Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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TAM e despreparo

Por Mauro Malin em 20/05/1997 na edição 22

O Sr. Rolim Amaro, presidente da TAM, repetiu em linhas gerais, no XII Congresso Brasileiro de Comunicação Empresarial, realizado no Senac de São Paulo nos dias 15 e 16 de maio, desabafos e insinuações contra a imprensa – e, mais pesados, contra o Sindicato dos Aeronautas – que havia feito em entrevista ao Estado de S.Paulo no dia 23 de fevereiro.

Este OBSERVATÓRIO fez à época da tragédia as críticas ao trabalho da imprensa que lhe pareceram cabíveis (ver edição de 5/11/96). Divulgou material inédito sobre tarefas antiéticas atribuídas a jornalistas durante a cobertura do acidente e seus desdobramentos.

Se a procura por lugares nos vôos da TAM já voltou aos níveis normais e as ações da empresa recuperaram o valor que tinham à época, como se sabe e ele mesmo relembrou no Senac, o homem Rolim Amaro sofreu muito, ainda sofre, e disso não faz segredo. Merece respeito. Mas escolheu uma atividade que é serviço público estritamente controlado pelo governo, em nome da sociedade, e deve – sempre e em tudo que diz respeito a tal atividade – satisfações à sociedade. Espontaneamente, ou mediante investigação jornalística.

As manifestações generalizantes de hostilidade à imprensa feitas por Rolim Amaro não podem ser aceitas sem reparos. Recapitulo aqui, com outras palavras, observações feitas no debate do Senac.

Primeiro, o desastre não foi só da TAM. Foi nosso. Abateu-se sobre todos nós, brasileiros, cidadãos, passageiros, jornalistas que tanto ajudaram a TAM a construir uma imagem de competência e simpatia, usando seus serviços ou elogiando-os. Todos nós que queremos empresas aéreas seguras, eficientes e simpáticas.

Se a TAM, como afirmou Rolim Amaro, não estava, não poderia estar e nunca estará preparada para uma desgraça de tais proporções, também a imprensa não estava preparada – o que ficou patente. E, a rigor, nunca estará. Episódios assim desbordam qualquer rotina ou planejamento profissional.

Só em situações nas quais a dor e a crueldade se tenham tornado moeda corrente – como as guerras – as pessoas aprendem a lidar fluentemente com tragédias de grandes proporções. Isto não justifica erros, não exime a imprensa da necessidade de buscar maior competência, mas coloca-a, na pior das hipóteses, em condições de igualdade com a TAM ou qualquer outra empresa, aérea ou não, responsável por uma operação que resulta em tragédia.

Há na vida social uma solidariedade objetiva – subjetiva, não, certamente – entre todos os atores. Aviação e imprensa, autoridades e cidadãos comuns. O mesmo público que não deixou de comprar passagens da TAM comprou a edição de Veja sobre a tragédia contendo fotos chocantes, edição que, segundo o comandante Amaro, foi a terceira maior tiragem da história da revista.

Quando um avião da TAM cai e mata na rota mais importante e simbólica do país, Rio-São Paulo, todos nós, brasileiros, sofremos um golpe terrível. Quando um veículo de comunicação comete um disparate ou uma irresponsabilidade, todos nós, brasileiros, inclusive Rolim Amaro, saímos perdendo e devemos nos preocupar.

Não se discute o direito do Sr. Rolim Amaro de criticar tudo aquilo que considera errado. Mas perde o poder de convencimento ao ficar mentalmente entrincheirado num refúgio. Não tem plausibilidade um sistema de valores segundo o qual a imprensa é útil na ascensão e inútil no percalço.

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