Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A realidade social nas temáticas de 1984

Por João Pedro Vicente em 13/04/2004 na edição 272

O ano era 1948 e George Orwell lançava seu romance 1984, no qual, através de uma história de ficção, deixaria implícitos seus conceitos e teorias sob o chamado socialismo real. O título do romance em si já é um grande trocadilho entre o ano de lançamento e a idéia de um futuro distante no qual tudo poderia estar transformado. Na verdade, Orwell estava relatando uma história que poderia ser interpretada como o presente daquele fim dos anos quarenta, mas em outro ambiente, a Rússia. De forma sutil, o autor desejava explicitar o que se passava no regime socialista de Stálin, criticar o socialismo, e tocar ainda em questões como liberdade, medo, rivalidade entre nações, domínio do pensamento e controle de ideologias.

‘Quem controla o passado controla o presente’ é um dos exemplos da maneira como Orwell interpreta a ação do poder sobre a população. ‘Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força’, sob o lema do Partido, personagens como Winston e Julia vivem uma história tensa e interior. A ação é psicológica e se passa na maior parte do tempo, dentro do pensamento do personagem Winston Smith, homem que trabalha no Ministério da Verdade, numa função que pode ser definida como um reescritor do passado. Pessoas mortas – vaporizadas – eram apagadas de jornais antigos, como se nunca tivessem existido. Previsões não cumpridas, metas governamentais não alcançadas, eram adulteradas nos meios de comunicação do passado, para que o Partido nunca perdesse sua credibilidade.

Em meio a este trabalho quase mecânico, repetitivo, bovino, assistido por teletelas – aparelhos instalados nas casas, ruas e salas de trabalho, que captavam toda forma de movimento, som e expressão –, Winston desfruta do único lugar onde ele é livre para ser ele mesmo, nos poucos centímetros cúbicos dentro de sua caixa craniana. O personagem não pode dar a perceber que está insatisfeito, que discorda, afinal, poderia ser denunciado à polícia do pensamento, e ser executado. Qualquer expressão de desagrado seria mortal.

Winston pensa calado no quanto a realidade parece irreal. Ele entende o modo como o partido funciona, mas não compreende o motivo pelo qual tudo é do modo como é. A realidade para ele é claramente transformada, mentirosa, adaptada ao gosto do partido. Mas as incertezas de Winston também são gigantescas, o que lhe garantiria que pudesse realmente existir algo de errado. O passado, antes da Revolução, advento que instituíra o pode do Grande Irmão, era inacessível. Sabia-se do período pré-revolução somente o que o Partido desejava que se soubesse. Winston pergunta-se se o passado capitalista seria mesmo tão sombrio e desumano quanto os meios de comunicação, todos estatais, relatam, como os livros escolares impõem. Tudo o que Winston tem em si é sua dúvida. Quer entender o passado, mas não consegue acreditar nele, já que ele próprio o altera. Winston sabe que não pode se expressar, que o simples fato de duvidar dentro de si já significava morte no futuro.

Dentro desta atmosfera intrincada, numa Londres do futuro, que se tornaria escura e pobre, dentro de um socialismo que levaria o ser humano à total submissão psicológica e vital, George Orwell fez sua análise do socialismo. O autor, que era também contra o próprio capitalismo, desejava mostrar mazelas e falhas do sistema russo; o personagem do Grande Irmão, que tudo via e a todos dominava, o poder atrás das teletelas, com rosto estampado em grandes retratos e nas moedas, foi uma clara alusão a Stálin. No ambiente descrito pela ação da história, a rotina é padronizada, o vocabulário reduzido ao máximo, rompendo-se inclusive as barreiras do laconismo. Ostracismo humano, reclusão social, morte de sentimentos, tudo o que parecia permitido era o amor pelo Estado, o ódio pelas nações inimigas, a idolatria pelo Grande Irmão. Dominada como uma colônia de abelhas, a população dirigia-se do trabalho para casa – moradias que eram estatais – alimentava-se do que lhes era dado pelo governo, vestia-se uniformemente. Mas sobre a massa parecia haver uma hierarquia que desfrutava deste domínio e seus frutos. A alta cúpula desconhecida e invisível. Haveria, no pensamento do contestador Winston, alguém em algum lugar escondido, que também contestaria um dia a aquilo tudo. Alguma resistência oculta. O olhar de alguém lhe dava esperanças, algum vacilo nas frases decoradas. Tudo começa a mudar quando Winston parece ser tocado por um braço real desta resistência imaginária, e sua vida pacata de homem de meia idade encaminhasse para um desfecho, onde perguntas seriam respondidas talvez, onde a realidade poderia ser menos mentirosa.

