Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Riscos do monopólio

Por Mauro Malin em 05/05/1997 na edição 21

Conhecemos os efeitos negativos da hegemonia exercida pela Rede Globo de Televisão, sucessora do império dos Diários Associados, ao longo dos anos de chumbo da ditadura militar, sob censura. Nós, que vivemos o período, conhecemos, mas os mais jovens talvez não tenham uma idéia muito clara do que foi. E as gerações vindouras certamente não terão a menor idéia, ou só a terão na medida em que o assunto seja, como se dizia antigamente, ventilado. O verbo é bom: vento, ar puro bafejando peças tiradas de armários.

Com toda a reconhecida competência dos profissionais da Rede Globo, na fronteira imprecisa entre noticiário e novela – ou noticiário ensanduichado por novelas, transbordando para elas, sendo invadido por elas, como até hoje -, os pilares da hegemonia eram de natureza tecnológica/comercial. A base tecnológica foi facilitada pelo regime militar, que estendeu pelo país uma rede de telecomunicações. A vivacidade comercial ninguém precisou ensinar nem patrocinar. Mas é bom ressalvar que esse triunfo comercial não se deu no “vácuo” político e social. A Globo foi sócia do poder. E, como uma andorinha só não faz verão, hoje é sócia de Rupert Murdoch – sem ter brigado com o poder, é claro.

Luís Nassif chamou a atenção em sua coluna (Folha de S.Paulo, 2/5/97) para o fato de que, hoje, mais importante do que condenar as privatizações é avaliar atentamente os mecanismos criados para regular as atividades de que o Estado, por falta de capital ou de aptidão, está se desembaraçando.

“Tome-se o exemplo das telecomunicações [receita esperada de R$ 22 bilhões; Vale do Rio Doce, R$ 5 bilhões]. Há receio de que a nova regulação permita a consolidação de supergrupos de comunicação no país, assumindo de fato um controle oligopolístico sobre a opinião pública”, escreveu.

No mesmo dia, Elvira Lobato, no caderno principal da Folha, mostrava em reportagem que a Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, prepara-se para comprar mais nove emissoras de televisão no país. “A Universal já tem um império de comunicação com 17 emissoras de televisão e mais de 30 rádios. Para aumentá-lo, criou duas empresas para disputar as novas concessões que estão sendo oferecidas pelo governo em concorrências públicas. A Universal só perde em número de concessões próprias de TV para a Globo (18) e divide o segundo lugar com a RBS, da família Sirotsky.”

Liberdade sem equanimidade

O último legado do cientista americano Carl Sagan foi um livro que desemboca numa conclamação límpida e firme por uma luta infatigável pela liberdade de expressão e de pensamento (ver Entre aspas). Isto nos Estados Unidos!

Em plena liberdade de expressão, que é para nós, brasileiros, um direito conquistado com sofrimento, não cabe o menor relaxamento em relação a essa matéria nobre da vida social e política.

Há liberdade, mas o uso que dela se faz não é nada equânime. Isto se aplica seja aos costumes (ver artigo de Ives Gandra Martins no Entre aspas), seja à política, neste último caso porque tende a haver convergência dos meios de comunicação numa defesa acrítica do governo, ou do establishment, ou do statu quo.

Foi o que aconteceu em relação a todos os governos brasileiros recentes, até que, acidente, a base de sustentação política apodreceu a ponto de exalar um mau cheiro que nenhum dono de jornal ou revista podia ignorar. Deu no impeachment de Fernando Collor, o mesmo político que havia sido projetado no início de sua escalada, por Veja e pelo Jornal do Brasil, como “caçador de marajás”, e que mereceu de O Estado de S.Paulo, no dia de sua posse, uma capa em que se especulava com sua permanência no poder não apenas por um mandato, mas por décadas, primeiro como presidente reeleito, depois como primeiro-ministro, em regime parlamentarista. Confiram nos arquivos.

Convergência em torno do statu quo. Como aconteceu na greve geral de 21 de junho do ano passado, quando os quatro grandes jornais brasileiros se uniram na decretação de um fracasso, quando, se tivessem juízo, deveriam ter preocupação com os rumos do movimento sindical no país. Mas aí já se trata da luta de classes. Ops! Como disse? Luta de classes? Sim, sim. Foi bem isso. Mas não se espante, pacato leitor: o conceito de luta de classes é mais velho do que a Revolução Francesa e o mundo não deixou de girar desde então.

A bem da verdade, não precisamos ser tão radicais para valorizar a liberdade de expressão e a pluralidade de opiniões. Ela é necessária também para o bom andamento dos negócios.

No mesmo caderno em que se publicou a coluna de Luís Nassif, e no mesmo dia, o ex-ministro Mailson da Nóbrega deu um bom exemplo do valor da liberdade de imprensa – concebida também como pluralidade de vozes – para a higidez da vida econômica.

Mailson está convencido, como muitos outros economistas regularmente ouvidos pelos jornais – de que o Brasil corre hoje menos risco de uma crise cambial como a de 1982, que colocou o país – sob o comando econômico do Sr. Delfim Netto – de joelhos diante da finanças internacionais. “Diferimos do passado em pelo menos três aspectos”, diz Mailson: “(1) a disponibilidade e a transparência das informações; (2) a independência da mídia e (3) os mercados futuros. Curiosamente, o México [que quebrou pela primeira vez em 1982] não possuía nenhum deles. (….)

