Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A nova Babel

Por Alberto Dines em 25/01/2005 na edição 313

Analistas americanos computaram no discurso de posse de George W.Bush, 49 menções à palavra freedom, ao quase-sinônimo liberty e ao adjetivo free, livre. A nuance não existe nas línguas latinas, para nós tudo é liberdade: tanto o gozo existencial de não sofrer restrições (freedom), quanto o direito político de fazer escolhas (liberty)

Enquanto os lingüistas se debruçam sobre a questão sobram outras mais concretas: no novo glossário da Casa Branca, quais serão os regimes classificados como tiranias (outra palavra abusada pela retórica da posse) – apenas a Coréia do Norte, Irã e Cuba? Como então classificar a Arábia Saudita, os emirados, o Paquistão, a Líbia, o Egito e a Síria?

O problema não se restringe à filologia política americana. Nenhum país, exceto talvez Taiwan (em manifestações informais), ousaria afirmar que a China é um regime despótico ou autocrático. Inclusive o Brasil, campeão na defesa dos direitos humanos. Ofuscados pela prosperidade chinesa, parece impossível respeitar códigos e significados tradicionais.

Verbo assustador

Nesta era iluminada pelo tráfego de informações, as palavras continuam oblíquas, obtusas e equívocas. Mesmo a badalada democracia, definida através de claros paradigmas jurídicos, apresenta-se de forma tão elástica que nela cabe até a opressiva e arbitrária Rússia.

Arafat era socialista, Hugo Chávez é social-democrata, Berlusconi é conservador Nesta galeria de mal-entendidos José Sarney pode ser chamado de liberal ou é um político que toma certas liberdades?

As definições esgarçaram-se de tal forma que hoje fica difícil completar um inocente teste de palavras-cruzadas ou atender ao simplismo dos exames de multipla-escolha. Prova desta ambigüidade é o extraordinário sucesso entre nós do Dicionário de Política, organizado por Norberto Bobbio, que apesar dos dois volumes e das 1318 páginas tirou cinco edições em uma década.

A manipulação das palavras e dos seus sentidos manifesta-se principalmente nos regimes de força. Os poderosos podem tudo, inclusive deturpar significados do código elementar da comunicação humana. Ao que consta, foi a Santa Inquisição a primeira instituição a precaver-se contra o significado da linguagem corrente através de disfarces. O verbo relaxar, por exemplo, servia para camuflar outro, assustador: executar.

Passe de mágica

A LTI, Lingua Tertii Imperii (em latim, Língua do 3º Reich), foi o nome que o lingüista-sobrevivente Victor Klemperer deu ao jargão oficial nazista, elaborada construção de eufemismos da qual a expressão ‘solução final’ é a mais diabólica. A retórica revolucionária de 1917 desaguou na farsa do stalinismo que, por sua vez, perverteu não apenas a língua russa mas também o linguajar de todos os que seguiam sua lógica de brutalidade.

A usina de deformação vocabular contemporânea não é obra exclusiva das ditaduras políticas. Estende-se pelo chamado ‘mundo livre’ e não se restringe aos ambientes impregnados pelo marketing político, como é o caso dos EUA. A convergência da política com religião que se processa em todos os quadrantes e serve-se de todos os credos completa este cenário de confusões ao sacralizar blefes semânticos e transgressões vocabulares.

Também as esquerdas, também os politicamente corretos, também os libertários, os patriotas e os indignados com as injustiças atrelam as palavras às respectivas onipotências e fazem com elas um vale-tudo. O resultado é um emaranhado de relativismos e prevaricações onde terroristas, num passe de mágica, transformam-se em ‘insurgentes’ desde que seus alvos sejam a favor das eleições no Iraque.

Bem-vindos à reedição da Torre de Babel onde, no futuro, reinará um enorme silêncio e onde só os gestos serão reconhecidos universalmente.

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