Dupliviver e duplipensar, na realidade do romance

O best-seller 1984 – livro mais vendido no século 20 – tem início com o protagonista da história chegando a sua casa. Um prédio estatal, que como tudo o que é estatal na história é nomeado ‘Vitória’. A mansão Vitória cheira mal e tem péssimo estado de conservação. Tudo na Londres daquele futuro longínquo – considerando-se a autoria do livro no fim dos anos 40 – era decadente. Dias cinzentos e frios. Ruas desertas, sem automóveis ou qualquer tipo de tecnologia. Casas de pintura antiga, tudo uniformizado em estilo e cores obscuras. Winston é o personagem principal, um homem de meia idade, aparência física abatida, estado de saúde precário. Trabalha para o Estado, reescrevendo jornais antigos, retirando deles passagens que não condiziam com a realidade atual. Previsões não cumpridas, pessoas que já não eram vivas, passagens do ontem que pudessem comprometer o andamento do hoje. Winston é apenas mão-de-obra, vêm-lhe através de um tubo pneumático que surge de uma das paredes de sua sala de trabalho as informações a serem modificadas. E ele cumpre, destruindo em seguida a ordem de trabalho, e tendo a certeza de que o antigo jornal seria certamente destruído, e somente a cópia modificada passaria a existir.

No prédio em que trabalhava, o Ministério da Verdade, Winston sabia existirem dezenas e dezenas de outras salas como a sua, todas iguais, com pessoas iguais em uniformes iguais, sempre assistidas pelas teletelas, objetos sensíveis ao som e à imagem internos, também presentes em todas as casas e na maior parte das ruas. As teletelas, aliás, exibiam imagens, como uma forma de televisor, e som. Aulas de ginástica às quais os indivíduos eram obrigados a participar, com satisfação no rosto, para não se denunciarem, músicas governamentais, exaltando a grandeza do Partido, notícias sobre o progresso crescente, a vitória na constante guerra. Londres faz parte de um continente chamado Oceania, que está em guerra contra a Eurásia. O terceiro continente é a Lestasia. Na Oceania de 1984, todos odeiam o inimigo, a Eurásia. Diariamente há o programa Dois minutos de ódio, no qual imagens do exército eurasiano, assim como a figura de seu líder, Goldstein, para que a população esbravejasse, canalizasse sua raiva, aprendesse a odiar instintivamente seu inimigo. Durante estas manifestações coletivas, Winston destaca da multidão a figura da moça branca de cabelos negros, cintura fina e corpo sensual, atlético. Ela odeia o inimigo com especial vivacidade.

Em seu apartamento, num ponto protegido da teletela da sala, Winston posiciona uma mesa. Ali, tem uma atitude de coragem, abre um caderno – objeto muito raro – e começa a escrever. Ele sabe que aquilo é loucura e que o levará à morte, mas dá início ao seu diário. Escreve sobre sua dúvida quanto à veracidade do ‘real’. Winston tem dúvidas sobre a grandeza do Grande Irmão e do Partido. Winston quer saber do passado, mas isso é impossível. O que teria se passado no mundo antes da Revolução? Em algum outro lugar alguém odiaria o Partido, como ele odiava? Winston vê nos olhos de um colega, O’Brian, uma sombra de dúvida, e enche-se de esperança. Nem uma palavra, nem uma expressão, apenas algo nos olhos dele que parece lhe afirmar que ele compartilha de seus sentimentos proibidos e mortais. Winston cala, mas sabe que pensar já é ousar. Ao seu redor, um exército de trabalhadores que realizam suas funções sem nada questionar, sem reclamar. São treinados e condicionados a não pensar. As músicas estatais saem da teletela durante todo o dia, é não é possível desligar o aparelho. Revoltar-se, irritar-se, significaria ser morto. Expressar discordância e opinião também levaria a este destino final. Deve-se aceitar as roupas, a comida ruim, o trabalho, as notícias inverossímeis de um progresso incondizente. Odiar o inimigo, amar o governo. Falar o mínimo possível e viver para a fidelidade do servir.