No Brasil de hoje, é praticamente impossível a manipulação estatística para mascarar problemas como o déficit público e a situação cambial. (….) A independência da mídia e de seus colunistas econômicos assegura canais permanentes para a crítica. (….) Democratizou-se o uso das informações. Criou-se um conjunto de sensores para detectar problemas nas contas externas.”

Ligações perigosas

Liberdade de imprensa é bom para uma economia mais estável e responsável, mas promiscuidade econômica de empresas jornalísticas com empresas não-jornalísticas pode não ser nada bom para a liberdade da imprensa e sua independência, como vem alertando há anos Alberto Dines (ver, nesta edição, Só liberdade de imprensa não basta).

Se a concentração da mídia em poucas mãos não é solução, é problema, o problema cresce quando empresas até recentemente puramente jornalísticas, necessitadas de oxigênio financeiro, ampliam e tornam mais complexas suas parcerias.

Aqui também é preciso ter muita atenção. O enunciado acima não dá conta do fenômeno. Está havendo na economia uma inversão de hierarquias. Tempos atrás, o “capitão de indústria” era infinitamente mais próspero do que o dono de jornal. Hoje, a “indústria da comunicação” – misturada com entretenimento – é que se torna cada vez mais um negócio importante. Não é que o dono de jornal convencional, no capitalismo, esteja tomando recursos onde eles possam estar disponíveis. Os recursos disponíveis também estão tomando os meios de comunicação. Além disso, não há mais “donos de jornais” pura e simplesmente, entre os grandes. Há muito tempo. Dos quatro mais importantes jornais brasileiros, só a Folha de S. Paulo foi, até recentemente, apenas um grupo de imprensa escrita.

Em fevereiro último, Argemiro Ferreira descreveu, em texto sobre conflito jurídico entre o supermercado Food Lion e a rede de televisão ABC, o seguinte problema:

“Reportagem de investigação é muito onerosa. Só pode ser feita pelas grandes corporações da mídia, que dispõem de recursos. Talvez elas possam adaptar-se também à nova situação, por terem os recursos. Mas cada dia estarão menos dispostas a fazer tais reportagens, dada a regra da sinergia dentro das grandes corporações. A CBS, por exemplo, é propriedade da Westinghouse. A NBC é da GE. Corporações metidas em outros negócios gigantescos, inclusive de armas, como grandes fornecedoras do Pentágono. Os interesses se misturam, como Ben Bagdikian adverte no seu O Monopólio da Mídia. Assim, só as empresas menores da mídia teriam disposição de fazer reportagens de investigação. E elas não têm recursos para tal, até porque ficará ainda mais oneroso se não puderem recorrer a certos truques.”

Voltemos ao Brasil. E restringindo o foco, falemos dos dois grandes grupos jornalísticos de São Paulo. A Agência Estado tem, entre outros negócios, um termo de compromisso com Fausto Solano Pereira, dono do Banco Boasafra, para desenvolver um sistema de Direct TV. Fausto Solano Pereira foi celebrizado no noticiário da CPI dos Precatórios como o homem que recebeu um cheque de quase 10 milhões de dólares do “senhor Renê”. Revela a sociedade com a Agência Estado, sem qualquer subterfúgio, em excelente entrevista feita por Raimundo Rodrigues Pereira para as páginas amarelas de Veja (ver o Circo da Notícia). É bom que se fale disso. Sem apriorismos malévolos, mas sem ingenuidade.

Já a Folha de S.Paulo, além de ter se lançado de cabeça na Internet, em associação com o consórcio Global One (Deutsche Telekom/France Telecom/Sprint; há informações disponíveis sobre essas empresas a partir do site do UOL) e depois com o grupo Abril, é desde março de 1996 sócia da Odebrecht, do Unibanco e da americana Air Touch num projeto de telefonia celular, a famosa Banda B (ver O dia em que entramos no Primeiro Mundo – e a nossa imprensa atolou-se na Banda B).

Nada poderia ser como antes na relação entre a Folha e a Odebrecht. Mas também aqui cumpre evitar juízos de valor precipitados. A Odebrecht realizou um notável trabalho de recuperação de sua imagem, sobretudo desde que apareceu envolvida no escândalo da CPI do Orçamento, em 1994. Em novembro de 1996, em debate na Fiesp, Márcio Polidoro, responsável por sua Comunicação Empresarial, explicou como a ditadura dispensava a empresa de dar satisfações à opinião pública e como na democracia foi preciso adotar uma concepção aberta de comunicação.

Foram anos e anos de reformulação. A providência estratégica consistiu em alugar os serviços das principais agências de notícias do país (àquela época ainda em telex) e não deixar nada sem resposta. Mais adiante, a Odebrecht começou a patrocinar iniciativas culturais relevantes, entre eles a magnífica exposição “O Brasil dos Viajantes”, realizada em 1995. Funcionou. Tanto que a empresa, que ainda em 1994 andava em péssima companhia no noticiário sobre a CPI do Orçamento, hoje tem boa imagem nas medições periódicas do que publica a imprensa a seu respeito.

Isto não obstante, constate-se, no que diz respeito à Folha de S.Paulo: em 1994, publicou reportagens em que o nome da Odebrecht aparece 244 vezes, sempre de modo negativo: escândalos, sonegação, corrupção. Em 1995, período final de negociação da sociedade na telefonia celular, 180 ocorrências, já na maior parte em noticiário no qual a imagem da empresa é positiva. Em 1996 (a sociedade foi selada em março), menos de 90 ocorrências, e imagem negativa em não mais do que 5% do total.

Os espectadores da novela advertem: pode ser mera coincidência, mas é difícil acreditar nisso.

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