Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, voz da consciência na fronteira tecnológica

Por Mauro Malin em 05/05/1997 na edição 21

Um resumo do que se debateu na seção “Os jornalistas e os cidadãos” (1) foi apresentado assim no encerramento do Congresso:

Embora todo consumidor seja cidadão, a cidadania não se esgota no consumo. Na crise que afeta o jornalismo português, confrontam-se as lógicas informativa e comercial. A perda do poder de intervenção dos jornalistas, como categoria regida por um código de ética próprio à profissão, deve-se ao crescimento do poder das fontes de informação, à concorrência de profissionais alheios aos princípios éticos, à participação cada vez maior dos “opinion makers“, à força crescente, nos veículos, de responsáveis pelo marketing, publicitários e gestores, e à subalternização da notícia em favor do “produto midiático”. Os jornalistas devem ter consciência clara de sua função social. Não são “educadores do povo”, mas tampouco meros “técnicos da comunicação”.

Os meios regionais talvez possam superar alguns defeitos centrais do jornalismo de massas, mas a proximidade em relação à comunidade pode significar também uma série de problemas, a começar do exercício de formas de pressão às quais é difícil resistir. Ao se examinar as possibilidades de interatividade no plano regional, é preciso levar em conta o caráter pré-industrial dessa imprensa. Em Macau, trata-se da defesa da cidadania das pessoas de expressão portuguesa. Em Timor-Leste não há jornal de língua portuguesa, apenas um jornal em língua indonésia. Conservar a língua portuguesa é para os timorenses lançar um grito de sobrevivência. Propôs-se (a proposta foi aprovada por aclamação) que o 3o Congresso constituísse uma comissão de solidariedade à causa do povo de Timor-Leste.

Em um ano de atividade exclusivamente on-line, o OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA teve vinte edições, das quais 18 quinzenais, desde 5 de agosto de 1996, cerca de 13.000 acessos desde 10 de outubro de 1996, 25 colaboradores, 160 cartas recebidas e publicadas nos oito meses de periodicidade, um orçamento extremamente reduzido e inteiramente dedicado ao pagamento de remunerações. O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA funciona em regime telemático, mediante teletrabalho, e representa a voz de uma consciência crítica cada vez mais necessária no contexto político e social brasileiro. Nas últimas edições do OBSERVATÓRIO, a contribuição dos leitores alcança a média de 40% de todo o texto escrito originalmente para o veículo, diferentemente do quadro descrito em trabalho apresentado na seção: os leitores ocupam, no Jornal de Notícias e em O Público, ambos de Lisboa, entre 2% e 3% do espaço.

Da intervenção que levei por escrito para Lisboa, seleciono os seguintes trechos:

O OBSERVATÓRIO é sobretudo uma penetração crescente de sua reflexão crítica nas redações brasileiras, com reflexos às vezes transparentes, reconhecidos e comentados, às vezes não proclamados. O que lhe dá credibilidade junto a jornalistas não é o peso da autoridade, ainda que se trate de autoridade moral. É o lastro das análises acertadas que fazem seus colaboradores. Da lista de avaliações acertadas publicadas recentemente no OBSERVATÓRIO, comprovadas por fatos subseqüentes, destaco aqui, dada a relevância social do veículo, um comentário de Alberto Dines, contra a corrente, sobre a mudança para melhor do Jornal Nacional da TV Globo.

O OBSERVATÓRIO é um produto jornalístico, melhor dizendo metajornalístico, que existe exclusivamente em meio digital telemático. Em princípio, trata-se de uma séria desvantagem, porque quase todos os brasileiros recebem informações exclusivamente por meios não-digitais, ou, quando já digitais, não-telemáticos: imprensa, rádio e televisão. São pouquíssimos, portanto, os usuários de meios de comunicação que já tomaram conhecimento desse media-watcher. Ainda assim, não se trata de um “gueto” profissional: só 30% de seus leitores são jornalistas.

O fato de ter sido concebido e executado exclusivamente como veículo on-line confere ao O.I. a condição de protagonista do desbravamento de uma fronteira nova. Invocando idéias que tomaram corpo no Iluminismo do século XVIII, ele funciona de uma ponta a outra sem folhas de papel e sem ter uma “redação”. E praticamente todos os textos que o compõem são passados de um computador a outro por correio eletrônico.