As novas gerações já desde a escola aprendiam a arte da espionagem, e a realizavam com orgulho dentro de suas próprias casas. Os filhos não pertenciam aos pais, mas sim ao Estado, e controlariam seus pais, denunciando-os para a morte, ouvindo atrás de portas, bisbilhotando, e orgulhando-se disso. As crianças eram desrespeitosas e voluntariosas, sentindo-se o futuro do exército de servidores. O idioma aos poucos passa a ser substituído pela Novilíngua. O novo vocabulário a cada edição do dicionário da novilíngua vinha mais curto e complexo. Uma mesma palavra poderia ser usada para expressar diversas idéias paradoxais, no chamado ‘duplipensar’. A luz e a treva estavam dentro da mesma palavra, tudo dependia do contexto. A interpretação dúbia serviria para confundir o ser humano, desacostumá-lo a pensar e tentar ser coerente. O Ministério do Amor, por exemplo, era o prédio onde as pessoas eram torturadas. O Ministério da Paz era responsável pela guerra. Tudo ao final se justificava num raciocínio cíclico. ‘Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força’. Esta era a principal frase de ordem do partido, estampada e repetida com a mesma freqüência com que se idolatrava a figura séria do rosto austero do Grande Irmão.

A Guerra era o único modo de se conseguir a paz, já que os inimigos eram perigosos e os exércitos precisavam estar sempre em ação. Além disso, a guerra civil fadada justificaria no fundo a segurança da população. A escravidão, sob teletelas e uma rotina de trabalho cada vez mais intensa e massificadora, eram as únicas formas de o ser humano ser livre; e isso porque somente dentro de uma rotina sem possibilidades de traição e fuga ele não representaria perigo e poderia ser mantido vivo. A ignorância diante do real, do passado, dos problemas, do que acontecia nos outros continentes, do que acontecia na vida alheia, do que acontecia em outra cidade, da própria geografia social, tudo isso mantinha o indivíduo seguro do que era dito pelos meios estatais, e forte dentro de convicções definitivas, ele sentia-se firme para seguir em sua rotina, sem dúvidas ou fraquezas.

Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força

Mas o ser nem estava pronto para interpretar a frase como fora feito no parágrafo acima. Lia-se apenas e aceitava, e essa é a maior prova de que na realidade de 1984 a população já absorveu o conceito dentro de si. A teoria está comprovada. A frase parece ter sido criada por Orwell para alertar e agir sobre o mundo ocidental capitalista que viesse a consumir o romance. Despretensiosamente, a princípio, alegando que aquela era apenas uma obra de ficção, o autor, sempre um inconformado social, contrário aos sistemas, denunciava o que estava se passando na Rússia daquela primeira metade do século 20, além de alertar para o que poderia se tornar o mundo se sucumbisse ao sonho socialista, que tanto se diferenciava das originais propostas do marxismo.

E é real o modo como se justifica a guerra em busca da paz, e a guerra civil e urbana, a pressão governamental, a desordem de um sistema judiciário corrompido. A burocracia, tudo isso é uma forma de guerra contra a população. Serviços do estado passam a ter uma qualidade cada vez menor e mais deficitária, e desta forma aos poucos assimila-se o conceito de que isso é natural, de que nada pode ser feito e que do bem público nada pode ser esperado. Que somente o pessoal, o privado pode ser efetivamente produtivo e eficiente. A guerra do estado contra cidadão é clara. No mundo desenvolvido de países ricos, tudo é controlado, assistido. Câmeras, invasão de qualquer tipo de privacidade, rastreamento de cartões de crédito, emissoras de TV a cabo memorizam a preferência de cada domicílio. Computadores ligados à internet denunciam os gostos de seus usuários, a cada novo site visitado, e computado.

No Terceiro Mundo, a violência de um sistema judicial, penitenciário, bancário e jurídico lento e pouco eficiente faz com que a população desacredite de si própria e de seu valor. Nada funciona como o previsto. ‘O Brasil é um país de taxas e filas’, já diz o pensamento popular, comprovando que o próprio senso comum assimilou a informação de que no país do carnaval nada é levado com seriedade. Bandidos parecem controlar a polícia. O governo cobra do cidadão impostos abusivos, pedágios rodoviários. Um sonho mentiroso de democracia é imposto quando elege-se um presidente sem diploma universitário para levantar-se assim a bandeira de que o homem comum também pode vencer um dia. A propaganda e a panfletagem realizadas sobre um novo presidente, homem sem refinamento cultural, é aceita e aplaudida pela mídia nacional. Jovens são obrigados a alistarem-se no serviço militar, sem ele, não têm direito a seus documentos mais básicos. Documentos que passam a ser cobrados para tudo. O ser humano tornou-se um número.

