Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

SPECULUM > REALISMO NU E CRU

O mamute deu certo

Por Gabriel Perissé em 23/11/2004 na edição 304

Quem ainda não viu na internet a história do mamute pequenino que queria voar, fumar, beber, transar e drogar-se? Os jovens reagem de modo positivo ao humor pesado desta fábula virtual, como se vê por este comentário de um internauta adolescente depois de ter acompanhado o triste fim do mamute: ‘Porra!!! Muito boa a história!!! eh engraçada e tbm tem uma moral q eh bem a real!!!!…’

O mamute, animal extinto, busca o prazer a todo custo, mas como é ainda um iniciante, não consegue sozinho satisfazer os seus desejos de tornar-se ‘gente grande’. O aparecimento providencial de outros animais que lhe facilitam as coisas obriga-nos a repensar no valor da amizade. A pomba que aconselha o mamute a saltar do quinto andar de um prédio, o cachorro que ensina o mamute a fumar, o urso que o ajuda a beber todas, o jegue que apresenta ao mamute cem prostitutas, o gato que traz cocaína para o mamute cheirar, todos esses ‘amigos’ chegam no momento certo com a solução errada.

No final de cada um desses episódios, aparecem ratinhos que, com cara de sonsos, perguntam a mim e a você – ‘E o que aconteceu?’. As respostas são diretas: virou m…, teve câncer, cirrose, aids, overdose, o mamute morreu!

Canção libertária

A moral do mamute suscita outra reflexão. O que deverá fazer o nosso pequeno mamute para realizar-se? Voar, fumar, beber, transar e drogar-se são descaminhos, mas por onde podemos seguir?

A alegria que sentimos ao amar, conviver, estudar, trabalhar leva-nos ao êxtase. Êxtase é, segundo a etimologia, sair de si mesmo. Transcender-se. Superar-se. Somente saindo de mim mesmo poderei me reencontrar. A ética e os seus paradoxos. Como paradoxais são os processos da vida criativa. Pedagogicamente falando, ensinar quanto valem os valores consiste também em apresentar o preço que pagamos quando preferimos os pseudovalores. O mamute, dando-se mal, nos ensina a dar certo.

A debochada canção do grupo El bando (www.lrcastudios.com.br/elbando/) é mais eficaz do que todas aquelas campanhas recomendando o uso de camisinha, desestimulando o tabagismo e o consumo de drogas, alertando contra o excesso de bebida alcoólica. A canção evita o tom desafinado dos moralistas e adota o realismo nu e cru que os jovens, tão sonhadores, reivindicam com todas as forças de sua inexperiência.

Quem canta esta canção libertária espanta (e desmitifica) uma vida aparentemente livre.

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Doutor em Educação pela USP e escritor

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