Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Cartoon, nem sempre às turras com os poderes

Por Mirna Queiroz de Lisboa em 05/05/1997 na edição 21

O cartoon foi o tema que juntou os brasileiros Millôr Fernandes e Chico Caruso e o português António no 3o Congresso do Jornalismo de Língua Portuguesa, em Lisboa. Conversa informal em torno de uma mesa improvisada e para uma platéia que se adensava seduzida pelo desfile de histórias inéditas que rechearam um debate bem humorado sobre a força da imagem, a censura e os critérios gráficos na imprensa moderna.

Millôr Fernandes deu o balizamento teórico da discussão. Disse que, por mais que o desenho e a fotografia tenham força, não podem dispensar a palavra. “No início era o verbo, e continua sendo”.

Chico Caruso contou que, quando chegou a O Globo, seus desenhos não tinham muito espaço no jornal. Até que um dia ganhou o alto da primeira página. Mal teve tempo para se convencer de que tal feito se devia à genialidade dos seus traços e um colega apontou-lhe a dura realidade: “Sabe por que a editora colocou a charge em tão nobre espaço? Porque não tinha porcaria nenhuma para colocar lá”.

A regra também tem sua versão portuguesa. António acreditou ingenuamente que era convidado para fazer a capa da revista do jornal semanal O Expresso porque gostavam do resultado do seu trabalho. Engano. Ele levou tempo, mas descobriu que na verdade era apenas solicitado para socorrer a edição quando um projeto fotográfico falhava.

O relato lembra a própria história do cartoon em Portugal depois da Revolução de 25 de abril. Nessa época, contou António, os cartunistas eram considerados “os homens dos bonecos” cuja função era tapar buraco. “Hoje há meia dúzia de cartunistas reconhecidos e muito bem pagos, mas na imprensa portuguesa não há diretor artístico”, lamentou o autor de polêmica charge do Papa com um preservativo no nariz.

Millôr aproveitou a deixa e, em grande estilo, fustigou. “O problema é o mesmo na imprensa brasileira. De um modo geral nossos editores não sabem distinguir um Mondrian de um Caravaggio. E a edição sai ao gosto deles, sem atender a um critério gráfico. Resultado: você tem um desenhista excepcional, como o Jaguar, que faz um desenho de 2 cm para O Dia, enquanto outros muito inferiores a ele têm destaque”.

E o cartoon ajuda a vender mais jornais? Para António, ninguém mais duvida da importância dos desenhos satíricos para a imprensa. Mas Chico Caruso mostrou-se preocupado com a falta de comprovações científicas. “Nós temos que provar que o nosso produto é altamente jornalístico e sedutor do ponto de vista do leitor, mas não tenho conhecimento de pesquisas sobre o resultado de um desenho que sai na primeira página ou em outra qualquer”, lançou.

Se a falta de critério gráfico ou de gente qualificada para editar o cartoon é hoje o principal desgosto destes artistas, em outros tempos foi a censura. E, é claro, eles não poderiam deixar de falar dessa sombra que pairou por redações de jornais e televisões. Em Moçambique, disse um jornalista que estava na platéia, “uma charge pode levar o cartunista à barra dos tribunais”.

Millôr contou que uma vez foi proibido de falar em um programa seu na televisão brasileira sobre Dona Sara, esposa do então presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961). Comentava apenas que ela tinha acabado de ganhar a Ordem do Mérito do Trabalho logo depois de passar seis meses viajando na Europa.

“O censor disse: – Você não pode ler isso no ar.

Prometi apenas ler e não fazer comentário.

– Mas você vai ler com ironia, retrucou o censor.

– Não, lerei friamente, insisti.

– Num programa do senhor terá sempre outro significado.”

Diante de tamanha truculência, Millôr decidiu pôr fim ao programa. “A imprensa reagiu indignada e JK passou a vida dizendo que isso jamais tinha acontecido”.

Censura, nunca. Noção de limites e critérios, sim. Com isso todos parecem concordar. Mas e a censura do patrão?

Seria possível imaginar uma charge do Roberto Marinho na primeira página?, perguntaram da platéia.

“Já fiz o Marinho com um exemplar do Globo na cabeça quando ele foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras”, lembrou Chico Caruso.

“Não era propriamente uma caricatura contra ele”, rebateu Millôr, para quem não há possibilidade alguma de quebrar o compromisso mínimo de “não esculhambar com os donos de jornal”. Por muito menos, a sua cabeça foi encomendada. Ter escrito tópicos na Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, sobre corrupção na imprensa, no início dos anos 60 – num curto período em que o jornal ficou sob controle de Manuel Francisco Nascimento Brito, proprietário do Jornal do Brasil -, provocou um estardalhaço que culminou com o fim da experiência e a volta do jornal para seus antigos donos. “Nem falava da corrupção daquela imprensa, em particular, mas de modo geral”.

Em Portugal, o jornal O Expresso foi o que mais criticou o seu proprietário, Francisco Pinto Balsemão, quando ele foi primeiro-ministro do país, garantiu António. Segundo o cartunista português, Balsemão teria procurado frear a ferocidade das críticas até que percebeu que a tiragem do jornal tinha aumentado. “Ele viu que perdia como político, mas ganhava como empresário”. Hoje, dono do canal de televisão SIC, que tem Roberto Marinho como sócio, Balsemão ainda colhe os benefícios da imagem de homem aberto e tolerante que soube criar na época.

No Brasil, também há quem saiba aceitar uma crítica política e até tirar partido dela. Millôr deliciou a platéia com um caso do ex-embaixador em Portugal José Aparecido de Oliveira, que estava assistindo ao debate.

A história se passou num restaurante de primeira classe no Brasil, quando José Sarney era presidente da República. Os irmãos Chico e Paulo Caruso cantavam uma música dedicada a Roseana Sarney, filha do presidente, hoje governadora do Maranhão: “Vem cá, Roseana, vem me fazer feliz, quero fazer contigo o que o teu pai fez com o país”.

Millôr contou que o embaixador levantou-se, pousou seu copo de uísque na mesa e lavrou um protesto veemente: “Não admito que mesmo amigos meus sejam tão irreverentes com o presidente da República!”

Todos silenciaram, ele então voltou a sentar-se e tomar tranqüilamente o seu scotch.

Depois dessa história, Chico fez questão de salientar que o cartoon é uma arte especialmente voltada contra o poder. E arrematou, sem perder a deixa: “Agora vamos nos despedir porque temos um coquetel com o presidente da República, Jorge Sampaio”.

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