Domingo, 18 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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Emissoras falham no debate sobre saúde mental

Por Maura Oliveira Martins em 06/06/2016 na edição 906

A apresentadora Ana Hickmann, da Record, sofreu um atentado em um hotel de Belo Horizonte, no dia 14/5.  Um fã hospedou-se no mesmo hotel que ela e, armado, invadiu seu quarto e tornou-a refém. Em uma reviravolta ainda não esclarecida, o cunhado da apresentadora acabou desarmando e matando o invasor. Sua esposa levou tiros que eram destinados a Ana e teve que ser hospitalizada.

O episódio foi, obviamente, um prato cheio para as emissoras acostumadas a noticiar tragédias do cotidiano. Agrega-se aqui o fato de que o acontecimento atingiu uma pessoa famosa e os elementos repletos de bizarrice, que atiçaram a curiosidade do público, por serem bem próximos às narrativas de ficção, como os romances policiais (a relação doentia entre fãs e ídolos, por exemplo, é tema bastante explorado no gênero de suspense).

As emissoras, é claro, fizeram uso desse material que parece inesgotável – com transmissões ao vivo enquanto as peças ainda se encaixam, as entrevistas comovidas com os envolvidos, as buscas de falas mais especializadas, etc. Não entrarei aqui no mérito da qualidade – ou da pertinência – desta cobertura. O que me chamou a atenção foi a primeira entrevista concedida pelo marido de Ana Hickmann, reproduzida por vários canais .

Em uma espécie de entrevista coletiva, Alexandre Corrêa declarou aos jornalistas: “Isto não é brincadeira, isto não é circo, não é briga de boate, não é assalto de trânsito. Isto é uma coisa tão grave que a gente precisa olhar para isso e entender que o mal existe. E a partir do momento que você consegue isso, você dá dois passos para trás e tenta olhar para isso com os olhos do bem (…). A partir de hoje, nós passamos a acreditar no mal, na loucura, na paranoia e na premeditação”.

Obviamente, ainda tomado pelo calor do momento, e visivelmente abalado, Alexandre alternava discursos significativos na sua fala. Por um lado, em louvável lucidez, desvia de todas as perguntas protocolares e insensíveis feitas pelos repórteres: quando perguntado sobre como estão Ana e seu irmão, argumenta que só um especialista poderia responder. Por outro, acometido pela imponderabilidade do acontecimento, traduz o ato – realizado, evidentemente, por alguém que possuía alguma doença mental – como uma prova da existência do mal.

Erraram, certamente, todos os veículos que buscam em desespero pela primeira fala da pessoa atingida por uma tragédia, sem quaisquer condições de significá-la para uma audiência massiva. Sem intenção, Alexandre Corrêa – mas não apenas ele – faz perpetuar uma visão extremamente nociva de todos aqueles que enfrentam algum tipo de distúrbio mental, independente da gravidade, aqui postos em equivalência à personificação do “mal” e em oposição aos perfeitamente saudáveis, os “olhos do bem”.

Ora, vale lembrar aqui que a televisão é fascinada pela discussão acerca das diversas nuances da saúde mental. Sendo a TV um produto social, atrelada sempre às suas demandas e visões de mundo, não poderia ser diferente – afinal, como lembra o jornalista Jon Ronson, somos todos obcecados por saber os limites entre ser ou não ser normal. E também por sermos essencialmente narcisistas, é natural esperar que os programas televisivos também se ocupassem de tantos formatos que supostamente ajudam a “nos entender”. Os norte-americanos até já criaram uma categorização a este tipo de programa: seria o theraptainment, a terapia via entretenimento, ou o entretenimento fundamentado nos princípios das terapias.

 

A terapia via televisão

 

Um resgate da memória talvez nos faça lembrar de vários programas, que vão desde os ficcionais, como In Treatment (em versão israelense e norte-americana), Sessão de Terapia (versão brasileira), mesmo Hannibal. Alguns podem identificar a presença destes formatos na chamada reality TV, em programas como Acumuladores, na TV a cabo, e Supernanny (que faz terapia em grupo com famílias que não conseguem educar os filhos – ao menos conforme certos conceitos do que se considera educação) ou mesmo os mais trash e com menos credibilidade, estilo “barraco”, como Casos de Família e Você na TV, de João Kleber.

Em comum, seria possível dizer que todos se conectam em uma mesma lógica: trazem protagonismo às tragédias comuns que nos acometem individualmente e nos ligam socialmente. Assistindo à discussão do problema do outro, buscaríamos auxílio a nós mesmos. Mais que isso, estes programas tentam investigar, com mais ou menos sucesso, as profundezas daquilo que fazemos e sentimos. Tentam traduzir em linguagem aquilo que habita na esfera do intraduzível, do inconsciente, dos padrões de comportamento que fogem à compreensão lógica.

E aqui chegamos à grande questão enfrentada pela TV: como falar com suficiente clareza sobre o que é absolutamente complexo? Como organizar esta discussão para um público heterogêneo, muitas vezes bastante simples, de forma a ajudá-lo a viver bem? Como fazer isso sem cair no risco do discurso da autoajuda, do delivery de terapia que tudo simplifica e, ao fim das contas, não modifica coisa alguma?

Parece-me que a televisão ainda busca o formato ideal de theraptainment, sem sucesso. No entanto, destacaria que a TV já teve um formato bastante interessante deste tipo de programa, que foi a primeira versão de Casos de Família do SBT, por 5 anos comandado pela jornalista Regina Volpato. Muito distante do tom “mundo cão” do programa atual, com Christina Rocha, Casos de Família promovia uma espécie de terapia coletiva à gente muito humilde, trazida ao palco para contar suas histórias de uma forma pouco condescendente e valorativa.

As pessoas que participavam dos quadros de Casos de Família não eram julgadas ou estigmatizadas, mas, sim, convidadas a tecer seus problemas sob suas próprias lógicas. Comovia, sobretudo, o esforço que faziam para traduzirem suas misérias dentro de suas limitações de linguagem, e o olhar terno, mas firme, de Regina e dos psicólogos convidados, Dr. Ildo Rosa e Dra. Anahy D’Amico.

Com suas falas especializadas mas tornadas acessíveis na medida correta, este Casos de Família era uma centelha de esperança de que a TV pode, sim, trazer ao público alento e informação útil a partir do entretenimento. Pena que, ultimamente, a discussão sobre a saúde mental pareça deslocada ao sensacionalismo e à redução maniqueísta do bem contra o mal.

***

Maura Oliveira Martins é jornalista, professora universitária e editora do site A Escotilha

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