Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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O mundo de Nietzsche

Por Gabriel Perissé em 05/10/2004 na edição 297

O livro Quando Nietzsche chorou, de Irvin D. Yalom (pela Ediouro), chegou à 10ª edição quase 10 anos depois de ter sido publicado em português. Esta é a carreira típica de um bom não-best-seller: vende pouco mas vende sempre.

Lembrou-me O mundo de Sofia, no qual Nietzsche é mencionado rapidamente. Lembrou-me por ser um romance que ajuda a vulgarizar a filosofia, sem lançá-la na ‘vulgaridade’. O mundo de Nietzsche para além de seus escritos. Suas palavras contextualizadas num diálogo humano. O que me fez sentir vontade de reler o pensador alemão.

É importante ver a humanidade demasiadamente humana de um ser humano. Sobretudo quando este ser humano é um escritor que influencia a humanidade. A enxaqueca de Nietzsche é a enxaqueca de uma civilização decadente. A paixão de Nietzsche por uma mulher, que não o acolhe, é a frustração de todos os corações que um dia se apaixonaram. O ateísmo de Nietzsche é a coerência que muitos não tiveram e não têm a coragem de assumir, e fazem da religião (pensemos nas formas sociais ‘religiosas’ vigentes na segunda metade do século 19, e pensemos nas de hoje) refúgio de suas ‘boas intenções’.

Tom profético

Vou reler Nietzsche. Em particular, quero saborear de novo os seus aforismos (como volta e meia saboreio os aforismos de Pascal), esse gênero de escrita que não perde tempo com justificativas. O aforismo apresenta, provoca, excita a mente, não quer argumentar.

Nietzsche desprezava a filosofia organizada de Hegel e Kant. No fundo, como já se disse milhares de vezes, era um poeta, um escritor, um visionário. Fragmento retirado de seu espólio: ‘Só se fica grávido do próprio filho’. Só podemos escrever aquilo que somos. Tornarmo-nos o que somos, eis o desafio clássico que o niilista Nietzsche absolutiza, e com razão. Mesmo quando perdeu a razão!

As lágrimas de Nietzsche falam, como todas as lágrimas humanas neste vale… O solitário pensador pensa até o fim, até o limite do bom senso, e o ultrapassa. Mas ninguém consegue livrar-se da própria sombra. O pastor luterano que seu pai foi nele, filho, revive de algum modo. O tom profético, o amor-ódio por Cristo, a consciência atormentada… Outro fragmento enigmático: ‘Tive eu alguma vez escrúpulos? – minha memória fica bem calada a essa pergunta’.

Vou reler Friedrich Nietzsche. E que Deus, cuja morte/ressurreição já experimentei, me ajude nesta nova morte!

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Doutor em Educação pela USP e escritor

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