Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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As denúncias da Folha: repórter versus edição

Por Alberto Dines em 20/05/1997 na edição 22

O trabalho de Fernando Rodrigues, repórter especial da sucursal da Folha de S.Paulo em Brasília, sobre compra de votos de deputados, remete-nos imediatamente ao trabalho precursor de Marcelo Resende para a Rede Globo sobre a corrupção na Comissão de Arbitragem da CBF.

E não apenas porque a mais recente peça publicitária do jornalão paulista apresenta-o como a “Rede Globo da imprensa” mas porque ambos os veículos utilizaram-se de um mesmo instrumento de captação de denúncias: a gravação de conversas telefônicas (Ver Circo da Notícia).

A proximidade no tempo e a similitude obrigam a uma série de comparações, já que este Observatório está comprometido apenas com os aspectos ético-técnicos (portanto sociais) da atividade jornalística. Mas como o tratamento dado ao material reporterístico teve conotações ou desvios políticos – um dos males que hoje assolam nossa imprensa – estes terão que ser registrados.



1o Comparação:

Nota Dez por apostar na investigação

Aqui compara-se a Folha com a Folha. Através de Cláudio Abramo este jornal fez em 1975 uma revolução, quando valorizou o jornalismo de opinião num momento crucial em que a imprensa estava majoritariamente comprometida com o sistema da autocensura. Como sempre, essa revolução perdeu-se no meio do caminho e o jornal converteu-se no paradigma do opinionismo e do editorialismo. Sua cruzada para derrubar Collor de Melo – e já o dissemos antes mesmo do seu desfecho – foi tocada pelo bumbo opinativo dos articulistas e editores e não pelo tarol dos repórteres e investigadores. Era o caso de uma vendeta pessoal que, felizmente para o jornal e para Veja (que a deflagrou com igual dose de afoiteza), terminou vitoriosa. Mais pelos vícios do que pelas virtudes do nosso jornalismo.

Desta vez, o jornal apostou na reportagem através de um profissional altamente qualificado que, embora também colunista, usa o seu espaço de opinião com muito mais propriedade e cuidados do que os seus parceiros de página (como já o notamos aqui inúmeras vezes, inclusive citando-o). Mesmo depois de publicada a sua série de denúncias, Fernando Rodrigues tem feito comentários objetivos e fleugmáticos, diferenciando-se do tom inflamado que, aos poucos, o jornal foi adotando a partir da edição do “day after” (quarta-feira, 14/5).



2a Comparação:

A Globo investigou antes de divulgar

E, quando divulgou, fê-lo com maestria de editing, edição.

O efeito arrasador e imediato das denúncias sobre as prevaricações praticadas por Ivens Mendes no Jornal Nacional deve-se a dois méritos:

* Trabalho anterior de Marcelo Resende procurando os interlocutores das gravações para que se defendessem das acusações (sem evidentemente minuciá-las). Esta engenharia investigativa, prévia e indispensável, para conferir legitimidade e credibilidade às acusações, tornou-as inquestionáveis e irrespondíveis. Não se levantou uma única voz, inclusive dos acusados, para dizer que não eram verdadeiras ou manipuladas.

* Uma edição esmerada com os dois lados da questão tornou a matéria clara e indubitável para os telespectadores. O resultado foi imediato e arrasador.

A Folha, embora no caso a complexidade fosse maior, afobou-se, correu, certamente temendo que a emenda da reeleição fosse aprovada em todas as instâncias, ou talvez para prevenir-se de eventuais pressões.

Puxou o gatilho e depois perguntou quem vinha lá.

Além de ouvir todos os implicados nas denúncias, era indispensável, para um jornal que obriga ao leitor ao “fique sabendo” e “entenda tudo”, que se lhe explicassem alguns detalhes metodológicos, sem evidentemente comprometer o sigilo da fonte.

Como os peritos anteciparam e o próprio repórter deixou claro na sua matéria de domingo, 18/5, há dois grupos de gravações:

* Primeiro grupo: conversas em ambiente aberto, não-telefônico – série de entrevistas com o Senhor X. Portanto, denúncias e, não, flagrantes. Têm a mesma importância moral que as acusações de Pedro Collor ao seu irmão Fernando, ambos metidos no mar de lama até o pescoço.

* Segundo grupo: gravações de conversas telefônicas entre o Senhor X e os deputados que admitiram ter sido comprados para votar na emenda da reeleição.

O leitor da Folha deveria ser informado logo no primeiro dia destes importantíssimos detalhes técnico-legais. Uma gravação telefônica tem valor legal quando feita por um dos interlocutores (Gazeta Mercantil, 14/5), o que parece ter sido o caso do segundo grupo. Já uma entrevista gravada é apenas uma entrevista gravada. São detalhes que fazem a diferença.

Uma entrevista-denúncia não pode esconder-se atrás do anonimato. A nomeação da fonte é indispensável, caso contrário perde a sua validade. A não ser que esta denúncia anônima seja acompanhada da indispensável investigação. Foi assim no Caso Watergate, quando todas as informações passadas pelo informante clandestino, o famoso Deep Throat, foram exaustivamente checadas e contrachecadas para evitar que uma fonte eventualmente suspeita e cavilosa transformasse meias-mentiras em meias-verdades.

