Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Uma experiência pensante

Por Gabriel Perissé em 08/02/2005 na edição 315

Ter uma experiência pensante com a linguagem, como recomendava Martin Heidegger. Pois é disso que se trata e é o mínimo que se espera dos animais falantes-pensantes.

Deixar que a vida resvale sobre nós, não fazer o menor esforço de reflexão sobre o que somos ou deixamos de ser, sobre o que queremos ou o que poderíamos querer, sobre o tudo e o nada (e sobretudo sobre o nada…) – deixar ‘rolar’ é enrolar-se a si mesmo. Auto-engano.

Deixar-se aspergir apenas pelas palavras da notícia, sem nada aprofundar: o papa doente, Lula vaiado, as chuvas de novo, tudo nunca tão igual ao como sempre…

Aquela frase sempre volta à minha memória, lida num tapume em forma de pichação: ‘Se você está tranqüilo é porque está mal informado’. Péssima tranqüilidade a minha, eu que, como Drummond se queixava, ainda não li tudo o que os gregos nos legaram.

A propósito, estou atrasadíssimo, não apenas na leitura dos antigos, mas também na dos contemporâneos e conterrâneos. Sei que há poetas, romancistas e contistas brasileiros escrevendo, merecedores de atenção.

Estou devendo horas de leitura aos poloneses, aos finlandeses, aos panamenhos, aos australianos!

Filósofos grandes e mirins

Como posso dormir em paz sabendo que ainda não reli o pouco que li de T.S. Eliot?

Relendo esta semana Crátilo, de Platão, vi o quanto é necessário – talvez a única coisa necessária – ter uma experiência pensante com a linguagem.

Falar, dialogar, dar nomes – atos humanos por excelência.

Nomeando, inscrevemos em nossa inteligência o ser do que foi nomeado. Trazemos o objeto extra-mental para o âmbito da nossa consciência. E, a partir desse momento, podemos atuar sobre ele: para conhecer e cuidar, ou para manipular e destruir.

Dialogando, vemos o lógos atravessar-nos, transfixar nosso ser, reunir nossas energias, ou dispersá-las no blábláblá.

Falando um dizer que diz o ser, torno-me filho da palavra, e dela recebo o sentido que dá sentido ao meu silêncio.

Os participantes do diálogo com a palavra sabem que as soluções fáceis são ilusões crassas, e aprendem, assim, a abdicar do imediatismo, da arrogância e da intransigência. O positivo da negatividade – não entender é uma grande lição.

Minha filha de 5 anos, pequena filósofa, outro dia reagiu quando tentei escapulir de uma exigência sua, e lhe dei respostas vagas. Respondeu-me ela: ‘Pai… você disse uma mentirosa palavra!’

Não me disse que eu dissera uma mentira. Preferiu antepor o adjetivo à pobre palavra…

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Doutor em Educação pela USP e escritor (www.perisse.com.br)

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