Essa é a guerra do Estado na realidade atual contra o cidadão. Cobranças, exigências, em troca de serviços deficitários. E a mídia lava o pensamento, impondo um ideal de vida, que justifica tudo, já que para que aquele ideal seja alcançado é preciso dar-se o esforço, o sangue. Cumprir-se as obrigações da ‘cidadania’. Cumprir seus deveres e aceitar seus poucos direitos, que na mídia falsamente feliz – porém consciente de seus deveres esporádicos – são suficientes, mas na vida real, não. Com a industrialização do país cresce o arrocho psicológico. Invasão imperialista. Redes de lanchonetes com preços absurdos para comidas banais. Do lado de um restaurante de fast-food árabe, uma criança descalça e com roupas rasgadas pede esmola na esquina. No estacionamento, um homem de meia idade, alcoolizado, pede para tomar conta do carro do cliente, enquanto este se alimenta de ilusão no interior colorido do local. Negando-se a dar uma moeda ao ‘guardador de carros’ o cidadão tem de ouvir ameaças. Ser ofendido por uma mazela social. E em casa, ver a mídia acusá-lo de ser o criador daquela mazela, o responsável pela miséria. O insosso prato do politicamente correto nos é imposto durante todo o tempo, goela abaixo. ‘Ajude, pague, colabore, seja solidário.’ Tudo uma grande mentira criada pelas pessoas para aliviar sua consciência. A sociedade é por si própria egoísta, mas também moralista, e seja no discurso pedante de um petista decadente ou na voz embargada de um assistente social, expressa-se sob a forma de senso comum. Mas é pura teoria. O real distancia-se mais do bíblico e aproxima-se muito do universo animal, onde o mais forte devora o mais fraco. Como somos racionais, temos a mais confortável das reações à nossa disposição: o cinismo. As pessoas não se importam. Apenas gostam de repetir. O que dá margem à incoerência, como a existência de padres pedófilos, ou pessoas contra o aborto reclamando da superpopulação. Assim como na Londres russa de George Orwell em 1984, o Brasil atual prova que poucos são aqueles que podem pensar e discernir as informações. A maior parte da população é meramente contemplativa.

Entre câmeras de vídeo e conversas de telemarketing, que ‘para segurança do cliente são gravadas’, vivemos na teoria a segunda parte do lema do governo do Partido. Guerra é paz? Sim, como foi dito, pois sem ela não será possível ter ordem e evoluir – querem que pensemos. E a liberdade, é escravidão? Na nossa sociedade mais uma prova. Assim como no universo orwelliano, o trabalho torna-se uma rotina mecânica. Repetições por produção e venda, sem criatividade. Não pela apatia da submissão, como no romance, mas pela ambição financeira, o indivíduo trabalha mais e mais. Esquece-se de si. Olha para o futuro com ganância. No dia-a-dia, é escravo da realidade que lhe é imposta. Todo o contexto que já estava pronto quando ele nasceu e que ele, cidadão comum, portador de cadastro de pessoa física e alistamento militar, simples mortal, nunca pensaria em mudar. Ou contestar, já que pouco se conhece sobre o resto do mundo, e o passado, quem garante, foi mesmo da forma como dizem?

Muitos vivem sem nunca deixar o mesmo ambiente, e dentro de sua subjetividade enxergam o mundo da maneira moldada que lhe é oferecida. A liberdade é um conceito apenas, mas nunca existirá por completo. Nunca poderá fazer-se tudo aquilo que se deseja, pois a partir do momento em que a vida se dá num meio social, numa estrutura com regras e proibições, o pensamento não poderá se concretizar se chocar-se contra alguma regra pré-instituída. Questionar é perigoso, exige argumentos convincentes. Há a possibilidade de quebra destas regras, mas a conseqüência pode amedrontar e coibir a ação.

Mas o limite de pensamento seja talvez a maior das coibições. A maior escravidão. A partir do momento em que se nasce, tem-se que usar roupas, falar um idioma, manejar dinheiro, estudar, fazer parte de uma religião, seguir um papel pré-determinado de acordo com seu sexo. O individuo se veste, fala, aprende a viver no capitalismo. Compra, consome. Idealiza, recebe conceitos pela mídia, o belo e o feio, o desejável e o deplorável. Acredita em um deus místico existente em algum lugar, mas que ninguém nunca viu. Suprem seus medos e inseguranças ao acreditarem nas crendices religiosas, que tem tanta credibilidade quanto o resto do folclore, mas que por tradições sociais são impostas.