Como não havia o outro lado (diferentemente do caso do Jornal Nacional), não houve na Folha trabalho de editing, edição. Edição não é um mero esforço estético de arrumação do material informativo, nela faz-se a referenciação e a contextualização de modo que o leitor faça o seu juízo de posse de fontes diversificadas (meta primordial do processo jornalístico).

O leitor da Folha, ao contrário do telespectador do Jornal Nacional, foi obrigado a engolir uma única versão, sem alternativas, o que tornou questionável e argüível o resultado final (e, não, o componente denunciatório trazido pelo repórter).

3a Comparação:

Serjão e o efeito Requião

Efeito Requião, justa homenagem aos procedimentos do relator da CPI dos Precatórios, passou a denominar um dos maiores subprodutos do denuncismo: converter a simples menção de um nome em suspeição imediata e, pela repetição mediática, em condenação sumária.

Os nomes que apareceram no Jornal Nacional não eram aleatórios, eram de implicados – porque assim o confirmaram as investigações preliminares (o que novamente nos leva à questão inicial). Em assuntos desta gravidade não se joga um nome no ar sem, no mínimo, haver evidências que o justifiquem.

O nome do ministro das Comunicações, Sérgio Motta, foi mencionado, en passant, de forma insegura e dúbia pelo deputado Ronivon Santiago na conversa telefônica com o Senhor X:

“Foi o Sérgio Motta, sei lá…”

Em cima desta declaração vacilante, a Folha sapecou enfaticamente no terceiro dia da sua cruzada a explosiva manchete de duas linhas: “Motta deu TV para deputado que disse ter vendido o voto”. Não foi apenas uma precipitação, conforme notou com grande coragem e senso de responsabilidade o próprio ombudsman da Folha, Mario Vitor Santos (18/5, p. 6).

Trata-se de uma distorção que invalida liminarmente, pelo menos até o momento em que estas observações estão sendo redigidas, o fulcro da questão: a participação do Executivo Federal no processo de compra de votos para a reeleição.

Chama a atenção o fato de que uma nota oficial emitida pela CNT (a rede televisiva à qual pertence a emissora acreana pretensamente envolvida na compra dos votos), na noite de quinta-feira, lida no programa do jornalista Juca Kfouri (que também é colunista contratado da Folha) e comprovando com datas que a concessão é anterior à tramitação da emenda da reeleição, não tenha merecido uma linha sequer na edição de sexta-feira do jornal denunciante.

Este é um fato que este Observador tem a obrigação de revelar, já que a leitura da nota deu-se em sua presença, quando era entrevistado por Juca Kfouri a propósito do caso. A omissão de uma informação que desmente a manchete dos dias anteriores macula este saudável esforço em prol do jornalismo investigativo agora empreendido pela Folha.

4a Comparação

Suíte é para comprovar

As matérias que o Jornal Nacional publicou nos dias e semanas seguintes às revelações de Marcelo Resende, porque haviam sido previamente desenvolvidas, tinham uma intenção: oferecer outras provas, ampliar o escopo da investigação, através dos naturais desdobramentos fechar o cerco em cima dos implicados.

A Folha optou pela velha técnica jornalística imperante nos anos 50, quando o chefe da reportagem, em seguida a alguma revelação sensacionalista, dizia ao repórter: “Vai lá fora para repercutir“.

A “repercussão” era um artifício para legitimar fora da redação uma matéria às vezes fabricada na redação. Transformava-se em enquete de rua ou entrevistas dos interessados.

Foi na “repercussão” e na continuidade da revelação inicial que a Folha excedeu-se. Primeiro, como o disse o ombudsman da Folha, no caso do ministro Motta, em seguida na manchete do quarto dia (sexta-feira, 16/5) com a inevitável pesquisa de opinião realizada por uma empresa do mesmo grupo empresarial, DataFolha (que este OBSERVATÓRIO inúmeras vezes tem questionado).

Sondagem de opinião não é instrumento de investigação jornalística, não é prova, não legitima nem valida coisa alguma. O seu uso imoderado serve tão-somente para magnificar e para criar a diabólica bola de neve mediática que, em todos quadrantes do mundo democrático, hoje está sendo posta em questão.

A pesquisa, conforme revela-se na página interna, e não logo no texto da manchete (16/5, p. 15), foi feita em um só dia, o anterior, entrevistando-se 1.080 pessoas apenas em São Paulo – onde o jornal tem uma enorme e merecida penetração. Este é o único suporte metodológico oferecido ao leitor da Folha.

Não se revelam os critérios com que foi montado o universo dos entrevistados e nem como esta foi conduzida: pessoal ou telefonicamente, com perguntas abertas ou fechadas, neste caso que perguntas foram estas que poderiam ter induzido as respostas. A informação científica mais consistente da sondagem revela que “entre os chamados formadores de opinião o presidente ainda tem seu maior reduto de apoio”. Formador de opinião pressupõe um mínimo de informação, logo significa que, a esse segmento, até aquele momento, as denúncias dos dias anteriores não haviam impressionado. Dado que deveria estar presente na primeira página, entre os outros resultados da amostragem, e lhe conferiria o mínimo de isenção.

