compará-los; aprimorem-se e se atualizem para ‘traduzir’ melhor linguagens técnicas ou desmontar meras escamoteações lingüísticas (como chamar de ‘internacional’ ao que é estrangeiro, de ‘moderado’ ao pusilânime, de ‘polêmicos’ aos temas inconvenientes etc.); a ter informações antes de formular perguntas; e a indagar em universos que não os propostos por marqueteiros e políticos.

O jornalismo tem forte tendência metonímica: toma a parte pelo todo, o geral. Assim, o caso Dreyfus [relatado, por exemplo, em (http://www.wfu.edu/~sinclair/dreyfus.htm)] denunciou o anti-semitismo na Europa do fin de siècle; a carreira do deputado e cacique xavante Mário Juruna [biografia, por exemplo, em (http://www.guardian.co.uk/print/0,3858,4474935-103684,00.html)] (aquele que gravava a fala dos políticos para provar que mentiam) evidenciou o choque cultural vivido pelos índios brasileiros; e o episódio da publicação de extensa matéria no New York Times sobre o suposto alcoolismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva [em 9/5/2004] suscitou reflexões sobre a ética no jornalismo, a liberdade de informar e o nível real das tensões entre Brasil e Estados Unidos. Desde os primeiros estudos sobre os meios de comunicação se sabe que muitos universos particulares se integram nos episódios que atraem a atenção dos leitores.

Onde há uma crença aceita pelo senso comum, esse jornalismo encontrará espaço: será a criminalidade percentualmente mais significativa entre os pobres ou na ‘classe média’, o que quer que isso seja? Por que as escolas públicas do ensino básico são consideradas piores e as escolas públicas superiores melhores que as do ensino privado – e até que ponto isso corresponde à realidade? Os bancos têm razão quando justificam o spread dos empréstimos alegando inadimplência dos devedores e, se essa inadimplência existe, a culpa é dos próprios bancos ou da evolução da economia? Que rotas realmente seguir, com o mínimo de segurança, se se quer mostrar, numa reportagem investigativa, o grau de envolvimento de bandos criminosos com um governo estadual?

Tomar atitudes – com todos os seus riscos – é outra heresia que ganha sentido. Não atitudes partidárias, ideológicas ou ‘para construir imagem’ (as universalmente simpáticas), nem aquelas que constam dos editoriais, que mal escondem os interesses do sistema econômico em que a empresa está inserida. Nada que se pareça com o exercício da retórica, que cabe magnificamente em parlamentos, féretros e tribunais do júri. Atitudes consistentes, equilibradas e fundamentadas, abertas sempre ao contraditório, quer se trate de problemas da comunidade, do país ou questões de comportamento, como orientação dos filhos ou cuidados na velhice.

Em lugar de servir como instrumento para a promoção de escândalos (que, repetidos, mais facilmente levam ao conformismo do que à revolta), exposição honesta do jogo de interesses e motivações que se esconde por detrás de cada problema. Há traços comuns entre um psicólogo do campo de concentração de Guantánamo [mantido pelos americanos para supostos terroristas islâmicos] e um investigador que submete ao ‘telefone’ [tortura que consiste em tapas simultâneos dados nos dois ouvidos] o preso de uma delegacia de subúrbio? Que tipo de satisfação teve (ou não) a jovem soldado sorridente quando puxou pela coleira o homem deitado no chão, no presídio de Bagdá? Cabe alegar que cumpria ordens superiores? E por que esse argumento não foi aceito em Nurenberg [no pós-Segunda Guerra Mundial, o julgamento de líderes nazistas]?

É preciso levar em conta que textos jornalísticos destinam-se a ter papel social. Escrevem Stuart Hall e outros (apud Traquina 2004) [Traquina, 2004, p. 171 (o texto mencionado de Hall está em Hall, S.; Critcher, C; Jefferson, T.; Clarke, J..;Reports, B. Policing the crisis: mugging, the State, and Law and Order. Londres, Methuen; Nova York, Holmes & Meier, 1993, p. 226.)]:

As coisas são noticiáveis porque representam a volubilidade, a imprevisibilidade e a natureza conflitiva do mundo. Mas não se deve permitir que tais acontecimentos permaneçam no limbo do ‘aleatório’ – devem ser trazidos aos horizontes do ‘significativo’. Esse trazer de acontecimentos ao campo dos significados quer dizer, na essência, reportar acontecimentos invulgares e inesperados para os ‘mapas de significado’ que já constituem a base de nosso conhecimento cultural, no qual o mundo social está traçado. A identificação social, classificação e contextualização de acontecimentos noticiosos em termos destes quadros de referência de fundo constitui o processo fundamental através do qual os media tornam o mundo a que se reportam inteligível a leitores e espectadores.

