Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Entre os padrões elevados e as concessões ao baixo nível

Por lgarcia em 20/05/1997 na edição 22

Em Chicago todo mundo conhece Carol Marin. Até 1o de maio de 1997 essa loura de 48 anos era co-âncora do principal noticiário noturno do canal 5, que disputa com o 7 a liderança do horário na região metropolitana. Naquela data despediu-se no ar dos colegas e do público, por discordar da contratação para o programa de um comentarista celebrizado pelo baixo nível.

Carol Martin trabalhou 19 anos no canal 5 de Chicago. Nos últimos 12 como âncora do programa da noite. Os aplausos dos companheiros de equipe comprovaram a admiração de todos por ela. Não era apenas uma loura bonita, com dicção impecável. Envolvia-se de fato no jornalismo, defendia padrões profissionais elevados, ganhara prêmios cobiçados.

Na despedida, Carol foi sóbria e bem comportada. Não precisou estender-se em explicações, pois não se falava em outra coisa na cidade. “Deve haver alguma coisa de errado conosco quando alguém desse nível, com esses valores, é forçado a renunciar”, desabafou no dia seguinte o editor-chefe de um canal concorrente.

Foi precisamente isso o que a própria Carol Marin também disse em rede nacional na manhã seguinte, numa entrevista ao programa Today da NBC – a mesma rede a que está filiado o canal 5 de Chicago. Foi sua primeira entrevista como âncora desempregada. Ela também informou que embora pretenda continuar na profissão, não tem ainda qualquer proposta.

O episódio que levou Carol a se demitir – apenas o pingo dágua que fez entornar o copo, segundo a explicação dela – foi a decisão do canal 5, WMAQ, de contratar como comentarista o controvertido apresentador de talk-show Jerry Springer. Para muitos jornalistas respeitados, ele é o rei do lixo na televisão americana.

Ex-prefeito de Cincinatti, Springer tornou-se centro de controvérsia pelos truques usados na ânsia de ganhar audiência para seu talk-show, veiculado por várias emissoras do país. Está acostumado a humilhar os convidados e não hesita em fazer programas com títulos como “Meu irmão é um gigolô” ou “Fui para a cama com o cachorro da minha mãe”.

A direção da emissora argumentou que, no programa jornalístico, Springer não fará o que faz no talk-show. Será diferente. Mas Carol argumentou que não saiu só por causa de Springer – ele foi apenas um sintoma a mais da situação, por simbolizar, na opinião dela, o desrespeito da emissora tanto pela equipe de profissionais qualificados como pelo próprio público.

A divergência dela é com toda a orientação imposta pelo novo diretor de jornalismo, Joel Cheatwood, contratado em fevereiro passado depois ver a própria fama consolidar-se em Miami e Boston graças ao estilo “jornalismo tablóide” – exploração de crimes, escândalos e mexericos do “showbusiness“, à maneira dos chamados “tablóides de supermercados”.

Carol Marin assegura não ser inflexível. Diz entender a necessidade de se fazer concessões ao entretenimento, em nome da audiência. Mas alega que existem fronteiras, há padrões de jornalismo e limites que não podem ser esquecidos. “A simples menção do nome Jerry Springer é uma declaração de que se pretende descer ao nível mais baixo de televisão”, observou.

A estréia de Springer foi na semana seguinte à saída dela. Carol acha que mesmo que ele faça comentários equilibrados no programa, bem diferente do seu talk-show, sua credibilidade está irremediavelmente comprometida pelo lixo que está acostumado a produzir. Sua simples presença na redação destrói a reputação de seriedade e qualidade jornalística.

Quanto a Springer, lançou sua retórica contra Carol. Ele insinua que a atitude dela resulta da mesma arrogância predominante entre os âncoras de salários milionários. “Não são jornalistas, apenas ledores de ‘teleprompter‘. E agora não se contentam com o dinheiro e o poder que têm. Querem ter ainda direito de veto sobre os empregados que a empresa contrata”.

O pior é que também existe verdade nisso. A arrogância, o poder e os salários milionários de jornalistas irritam o público. E isso reduz a simpatia pela posição de Carol, para quem a questão crítica do jornalismo, impresso ou eletrônico, é o atual conflito entre os padrões de qualidade, defendidos pelos profissionais, e as concessões ao baixo nível, exigidas pelas empresas.

No dia 8 de maio, após menos de uma semana de programa, Jerry Springer demitiu-se. É que a cidade estava em pé de guerra contra ele. Piquetes na porta da emissora, bombardeio de telefonemas e uma violenta queda de audiência – dos 14 pontos do tempo de Carol Marin para apenas 9, na última quarta-feira. Além disso, dois padres respeitados que fariam comentários na cobertura da NBC da posse do novo arcebispo de Chicago, ficaram indignados com o episódio Carol x Springer e anunciariam que, em protesto, não mais o fariam (acertaram com a concorrente, CBS). Um representante de Carol disse que ela se negou a comentar o assunto e que neste momento examina várias propostas – mas não considera a hipótese de voltar à emissora.

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