Naquele dia, ao invés de procurar a pesquisa-panfleto, a manchete jornalisticamente correta e não-engajada seria a do domingo (18/5) e que já deveria estar no jornal – “Senhor X diz ter fitas de mais compras de votos”. Diante do intervalo de fim de semana, preferiu-se o enchimento, a “repercussão” (como a manchete de sábado “Crescem as adesões à CPI da Reeleição”).

Esquecida estava a premissa do trabalho jornalístico – a busca da verdade -, o negócio era magnificar, conferir emoção, inchar o caso pela politização, quem sabe provocar passeatas e caras pintadas. Emoção e politização são hoje, como todos reclamam, inclusive a Folha, ingredientes lamentavelmente geminados e estão levando o debate político para as raias do irracional.

5a Comparação:

Com o JT e o Estadão

A politização da suíte evidenciou os objetivos da cruzada que o editorial da 1o página no domingo (18/5) acabou por comprovar, embora com entonação solene e grave, diferente daquela usada contra Collor. Ficou claro que havia uma intenção, uma posição editorial antes da investigação.

A opinião precedeu a informação. No caso Watergate deu-se o inverso. Como no Caso dos Precatórios.

Quando o Jornal da Tarde e, depois, o Estadão começaram suas denúncias sobre a emissão irregular dos títulos públicos, não haviam adotado uma posição prévia sobre o assunto, não haviam julgado nada sobre a questão, não estavam montados num pré-conceito. Saíram à rua para investigar e deu no que deu.

O editorial de domingo revela uma discordância com o governo nos métodos para se aprovar a emenda da reeleição. E também uma certa implicância, típica dos king-makers, os fazedores de reis – Ah, não me ouviu, então toma!

A Folha recomendava o plebiscito (a fórmula evidentemente mais apropriada, resta saber se este Congresso e parlamentares como Ronivon deixariam que se lhes escapasse esta oportunidade de exercer o poder).

Como o governo não a atendeu, o castigo, a compra de votos.

6a Comparação

Fonte anônima é anônima

Ninguém pergunta ao repórter Rogério Pacheco Jordão, do JT, quem lhe forneceu as pistas para começar as suas inquirições sobre os precatórios. Marcelo Resende recebeu gravações de um interlocutor dos envolvidos no escândalo das arbitragens mas isto foi secundário. Não se faz mistério em torno desta ou destas figuras que permitiram suas revelações.

Ao tentar imitar Watergate, a Folha criou uma fonte e personalizou-a. Ao apelar para esta encenação, criou uma celeuma que acabou prejudicando a própria cruzada. Em menos de dois dias, já nas edições de quinta-feira, todos os jornais – naturalmente com exceção do denunciante – publicavam com destaque sua identidade: Narciso Mendes, político acreano ligado a Paulo Maluf.

Efetivamente, a Folha está trabalhando no assunto há cinco meses: no dia 5 de dezembro de 1996, antes da votação em plenário da Câmara (a 28/1/97) na coluna Painel está dito com todas as letras que Paulo Maluf irá denunciar que o governo vai comprar votos para passar a emenda da reeleição (informação obtida pelo observador Mauro Malin, no arquivo da Folha On-Line).

Eis o que publicou O Globo em 19/5/97, dia do fechamento desta edição do O.I.:

“Segundo o advogado [Ruy Duarte], Célia e Narciso resolveram gravar as fitas nas semanas que precederam a votação da reeleição, em dezembro, porque as empresas de Narciso, entre elas a Construtora Mendes Carlo, vinham sofrendo uma devassa fiscal da Receita [Federal]. A idéia surgiu quando Célia procurou autoridades de Governos estaduais e federal para tentar suspender as investigações.

Nas conversas, disse o advogado, Célia e Narciso teriam recebido sempre a mesma proposta para que a devassa fosse suspensa: votar a favor da reeleição. A devassa da Receita já produziu 17 inquéritos e processos judiciais contra o empresário, encaminhados pelo Ministério Público, no Acre. Foram quebrados os sigilos bancários de 37 parentes e pessoas ligadas a Narciso. (….) Narciso teria ficado ainda mais irritado ao descobrir que a Receita parara de investigar os negócios do governador Orleir Cameli e continuara a devassa nas contas da Construtora Mendes Carlos e de outras empresas de sua família. Narciso era aliado do governador e ajudou a elegê-lo, mas hoje é inimigo político de Cameli.”



Palavras Finais

Todo respeito aos jornalistas. Todo ceticismo para os jornais – são eles os beneficiários dos privilégios constitucionais de liberdade de expressão.

ADVERTÊNCIA

Como já aconteceu em outras ocasiões, estes e outros comentários do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA poderão eventualmente ser reproduzidos por outros veículos (consoante os próprios objetivos deste boletim; ver Modo de Usar). Não nos responsabilizamos pela forma ou intenção de sua divulgação.

Os Observadores

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