A rede de redes conhecida como Internet é uma forma não hierarquizada de enlaçamento de indivíduos e grupos que transcende fronteiras territoriais, lingüísticas, religiosas, ideológicas, raciais e outras, o que me parece muito promissor, mas não pretendo nem entoar um hino às possibilidades que abre, nem acentuar seu potencial de ameaça às liberdades e à diversidade cultural.

Existe sem dúvida uma ameaça bem clara: se a Internet, que surgiu nos Estados Unidos com dinheiro público, vier a ser dominada por um punhado de empresas gigantescas, certamente teremos sérios problemas. Além disso, como sucedeu em todas as outras mudanças no mundo das comunicações, não há igualdade entre os envolvidos no processo, no início sempre uma pequena elite; quanto mais poderoso é o agente, mais capacidade tem de colocar o meio a serviço de seus interesses ou idéias. Mas supor que essa capacidade seja absoluta é fazer pouco da inteligência do chamado homem comum.

Vamos examinar a informação digitalizada, particularmente o texto digitalizado e seu uso telemático. Vamos contemplar esse território de fronteira em que opera o OBSERVATÓRIO.

É mais um instrumento daquilo que se chama de grande mídia. Dadas suas características e seus prováveis futuros desenvolvimentos (em associação, notadamente, com a transmissão de sinais de televisão), eu diria mesmo que é hoje o instrumento dos instrumentos. Sem que isto decrete nenhuma “morte” anunciada: nem a do texto impresso, nem a do áudio, nem a da imagem fixa ou em movimento. Mas sem que qualquer dos meios possa continuar existindo como dantes. Cada novo meio de comunicação que surge modifica inapelável e definitivamente os que o antecederam.

Todos sabemos que a grande mídia ocupa um lugar central na vida social contemporânea. Não é preciso insistir nisso. Mas há uma pergunta crucial que, quando chega a ser formulada, é mal respondida por precárias pesquisas de opinião: como as pessoas recebem o que lhes dirige a grande mídia?

Instintivamente, somos tentados a privilegiar o exame do que é emitido e não daquilo em que se transforma na mente de cada um à medida que é recebido. No exame da grande mídia se tende à simplificação que consiste em privilegiar o que os centros de emissão produzem e em ter como referencial, na outra ponta, uma individualidade que não variaria muito ao longo da história (e do espaço, da faixa etária, etc.). E não se faz isso por preguiça. Faz-se, do ponto de vista prático, porque é muito mais factível do que tentar entender como as informações são metabolizadas por seus destinatários (“passivos”) e usuários (“ativos”).

Entretanto, de toda a grande mídia estudada até hoje esteve ausente a interatividade na intensidade e nas modalidades ensejadas pela Internet. O que se chama de mass media é um aparato complexo em que um emissor atinge milhões de pessoas que se limitam a receber a informação e cuja única reação possível é basicamente a inação: não ler, não ouvir, não ver.

Não há a mais remota comparação possível entre a interatividade sem aspas ensejada pela Internet e a “interatividade” com aspas verificada em jornal, rádio e televisão, meios unilaterais. Na Internet, o aparato, que é um desdobramento do serviço prestado pela rede telefônica, serve igualmente para recepção e emissão. Nos outros casos citados, as vias de recepção e de resposta do leitor (telefonema, carta, telegrama) são inteiramente desiguais. Não por acaso a Internet é um meio elitizado. Tanto quanto a rede telefônica é elitizada, apesar de ter nascido há mais de 120 anos: não muito mais do que 10% dos habitantes do planeta (cerca de 600 milhões de pessoas) estão conectados a redes telefônicas.

No que diz respeito ao OBSERVATÓRIO, ou a qualquer veículo on-line que não se feche na unilateralidade da emissão, processa-se uma experiência nova de interatividade. É diferente de um chat, uma sala de conversa internáutica, ou mesmo de um grupo de discussão, casos em que o veículo limita-se a criar condições para que seus usuários debatam entre si. O que o OBSERVATÓRIO faz é estabelecer texto por texto um canal direto com seu leitor, e seu leitor é toda e qualquer pessoa que possa lê-lo, gratuitamente, na rede.