Há a liberdade de não se pertencer a uma religião, e a todo o resto do sistema. Mas, vivendo nele, o indivíduo sofre pressão para ser igual, e sendo igual, sofre pressão para tornar-se algo diferente. Escravos de tradições de uma sociedade formada. Há pouco tempo um homem não teria direito de amar alguém do mesmo sexo. Em alguns lugares não o tem. O advento da homossexualidade serve como exemplo de como os conceitos mudam e se transformam. O conceito de bom e mau no caso da cultura é tão vago que nem é possível classificar-se. O fato é que o social muda. E por mais que possa pensar e estudar, sempre haverá alguma tendência comportamental forte agindo sobre a integrante da sociedade em desenvolvimento. Talvez ficará em desenvolvimento infinitamente, talvez evoluirá para algo estável num futuro, com uma população controlada em número, interessada em descobrir seus conceitos dentro de si, existencialista. Um ideal controlado, intelectualizado. Um ideal, que quero expressar claramente, é meu. O homem do futuro poderia ter dominado o crescimento populacional e se tornado racional, distante de alguns sentimentos e mais ligado à razão e criação. Talvez fosse esta a chave para a complexa questão da escravidão social. A análise deste passado, e das obrigatoriedades que surgem com ele. No mais, a liberdade parece impossível, visto que o tempo é escasso e as oportunidades parecem estar sempre se perdendo. A morte pode ser a grande desencadeadora do caos, já que não permite a transformação e não pode ser convertida. Como permitir a alguém a liberdade de tirar sua vida? Como controlar a imensurável vontade que você tem de tirar a vida de um indivíduo ao qual você despreza?

Talvez será sempre a liberdade um conceito distante, uma utopia marxista. Em 1984 ela não ocorre. O ser pensante representado por Winston debate-se dentro de si para resolver suas dúvidas e questões, mas ao fim termina vencido, sufocado pelo sistema maior. Eu queria poder viver para no futuro ser o homem que idealizei como evoluído. O existencial. Mas posso sê-lo no mundo atual, enquanto ele não se transforme para algo que possa sufocar meu ideal como foi sufocado o de Winston ao final do romance. A conclusão é que, enquanto existir alguma forma de regra e organização, o conceito de liberdade será um desejo, em algum aspecto, para alguns.

Abordando-se a terceira parte do lema do Partido: ignorância é força. Afirmação que pode ser ilustrada pela opção do cinismo, comum no capitalismo, quando seguimos nossa tendência natural de acomodarmo-nos em nossa satisfação e ignorarmos algum problema de origem pessoal alheia. Quanto mais se ignoram os problemas sociais, mais se pode acreditar na idéia de felicidade, e no alcance do idealizado. Fragilizando-se com as mazelas de um mundo extenso e complexo o indivíduo se enfraquece. Como já é da psicologia humana, a resistência atua no cérebro bloqueando as informações que não precisam estar à superfície da consciência o tempo todo. Nos esquecemos daquilo que é desagradável. A própria fisiologia humana age sobre a formatação da sociedade. Está no nosso cérebro que o que provoca dor e incômodo, a lembrança ruim deve ser enviado ao inconsciente. Lá age a resistência, e ignoramos. E seguimos, o sorriso publicitário brilha. Dentro da vida pessoal, das realizações de alguém, a idealização pode ser real. Mas há conseqüências. Como no caso do modo americano de vida, um ideal. Beleza e poucos conflitos e desafios psicológicos. Seus produtos culturais são uma prova concreta disso. A conseqüência é a poluição tão descontrolada naquele país.

