Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

SAíDAS PARA A MíDIA > TSUNAMI TECNOLÓGICO

Receitas para salvar os jornais

Por Carlos Castilho em 02/01/2006 na edição 362

Pelo menos cinco importantes pesquisadores americanos trocaram, no fim do ano que passou, os tradicionais balanços por conselhos sobre como achar uma saída para a crise na qual a imprensa mergulhou em conseqüência das mudanças provocadas pela internet no cardápio dos consumidores de informação.


A preocupação em buscar soluções dá bem uma amostra de como o problema dos jornais está deixando de ser uma questão tratada a portas fechadas para entrar na agenda da própria mídia. Trata-se de uma importante mudança de percepções da crise e um sintoma de como os grandes impérios da comunicação não estão tendo outra alternativa senão abandonar a auto-suficiência e a arrogância.


O primeiro grande estudo sobre o futuro da imprensa a ser divulgado no fim de 2005, nos Estados Unidos, foi o artigo dos pesquisadores Shayne Bowman e Chris Willis publicado na prestigiada revista Nieman Reports (ainda não disponível em versão web), no qual os dois afirmam que os grandes grupos jornalísticos americanos estão pagando caro por terem menosprezado o surgimento da internet.


O que está disponível online é uma versão condensada publicada pelo site Hypergene. Bowman e Willis afirmam que, no passado, os barões da imprensa americana souberam enfrentar os desafios de novas tecnologias como o telégrafo, o rádio e a televisão, usando-os em benefício próprio. Mas sua arrogância e auto-suficiência teria sido a causa determinante da pouca atenção dada à internet ao não procurarem entender as mudanças sociais que ela está provocando no público consumidor de informações.


Visão apocalíptica


Steve Yelvington, um especialista em estratégias de comunicação jornalística produziu um texto no qual aconselha os donos de jornais a prestar atenção aos seguintes fenômenos:


1. A crescente integração entre as redações online e offline dos jornais. A separação existente até agora é um absurdo financeiro e uma irracionalidade administrativa.


2. Nas grandes cidades, os jornais locais e as edições gratuitas começa a formar a base do sistema de informação do público. Os jornais globais são cada vez mais um produto da elite.


3. A principal ferramenta de comunicação comunitária já são os sites, blogs e portais locais, porque eles funcionam como instrumento para a socialização informativa.


4. Metade do conteúdo informativo dos jornais já pode ser acessado gratuitamente pela internet.


5. As pesadas e aborrecidas páginas editorais perdem leitores para os fóruns onde as pessoas lêem opiniões de outras pessoas.


Por seu lado , Mike Hughlett, um dos principais repórteres do jornal Chicago Times, resolveu analisar com lupa a migração dos anúncios classificados para a internet. O interessante é que Hughlett evita tanto a visão apocalíptica como também as desculpas superficiais para afirmar que os jornais ainda têm lucros consideráveis com os classificados, mas se mostram lentos e pouco criativos na reação às investidas de sites como o CraigList e os projetos do Google.


Primeiros movimentos


Finalmente, Jon Fine, da revista Business Week usa de bom humor e ironia para sugerir cinco medidas que, segundo ele, poderiam salvar a maioria dos grandes jornais:


** oferecer anúncios grátis para reconquistar clientes perdidos para a internet;


** criar duas edições diferentes do mesmo jornal: uma grátis em formato tablóide para o público menos interessado em notícias; outra mais sofisticada, paga, para leitores da elite – é o que os jornais The Washington Post e Chicago Tribune já estão fazendo;


** reorganização implacável das rotinas de redação, como por exemplo: acabar com a publicação do movimento nas bolsas de valores (a web é muito mais rápida e eficiente), eliminar as edições de fim de semana quando o custo benefício for desfavorável à empresa, ou usar blogueiros ou free lancers para coberturas distantes e caras;


** a cobertura local está atraindo cada vez mais leitores;


** usar os leitores para obter informação, para desenvolver laços comunitários e para obter anúncios. Há centenas de pessoas dispostas a funcionar como repórteres amadores a custo quase zero, desde que sejam reconhecidas como parceiros pelos jornais.


A lista de receitas poderia ser maior ainda se incluíssemos neste texto as dezenas de sugestões aparecidas em blogs sobre a mídia. São os primeiros movimentos no sentido de abrir a discussão sobre o futuro dos jornais, rompendo o monopólio que os grandes grupos mantêm sobre a caixa-preta da comunicação jornalística, na maioria dos países ocidentais. [Postado às 17h51 de 31/12/2005]

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Jornalista, editor do blog Código Aberto

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/01/2006 paulo pato

    É interessante observar que, dos meios de comunicação de massa tradicionais –jornal, rádio e televisão- apenas o jornal não está submetido às leis de concessão pública. Não que esse fato implique em liberdade irrestrita, como atesta o desenvolvimento da imprensa no Brasil, mas possibilita certa margem de manobra e “liberdade de expressão” Apesar disso, esses meios têm como característica principal, grosso modo, o discurso de mão única: nós falamos –ou escolhemos o que falar- e os senhores –consumidores- ouvem. Assim, tradicionalmente, os jornais desfrutam da condição de paladinos da justiça e liberdade, enquanto ao rádio e à tv cabe apenas a função de entreter. Mas eis que surge a Internet, mix de tv, rádio e jornal –e muitas outras coisas- de baixo custo –adeus rotativas, câmeras, equipamentos caríssimos, etc.- independente de concessão pública e, mais importante, fórum aberto onde a produção simbólica finalmente está ao alcance de literalmente qualquer Zé Mané –como eu, escrevendo este texto. As mídias e as visões tradicionais do que seja comunicação estão com os dias contados. Parece ser a vingança das rádios piratas, catecismos, fanzines e Glauberes –idéia na cuca e câmera no celular.

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