Assim como aconteceu quando os homens criaram a escrita, e depois a imprensa ( que, conjugada à alfabetização, nos trouxe ao mundo moderno (, agora também está nascendo não só uma nova cultura, mas toda uma nova maneira de pensar. Digital ou não, o texto continua a ser escrito com as mãos e lido com os olhos, mas a maneira de registrá-lo mudou de modo tão radical que o próprio ato de escrever está sofrendo grandes mudanças. E não são mudanças “meramente técnicas”. São mudanças tecnológicas e funcionais. Isto tem repercussões na maneira de pensar.

Não cabe postular a excelência do nosso modesto OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA on-line como paradigma ou sequer instrumento de novas modalidades de aferição da relação entre emissor e receptor. Mas cabe chamar a atenção para nossa inserção peculiar nesse universo que se constrói velozmente. Somos um dos relativamente raros veículos que nasceram e sempre existiram exclusivamente dentro da Internet. Embora pretendamos ter uma versão impressa, para atingir os chamados centros decisórios, ela será isto mesmo, uma versão impressa. Ao contrário da maioria dos veículos, o OBSERVATÓRIO não é uma versão on-line de um veículo impresso, ou radiofônico, ou televisivo.

Nosso custo em equipamento e material tende a zero. Na verdade, essas despesas são absorvidas pessoalmente pelos integrantes da equipe, que compraram seus computadores, usam em caráter particular linhas telefônicas e, quando necessário, provedores de acesso. E esse custo não aumentará um centavo para atingir, ao invés de dezenas de leitores por dia, como hoje, dezenas de milhares de leitores por dia, em futuro que esperamos seja breve. O que aumentará, necessariamente, será o tamanho da equipe.

De certa forma, é uma experiência que está ou estará sendo feita por todos os grandes meios de comunicação. Ao mesmo tempo, experimentamos a relação de novo tipo com os leitores. A experiência é recente demais para que dela eu me aventure a tirar conclusões. Mas estamos penetrando pioneiramente num mundo novo, conscientes de fazê-lo. Neste mundo, contraditoriamente, aumenta o poderio extraordinário de algumas vozes, mas crescem igualmente as possibilidades de expressão de uma pluralidade de vozes.

P.S. – De volta ao Brasil, li uma coluna de Artur Xexéo no Jornal do Brasil (27/4/97) em que o jornalista responde a diversas mensagens de leitores recebidas por correio eletrônico. Xexéo, como muitos outros jornalistas hoje, oferece aos leitores seu endereço eletrônico. Quando, na história da imprensa, o titular de uma coluna ou seção ofereceu aos leitores seu telefone direto? Impensável. Não conseguiria trabalhar. Mas a comunicação assíncrona (por correio eletrônico, fax ou secretária eletrônica), menos “invasora” que o telefone, como escreve acima Rogério Santos, permite essa abertura, que tende a mudar completamente a relação entre o jornalista e seus leitores.

(1) Participaram dos trabalhos: o jornalista Artur Portela Filho, da Autoridade para Comunicação Social da Prefeitura de Lisboa, presidente, a jornalista Adísia Sá, ombudsman do jornal O Povo, de Fortaleza, moderadora, Mauro Malin, relator, Fernando Correia, chefe de redação da revista Vértice, de Lisboa, João Carlos Correia, professor de Ética e Deontologia da Universidade da Beira Interior (Covilhã), José Augusto da Silva, do Jornal de Macau, Manuel Tilman, do jornal Rai Timor (Nação Timorense), sediado em Macau, Jorge Pedro Souza, professor da Universidade Fernando Pessoa, Noêmia Câmara, do Diário dos Açores, Acácio Barradas, jornalista de Lisboa, Wagner Seixas, editor do caderno Gerais do jornal O Estado de Minas, de Belo Horizonte, Vitor Gentili, professor de Jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo, e Paulo Nassar, responsáveis por Projetos Especiais do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA e secretário executivo da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje).

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