Outro sentido para a palavra ‘ignorância’ muda o significado da interpretação. Duplipensemos, pois, e tenhamos ignorância pelo conceito pejorativo de falta de cultura e discernimento. Assim, a prole do romance aproxima-se em gênero, número e grau à prole do universo contemporâneo. Não contestam o mundo da classe média por não o conhecerem, tampouco se envolveriam na esfera superior. São a força, pois são a base social. O trabalhador mais pobre que realiza o mais árduo serviço em troca da mais mísera recompensa. Estagnado, não evolui socialmente, e nasce para morrer proletariado. Em alguma esfera, até o mais rico dos ricos tem sua dose de proletariado, como vimos. Se exigisse remuneração adequada, o proletariado levaria a elite à falência instantaneamente. Ignorância é força no sistema, como na sociedade das abelhas ou das formigas, porque o serviço duro tem que ser feito por alguém. É a ignorância da base que sustenta, nesta sociedade, a estabilidade do ápice. A teoria da pirâmide social aplica-se perfeitamente para exemplificar, inclusive, o número de indivíduos, que é maior nas bases pobres, e menor das elites refinadas. Se invertida, a pirâmide não teria sustentação.

Ignorância é força para que o indivíduo, seja em qual fatia da pirâmide ele esteja, seja capaz de não se desiludir totalmente em relação às mentiras que lhe foram contadas quando criança. Ao viver, a pessoa perde as ilusões e troca-as por informações, no seu ritmo e de acordo com a sua capacidade. É provável que ao mentir para seus filhos, na infância, os pais estejam idealizando seus sonhos de futuro. Ou estejam querendo apenas proteger o ser amado. Ou não queriam aceitar para si próprios que aquele indivíduo tão pueril, precisará seguir a doutrina do cinismo se quiser ser feliz em sua trajetória; e neste caso, o politicamente correto do meio seria responsável, por fim, por essas mentiras de infância.

Cotidianos sentimentos

De volta à ação do romance 1984, o personagem Winston Smith vive perturbado por suas dúvidas, dentro do silêncio confortável de seu pensamento, e da inexpressão adquirida em seu rosto. Mecanizado, como sem vida. Morto. É perceptível que suas reações e sentimentos não apresentam qualquer rubor de vivacidade. Tudo obedece ao uniforme ritmo ditado e que lhe é esperado. Winston vê a garota de pele branca e cabelos negros, que se destacara perante seus olhos durante a exibição dos Dois minutos de ódio. Ela está perto dele no Ministério da Verdade. Passa por ele algumas vezes na cantina. Aquilo parece ser tudo o que quebra a rotina de Winston, tão inquieto, se comparado ao patético comportamento de seus vizinhos ou colegas, que não falam em outra coisa senão no partido e o esperado evento da ‘Semana do Ódio’. Winston escreve em seu diário antes que as luzes se apaguem suas dúvidas, sua expressão de ódio ao partido. Somente ali ele pode se expressar. Winston sabe que está ousando demais. Winston foge de tanta pressão em rápidas incursões à periferia daquela Londres.

Os proles não oferecem perigo. São a massa trabalhadora mais miserável. Não são vigiados por teletelas. Não denunciariam ninguém à polícia do pensamento. Ali, na periferia, Winston pode andar por ruas escuras, e ver num antiquário, lembranças de um passado, papéis antigos, fotos de monumentos que já não existem. Relembrar com um idoso uma antiga cantiga do período pré-revolução. Tudo relacionado àquela parcela do tempo interessa muito a Winston. Um bloco de vidro, peso de papel. A moça dos cabelos negros aparece também na periferia, e Winston a odeia por sua juventude e força, e por sentir que ela é uma espiã que denunciará seu comportamento e o levará à morte.

As lembranças que Winston tem do sexo oposto resumem-se a uma prostituta pobre, idosa e repulsiva com quem consumara um ato sexual enquanto fora casado, e sua ex- esposa, uma mulher fria que encarava a atitude sexual como um dever para com o Partido, que precisava de novos soldados. Separações eram permitidas, e foram realizadas. A prole era deixada em paz por não representar perigo nem ser interessante de ser controlada. Isso, porque havia a necessidade da válvula de escape. As prostitutas eram permitidas, e eram todas da prole. Aquele era o modo fadado de calar o desejo sexual dos homens. O moralista Partido poderia ter executado as prostitutas, mas optou por mantê-las. Assim como a prole, que cumpria seu papel, como na sociedade atual, sendo a camada mais baixa que sonha um dia ascender. E também, para que a classe superior sentisse que é melhor do que alguém, o que também corresponde à nossa realidade. Winston procura por proletariados idosos que possam lhe falar do passado, mas não encontra ninguém que já não tenha se esquecido de tudo. Aquilo é perturbador para ele. A lavagem cerebral havia afetado a todos que pudessem ter feito parte do passado anterior. O instinto de sobrevivência dentro de Winston dá-lhe a certeza de que ele mataria a garota de cabelos pretos se pudesse se equiparar a ela em força. Da mesma forma como se arrepende por não ter matado a esposa no passado, quando estava com ela num campo livre de teletelas.