E há ainda notícias que, por contestar direta e inequivocamente essa representação já traçada, só o jornal pode publicar, seja porque tem público mais seleto, seja porque ainda empresta ao que publica credibilidade que nem sempre se encontra, por exemplo, na internet, seja ainda porque é mais tipicamente incluído no tradicional discurso da ‘liberdade de imprensa’.

Existe o profissional que fará tudo isso? Provavelmente não. É bom começarmos a inventá-lo.

Gestão e planejamento

Será necessário grande avanço técnico para se distribuir a informação por elementos de imagem, infográficos, tabelas, boxes (contendo, por exemplo, entrevistas ou biografia dos envolvidos) e recorrer a recursos expressivos mais recentes – como a possibilidade de remeter o leitor mais interessado no assunto a documentos, gravações sonoras ou de vídeo disponíveis na internet, acessíveis no ou através do próprio portal do veículo. Não exclui a alegria, a antítese, a ironia, o fait divers.

Para manter a simplicidade, o texto terá que ser refinado muito mais do que hoje, recorrendo a comparações e metáforas, e integrar-se melhor com projetos gráficos mais maleáveis. A informação diária não destacada poderá ser omitida, reduzir-se ou concentrar-se em registros por segmento temático.

A confecção de um jornal com esse perfil exigirá muita agilidade editorial, de vez que, por mais que se planeje, não há controle absoluto sobre os temas ou episódios que, em dado momento, despertarão interesse de uma comunidade. Rapidez na informação paralela ou no aprofundamento da interpretação de algo inesperado é possível, mas envolve articulação dos recursos disponíveis, bem como a manutenção de acervos de dados atualizados em muitos campos.

Qualquer publisher com alguma imaginação deve ter imaginado que, em alguma data, talvez distante, jornais e revistas, além de livros, trafegarão pela internet – numa primeira etapa, talvez, para impressão em diferentes cidades, bairros ou bancas.

O obstáculo à realização desse salto é, hoje, mais cultural e político do que tecnológico. Tem que ver com o oligopólio das impressoras de pequeno e médio porte – acostumado à venda casada de cartuchos de tinta e tonners; mas esbarra, principalmente, em hábitos seculares e em estruturas de distribuição consolidadas, embora ineficientes quando se considera, por exemplo, a colocação capilar de exemplares em áreas onde os consumidores estão dispersos.

Quanto ao mais, existem recursos para fornecer o produto em enlaces protegidos, impedir a utilização dupla dos arquivos, imprimir em ambos os lados do papel com excelente qualidade, efetuar a cobrança pela internet etc. A informação ganhará durabilidade – os números antigos já podem ser facilmente acessados – e, assim, estará sujeita ao teste do futuro histórico.

Enquanto tais mudanças não ocorrem, integrar-se com a internet é fundamental para expandir a imagem do veículo e aumentar o volume de serviços prestados. Especialistas em sistemas de informação não teriam qualquer dificuldade em construir thesaurus através dos quais fosse possível navegar em anúncios classificados, selecionando, por exemplo, imóveis por bairro, preço, natureza, dimensão ou mesmo partindo da descrição de um modelo concebido pelo cliente. É impressionante que isso ainda não tenha sido feito de maneira sistemática e competente – e que esse novo produto não tenha sido incorporado pelos diários que tradicionalmente publicam esse tipo de material.

O que se escreveu para classificados subsiste para grande número de informações – sobre bolsas de mercadorias e modas, conversão de valores, concursos públicos, vestibulares, programas de entretenimento, receitas culinárias, preços no varejo etc. Não apenas o que aconteceu, mas a evolução no tempo, gráficos e tabelas comandadas pelo eventual leitor. A partir do dia-a-dia, informação durável.

Em suma: se não há como vencer um concorrente, a solução é juntar-se a ele, e tirar o melhor proveito. E aí retornamos ao ponto inicial: o produto à venda não é papel nem tinta – é informação. Quanto mais atraente e eficaz a embalagem, melhor para a indústria e o cliente, seja ele leitor ou anunciante. Mas para combinar prestígio, venda e durabilidade, a questão central é o diferencial de conteúdo.

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Jornalista, professor titular do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

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