Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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SAíDAS PARA A MíDIA >

Um clique e uma revolução na notícia

Por Muniz Sodré em 18/07/2005 na edição 338

Talvez não tenham sido suficientemente registrados pelos observadores da imprensa os indícios de uma pequena ‘revolução jornalística’ manifestada no episódio dos ataques terroristas em Londres. Eles se faziam evidentes, entretanto, em sites, como o da BBC, onde, logo em seguida aos atentados, mostrou-se a impressionante imagem de um ônibus-de-dois-andares com a frente intacta, mas com as partes laterais e o teto destroçados.

O que há de novo aí? É que a imagem não foi produzida por um jornalista profissional, e sim por um amador que casualmente passava por ali com uma câmara digital. Em princípio, isto ainda seria considerado um feito antigo: há muito tempo, jornais e emissoras de televisão aproveitam eventuais flagrantes realizados por amadores. O que há mesmo de muito novo – e numa certa medida, revolucionário para o jornalismo – é o aumento desmesurado das possibilidades de se contar com imagens (fotográficas, videográficas) imprevistas pela cobertura jornalística tradicional.

Uma matéria da Associated Press sobre o fenômeno assinala que, ‘com câmaras baratas em todas as partes, incluindo-se cada vez as incorporadas aos telefones celulares, estamos vendo imagens mais dilacerantes do que nunca sobre os dramas humanos’. Do ponto de vista estritamente técnico, tudo isso implica a possibilidade de que a atividade jornalística (se a entendermos como a pura e simples produção de informação pública) possa ser virtualmente exercida por qualquer cidadão tecnologicamente incluído.

Estamos cansados de saber, porém, que a ‘revolução’ em andamento não é apenas tecnológica ou cultural. O que de fato nos inquieta é o seu alcance antropológico, na medida em que pressupõe uma vida ‘conectada’, em rede, capaz de afetar, como salienta o analista francês Paul Soriano…

‘…a nossa experiência íntima dos fundamentos da existência humana, que são o tempo, o espaço, a memória, a identidade, as instituições, a vida e aquilo que se convencionou chamar de real. A rede dilui os poderes, ao mesmo tempo em que engendra uma nova forma de poder, o poder da rede, precisamente’.

Muitas janelas, uma ética

Para quem possa pensar que este tipo de reflexão é por demais teórico, vale a pena fazer o exercício de relacioná-lo com a questão prática da credibilidade da informação produzida pelos novíssimos dispositivos tecnológicos. Já há algum tempo, os promotores do jornalismo online, e também os seus pesquisadores, vêm-se preocupando com este assunto, que reaparece com força agora no caso dos atentados em Londres, considerando-se que a BBC aproveitou, sem maiores delongas, 70 das centenas de fotos enviadas gratuitamente por amadores.

Além da enorme facilidade de produção de imagens por câmaras e telefones digitais, é cada vez maior o potencial de sua difusão pela internet, que conta hoje com serviços jornalísticos próprios e sites fotográficos de toda natureza. O problema, como bem frisa a Associated Press, está em determinar o grau de realidade de cada uma dessas imagens, isto é, de se ter certeza de que não foi digitalmente retocada para se obter um efeito de impacto.

A cultura desse ‘efeito’ termina de fato moldando a consciência dos profissionais da rede, a exemplo de Caterina Fake, co-fundadora do site Flickr, que vaticina: ‘Com a possibilidade de que tanta gente tire tantas fotos, o verdadeiro desafio será encontrar o mais notável, interessante, impressionante e comovente’.

Neste vaticínio, como se pode ver, desaparece a questão da verdade histórica do fato em favor do ‘impressionante’. No entanto, foi em torno da questão da verdade do fato que a imprensa livre pôde ser reconhecida como obra do espírito objetivo moderno e, deste modo, constituir um pano de fundo ético-político que tornaria escandaloso para a consciência liberal, em qualquer parte do mundo, o fenômeno do jornalismo sensacionalista ou tornaria condenável pela consciência moral do jornalista o falseamento ou o encobrimento da verdade factual.

A proposta deontológica do jornalismo com responsabilidade social é afinar-se eticamente (logo, com virtudes públicas) com a causa da verdade ou com ideais coletivos, tais como a visibilidade das decisões de Estado, o estabelecimento da verdade sobre questões essenciais para a coletividade, a informação isenta sobre a vida cotidiana, a livre manifestação de pensamento etc. A multiplicação dos espelhamentos da realidade aparente não nos dá, sem mais nem menos, janelas verdadeiras para a compreensão do mundo real.

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Jornalista, professor-titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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