O encontro entre Júlia, a misteriosa jovem de cabelos negros, e Winston dá-se num dos corredores do Ministério da Verdade. Simulando uma queda ela é socorrida por ele e lhe dá um bilhete. Segue seu caminho como se nada estivesse ocorrendo. Somente mais tarde Winston abre o bilhete, junto com os papéis de seu trabalho, e vê a frase ‘eu te amo’. Perturbado, ele passa dias sem encontrar a moça, e teme perdê-la, ou que ela mude de idéia. Até que um dia consegue sentar-se à mesa junto com ela e trocam palavras, na cantina, sem se olhar no rosto. No meio da multidão passam desapercebidos das teletelas. Encontram- se num lugar lotado, novamente, e depois num descampado inóspito onde por fim podem se beijar, conversar, ainda que laconicamente e ter atos sexuais. Júlia é uma fingidora, finge amar o partido, mas o despreza, ama o sexo. E Winston ama a contravenção, por isso adora o comportamento pervertido da garota, integrante da Liga Juvenil Anti-Sexo, mas contraditoriamente, apaixonada pela idéia do ato sexual em si.

Winston aluga o quarto na periferia e passa a se encontrar com Júlia lá. Ambos vivem um caso de amor e sexo intensos. Júlia é contra o Partido, mas sabe que lutar contra ele é inútil. Por isso dissimula e segue a ideologia do cinismo, fingindo que nada do que ela faz é efetivamente real. Tudo é necessário para sua sobrevivência, e para a realização de seus desejos sexuais. Tudo no subterrâneo do segredo. Quando está com Júlia, Winston parece esquecer da guerra e da decadência social do mundo. Ignora os ratos e a infestação de percevejos do colchão do quarto que alugou na periferia dos proles. E imagina se como ele existirão outros. E se a revolta contra o partido existe em algum lugar, algum movimento secreto organizado de resistência. Sua nova divagação passa a ser esta.

É interessante o modo como os sentimentos são alterados pelo meio. A frieza é constante, e os personagens parecem terem tornado-se peças num tabuleiro. Agem da forma que se espera que ajam, principalmente por desconhecerem, ignorarem, a possibilidade de outras alternativas. Todos são conformados em consistirem em apenas uma ferramenta num sistema, acreditando inclusive que seu repetitivo trabalho e sua rotina resultavam no êxito governamental. Júlia faz parte do pequeno grupo que enxerga com outros olhos o regime, mas é totalmente conformada diante de sua incapacidade para transforma-lo. Ela é fria e calcula seus passos com audácia silenciosa e precisa. Mas guarda tudo para si. Pelo seu prazer de saber que está infringindo as regras. Os indivíduos todos, talvez até pelo laconismo impresso, parecem livres de qualquer tipo de vaidade e orgulho. Ou lutam por um prazer secreto, como no caso do par principal, ou por um ideal, como outros personagens, extremos defensores do regime, ou são meras peças na engrenagem do trabalho nos ministérios e fábricas. Winston parece ser o mais contestador de todos, isso porque vai ao cerne da questão. Ele sabe como tudo funciona, mas falta-lhe saber algo, uma informação objetiva e precisa que poderia responder em si várias, questões. Qual o motivo pelo qual tudo era do modo como ele via?

