Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Escola, hora da escolha

Por Gabriel Perissé em 25/01/2005 na edição 313

– Nossa escola é puxada, viu?! – afirmou a diretora aos pais que vieram matricular a menina.

– Puxa! Escola puxada é tudo o que desejamos para nossa filha!

A menina olhou para a diretora, que lhe sorria com todos os dentes do fundo. Olhou para os pais, e sentiu um aperto no coração. Escola puxada? Mas o que é que vão puxar aqui? Puxar as minhas orelhas?

À noite, a menina puxou o lençol até os olhos. No dia seguinte, seria puxada por professores, sabe Deus para onde. Sonhou que estava amarrada por mil cordas e um gigante a puxava para cima e para baixo, como ioiô. Sonho puxa sonho: outras cenas terríveis povoaram sua última noite antes de estrear na nova escola, uma escola puxada, e não mais aquela escolinha frouxa em que estivera antes de completar 5 anos de idade.

Acreditamos em você

De manhã, quase que puxada pelo pai, foi deixada na escola. E ao longo de um ano, ao contrário de suas previsões, ninguém lhe puxou nada. Vez por outra a diretora puxava o hino nacional, mas quem tinha que cantar mesmo eram os alunos. Ela só murmurava, com rosto de devoção à pátria…

A biblioteca vivia fechada. Vazamento.

Aula de balé, música da Xuxa.

Aulas insossas com professoras cheias de boa vontade mas com apenas uma ou duas pinceladas de Paulo Freire e Piaget.

No livro didático, meio ultrapassado, a imagem do antigo telefone de disco.

Certo dia, certa empresa visitou a escola trazendo um iogurte novo para as crianças degustarem. Um pequeno teste: ‘Você gostou?’. ‘Deveria ser mais doce?’.

Não houve, ao longo do ano, nenhuma reunião com os pais. A escola enviava bilhetes dentro da agenda da menina, avisando de um passeio à fascinante e ‘engordadora’ fábrica de refrigerantes ou sobre a necessidade de enviar dinheiro para alguma atividade que projeto pedagógico algum tinha previsto.

Em novembro, a menina pediu para sair da escola. Cansara-se de ouvir os gritos da professora da sala ao lado, que seria sua no ano seguinte.

– Gritos?! Nossas professoras jamais gritam!!

A menina olhou apreensiva para os pais. Mas eles responderam à diretora:

– Se nossa filha disse que há gritos, é porque é verdade. Acreditamos em você, filha. Vamos procurar outra escola. E se alguém nos disser que a escola é puxada, vamos verificar primeiro quem está puxando a carroça!

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Doutor em Educação pela USP e escritor

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