Conclusão

Não demora muito para que o romance entre Winston e Julia seja descoberto. O divórcio era permitido, não havia nada expressamente declarado contra o sexo, mas qualquer tipo de sexualidade que pudesse satisfazer demais, dar ao homem ou a mulher a sensação de realização, e aguçar seus sentidos na busca por outras formas de prazer, seria motivo certo para execução. E, no caso de Winston, que já havia sido casado uma vez, envolver-se com outra mulher seria visto pelos membros da Polícia do Pensamento como uma forma grave de prevaricação e ofensa à moral. Qualquer sentimento, de fato, parecia ser sufocado, e as atividades sexuais, entre os casados, era incentivada com o único intuito da procriação. Depois de ter acesso a um livro do antiquário que contava a história sem a intervenção estatal nas informações, Winston e Júlia são flagrados juntos no quarto que ele alugava na periferia para seus encontros amorosos. Para a surpresa de Winston, entre os policiais que os agridem surge o velho dono do antiquário, que lhe alugava o quarto. Mas sua aparência estava jovem, os cabelos brancos voltavam a ser negros, assim como as sobrancelhas. O rosto estava jovem e suave, já não usava óculos e mudara o modo de se vestir e a postura. Tinha claramente algo em torno de 35 anos, e era um membro da Polícia do Pensamento. Júlia e Winston são separados e presos. Winston é conduzido ao Ministério do Amor, o prédio onde ocorriam as piores torturas. Lá ele reencontra O’Brian, aquele em cujo olhar Winston podia perceber algo de mais esperto e pitoresco, aquele para quem em seu íntimo, o protagonista escrevia seu diário. Era pensando em O’Brian que Winston escrevia. Somente ele poderia entendê-lo, talvez. Somente ele poderia levar-lhe aos outros revolucionários, se estes existissem.

Winston fica preso numa cela por alguns dias e enfim é interpelado por O’Brian. Ele sabe que será executado. O’Brian diz ao prisioneiro que antes de qualquer coisa ele precisa ser reeducado. Absorver e aceitar as ideais do partido. Winston é torturado e tem uma longa conversa com O’Brian, o ápice do romance, e ele descobre que suas suposições estão certas, que a realidade é realmente outra, é modificada. Isso pelo simples fato de que o Estado é o poder. E o poder pode tudo, inclusive mudar a realidade. Se o Estado quisesse que dois mais dois fossem igual a cinco, então assim seria, e a maior prova daquilo era o trabalho de Winston, como todos os outros no Ministério da Verdade, além do duplipensar e da Novilíngua. O’Brian conta a Winston que sabe que tudo é deturpado e modificado, mas que aquilo não o incomoda: ele e poucos na alta cúpula eram os únicos que tinham consciência da deturpação da realidade, porque afinal estavam efetivamente por trás dela. Questionado sobre isso, O’Brian afirma que acredita na nova realidade porque ela é o que é válido, a antiga realidade fora apagada. Mas a grande questão de Winston é respondida um pouco depois. O’Brian finalmente explica, depois de reafirmar a forma como as coisas funcionavam, o motivo pelo qual tudo existia daquela forma. O motivo era o poder. O poder pelo poder em si. Ele se justificava. Pelo prazer do poder e da dominação, o Partido criava e recriava tantas mentiras e dominava a população. Pela simples força e detenção do poder e do controle. Por ser como era, o partido era absoluto e invencível e lutar contra ele seria inútil.

A resistência até existia e era em certa escala aceita, somente para depois de algum tempo, como no caso de Winston, o Partido tivesse o prazer de desfazê-la, reeducá-la e provar a si mesmo o seu poder. Ele passa a ser terrivelmente torturado na sala 101, a sala das maiores torturas. Ao fim da história, o Partido vence. O sistema volta a ser abençoado e vitorioso. A unidade do poder resiste. Winston é executado com um tiro no crânio. A única coisa que lhe pertencia de fato é invadida. E antes de morrer ele ainda olha o retrato do Grande Irmão, e entende como foi tolo naquela luta. Já não tinha realmente o direito de pensar, de questionar. O Partido voltava a ser soberano. Mais uma alma questionadora apagava-se. O final do romance, como se pode notar, é forte e chocante, como fora a idéia em si desde o princípio. As palavras utilizadas no último parágrafo trazem uma ironia muito carregada e agressiva. George Orwell tenta tranqüilizar no contexto, utilizando as palavras que despertam total impaciência. O partido é absoluto e vence. De nada adiantou a contestação do personagem. O sistema é impenetrável.

‘Oh, mal-entendido cruel e desnecessário! (…) Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo,
acabara a luta. Finalmente lograra a vitória sobre si mesmo. Amava o Grande Irmão.’

E assim termina. Uma grande crítica, uma grande análise, vinda de um pensador inconformado com os sistemas, tanto capitalista quanto socialista. O romance faz com que pensemos na dialética do poder e da manipulação de informações, do controle massificado. Realidade, liberdade e medo. Um romance que deveria ser lido por todos, em nome da expansão dos limites críticos e de pensamento, estudado e interpretado para que tais questões não passem despercebidas no novo século, cujos caminhos já apresentam-se intrincadamente ligados aos temas de Orwell.

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Estudante de Jornalismo, Ribeirão Preto, SP

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